Escocês falsificado

21/05/2007

Para não voltar das férias numa nota séria demais, que definitivamente não combinaria com meu estado de espírito hoje, aqui vai a história (acesso livre, em inglês) de Chris Baker, um escocês de 26 anos que lançou – na internet, onde mais? – um “projeto literário” com potencial para deixar muito autor aspirante morrendo de inveja.

Por meio do site I Want A Word, qualquer pessoa pode comprar por uma libra esterlina (cerca de R$ 3,80) o direito de escolher uma das palavras que o sujeito, autor inédito, usará num romance. O plano é misturar dez mil palavras pagas com, suponho, outro tanto de graça para dar liga. “Um livro que consiste nas contribuições de 10 mil pessoas tem o potencial de ser algo muito especial”, diz Baker.

A suposta graça, parece, é escolher termos bem difíceis para deixar o autor em apuros. Se tudo der certo, serão dez mil libras no bolso do cara, mas aposto que não dá: mesmo a estupidez humana tem limites. Até o momento, Baker só conseguiu vender 13 palavras. Mas ninguém deve desanimar. A Grande Web-Gincana Literária Mundial está só começando.

Contos personalizados tatuados diretamente na pele do leitor, alguém?

31 Comments

  • Tibor Moricz 21/05/2007 at 16:44

    Vender palavras. Uma a uma. Acho que já vi alguma coisa parecida por aí. Ah, acho que era espaços (alguns, diminutos), mas não lembro pra quê. Só sei que era na Net.
    Com criatividade vende-se qualquer coisa. Até bosta. Uma boa embalagem, uma fita, um cartão e… voilá! Bosta enlatada a preços módicos. Vai encher de interessados.

  • Tibor Moricz 21/05/2007 at 16:46

    Ah, bom retorno ao batente. Legal estar animado. Aposto que não dura mais que dois ou três dias… :-\

  • Éd Lascar 21/05/2007 at 16:58

    Falando em cobrar, acho que o Tutty vai fazer isso de voce, Sérgio! Ele andou especulando/digressando sobre a palavra “laica”! Ehehehehe…

    Falando nisso, eu pago 3,80 para você se ,no próximo seu, inserir a palavra “digressando”!. Very unusual! :o)

    Ehehehe..

  • Éd Lascar 21/05/2007 at 16:59

    Livro, próximo livro, eu quis dizer.

    Abs.

  • Te 21/05/2007 at 17:10

    Pra que neguinho vai pagar pra dar palpite, se pode fazer isso de graça nos blogs?
    Quem era que dizia “digressiono”? Jânio Quadros ou algum personagem literário?

  • Ana Z. 21/05/2007 at 17:25

    Sobre o assunto, li este texto há pouco tempo… Tomo a liberdade de transcrevê-lo.

    “Ouviu dizer que o Brasil sofria de uma grave falta de palavras. Em um programa de TV, viu uma escritora lamentando que não se liam livros nesta terra, por isso as palavras estavam em falta na praça. O mal tinha até nome de batismo, como qualquer doença grande, “indigência lexical”.
    Comerciante de tino que era, não perdeu tempo em ter uma idéia fantástica.
    Pegou dicionário, mesa e cartolina e saiu ao mercado cavar espaço entre os camelôs. Entre uma banca de relógios e outra de lingerie instalou a sua:
    uma mesa, o dicionário e a cartolina na qual se lia: ‘Histriônico – apenas R$ 0,50!’.
    Demorou quase quatro horas para que o primeiro de mais de cinqüenta curiosos parasse e perguntasse.
    – O que o senhor está vendendo?
    – Palavras, meu senhor. A promoção do dia é histriônico a cinqüenta centavos como diz a placa.
    – O senhor não pode vender palavras. Elas não são suas. Palavras são de todos.
    – O senhor sabe o significado de histriônico?
    – Não.
    – Então o senhor não a tem. Não vendo algo que as pessoas já têm ou coisas de que elas não precisem.
    – Mas eu posso pegar essa palavra de graça no dicionário.
    – O senhor tem dicionário em casa?
    – Não. Mas eu poderia muito bem ir à biblioteca pública e consultar um.
    – O senhor estava indo à biblioteca?
    – Não. Na verdade, eu estou a caminho do supermercado.
    – Então veio ao lugar certo. O senhor está para comprar o feijão e a alface, pode muito bem levar para casa uma palavra por apenas cinqüenta centavos de real!
    – Eu não vou usar essa palavra. Vou pagar para depois esquecê-la?
    – Se o senhor não comer a alface ela acaba apodrecendo na geladeira e terá de jogá-la fora e o feijão caruncha.
    – O que pretende com isso? Vai ficar rico vendendo palavras?
    – O senhor conhece Nélida Piñon?
    – Não.
    – É uma escritora. Esta manhã, ela disse na televisão que o País sofre com a falta de palavras, pois os livros são muito pouco lidos por aqui.
    – E por que o senhor não vende livros?
    – Justamente por isso. As pessoas não compram as palavras no atacado, portanto eu as vendo no varejo.
    – E o que as pessoas vão fazer com as palavras? Palavras são palavras, não enchem barriga.
    – A escritora também disse que cada palavra corresponde a um pensamento. Se temos poucas palavras, pensamos pouco. Se eu vender uma palavra por dia, trabalhando duzentos dias por ano, serão duzentos novos pensamentos cem por cento brasileiros. Isso sem contar os que furtam o meu produto. São como trombadinhas que saem correndo com os relógios do meu colega aqui do lado.
    Olhe aquela senhora com o carrinho de feira dobrando a esquina. Com aquela carinha de dona-de-casa ela nunca me enganou. Passou por aqui sorrateira.
    Olhou minha placa e deu um sorrisinho maroto se mordendo de curiosidade.
    Mas nem parou para perguntar. Eu tenho certeza de que ela tem um dicionário em casa. Assim que chegar lá, vai abri-lo e me roubar a carga.
    Suponho que para cada pessoa que se dispõe a comprar uma palavra, pelo menos cinco a roubarão. Então eu provocarei mil pensamentos novos em um ano de trabalho.
    – O senhor não acha muita pretensão? Pegar um…
    – Jactância.
    – Pegar um livro velho…
    – Alfarrábio.
    – O senhor me interrompe! Está me enrolando, não é?
    – Tergiversando.
    – Quanta lenga-lenga…
    – Ambages.
    – Ambages?
    – Pode ser também evasivas.
    – Eu sou mesmo um banana para dar trela para gente como você!
    – Pusilânime.
    – O senhor é engraçadinho, não?
    – Finalmente chegamos: histriônico!
    – Adeus.
    – Ei! Vai embora sem pagar?
    – Tome seus cinqüenta centavos.
    – São três reais e cinqüenta.
    – Como é?
    – Pelas minhas contas, são oito palavras novas que eu acabei de entregar para o senhor. Só histriônico estava na promoção, mas como o senhor se mostrou interessado, faço todas pelo mesmo preço.
    – Mas oito palavras seriam quatro reais, certo?
    – É que quem leva ambages ganha uma evasiva, entende?
    – Tem troco para cinco?”

    * Fábio Reynol (1973), paulista da cidade de Campinas, é jornalista e escritor. Trabalha como assessor de imprensa, redator para Internet e ghostwriter. Tem vários trabalhos, nenhum publicado, entre eles o livro-reportagem “A verdadeira história de Pedrinho Matador” escrito em parceria com a jornalista Patrícia Capovilla.

  • Bernardo Brayner 21/05/2007 at 17:28

    Parece o site que vende cada pixel. Será que é isso que Tibor tenta lembrar?

  • Tibor Moricz 21/05/2007 at 17:33

    Isso mesmo, Bernardo. Thank´s.

  • Tibor Moricz 21/05/2007 at 17:50

    Vendi a palavra histriônico pro Roberto Schultz mas ele ainda não me pagou. Na verdade nem quero que pague. Pra isso ele precisa voltar. Brrrr….

  • quilópode argonauta 21/05/2007 at 18:14

    Tibor, bata na boca. AGORA! Mania de falar coisa feia…

  • Djalma Toledo 21/05/2007 at 19:30

    Me faz lembrar o Jaguar. Desenhou o mapa do Brasil na toalha de mesa do Bar Luiz e foi vender no Largo da Carioca (*);
    Negão — Pra que que serve isso ?
    Jaguar — Do jeito que esta não serve pra nada.
    Jaguar — quem manda eu ser honesto.
    —————————————–
    (*) Qual outra cidade tem rua ou praça em homenagem a mulher ?

  • Cássia 21/05/2007 at 23:41

    Eba! Bem-vindo de volta. Não vai inventar de vender teu espaço de comentários, hein? :-)

  • Rafael Rodrigues 21/05/2007 at 23:48

    tem um escritor brasileiro que é pioneiro nisso, ele vivia pedindo doações em cash e divulgava o número da conta corrente e tudo. ao menos esse crédito, o de pioneiro, tem que ser concedido a ele hehehe

  • Daniel Brazil 22/05/2007 at 00:21

    Ô, Djalma, você não conhece o Tabuleiro da Baiana ou a avenida Paulista?
    Bom te ver de volta à labuta, Sérgio!

  • Nevilton 22/05/2007 at 02:24

    a iniciativa do tal Baker é até divertida, mas o que me comoveu mesmo na matéria la no Scotsman foi o comentário sobre a cidade que ele mora, The Inch:
    “Is The Inch really as small as it sounds ?

    And shouldnt it be called The 2.54 Centimetres ?”
    rsrsrsrs

  • Noga Lubicz Sklar 22/05/2007 at 06:57

    Por enquanto eu não vendo palavras, nenhuma “ambage” pra vender (essa foi f). Mas não sendo Mirisola nem nada, desde que inaugurei o blog peço doações no PayPal. Um amigo meu acha absurdo, humilhante, atitude de pedinte, mas no “primeiro mundo” é normal. Te dou o que vc precisa, todo santo dia no blog, vc me dá uma graninha voluntária de volta. Nunca rolou, brasileiro é unha-de-fome à beça pra cultura .

  • Noga Lubicz Sklar 22/05/2007 at 07:05

    Ah, sim. Esta semana comecei a testar meu MercadoLivro. Pretendo vender lá meu Hierosgamos, que será publicado em breve: direto do autor com autógrafo e tudo, frete grátis, masi barato que nas livrarias e ainda em 6x pelo cartão.

  • Djabal 22/05/2007 at 07:24

    Seja bem vindo. A leitura diária do seu texto é hábito, que causa uma dependência muito grande. Abraços.

  • Rodrigo 22/05/2007 at 10:17

    Apenas alguém que começou a fazer no varejo o que já se fazia no atacado há muito tempo. Mera logística.

  • Rodrigo 22/05/2007 at 10:17

    Apenas alguém que começou a fazer no varejo o que já se fazia no atacado há muito tempo. Mera logística.

  • Claudio Soares 22/05/2007 at 10:19

    Welcome back, Sérgio!

  • Mr. Ghost(WRITER) 22/05/2007 at 10:40

    Sérgio,
    Bem vindo… espero que as férias tenham sido boas…

    Sobre o post, bem, alguém podia vender uns neurônios para o “brilhante” autor…

  • joao gomes 22/05/2007 at 11:34

    Bem-vindo!

    Confesso que senti falta de ti e de teu trabalho aqui.

    Mas isso me fez escrever algo diferente e postar por este mundao da Net!

    Mister Baker se tiver um bom esquema de marketing conseguirá até cem mil palavras. (e aí ele acabará desistindo de ter que escrever algo inteligível usando essa galáxia de palavras. O feitico vira contra o feiticeiro.)

    Por outro lado a originalidade da idéia está em se receber antes de se fazer o serviço. Isso é algo bem esperto. Escritor free-lancer, trabalhando “sob encomenda”.
    Se nao der certo, os “investidores” precisam providenciar seguro.

    A Revista Piaui tem algo similar. Mas, é uma frase. Naturalmente esdrúxula. Isso me faz relembrar uma ocasião quando falei a turma de sala de aula que um fato era algo estapafúrdio e aí me perguntaram o que era. Disse que era esdrúxulo. (sem perceber que eles também nao entenderam essa segunda).

  • Marco Polli 22/05/2007 at 14:14

    Confesso que o Todoprosa é viciante. Já estava com crise de abstinência.

    Assim como aqueles desenhistas de praça pública, os escritores poderiam ir com seu laptop (no seguro) para a rua e fazer minicontos ao gosto do freguês. Faria sucesso o pacote “mapa astral + narrativa”. Olha aí, freguesia…

  • clelio 22/05/2007 at 15:11

    Grande Sérgio,
    bom retorno. Essa história de tatuar o livro na pele do sujeito me lembrou um conto do Ray Bradbury que li há algum tempo, chamado “o homem ilustrado”, ou algo assim.
    Abraço

  • Tibor Moricz 22/05/2007 at 15:13

    O Homem Ilustrado… puta livro bom.

  • Rafael Rodrigues 22/05/2007 at 15:29

    Sérgio, adorei essa frase que você escolheu, do Cocteau “Preste muita atenção nas primeiras críticas ao seu trabalho. Descubra exatamente do que, nele, os críticos não gostam – e então cultive isso. Essa parte é a mais original, aquela que vale a pena conservar.” Desde que a coisa não seja abominável ou ridícula, acho que esse é o caminho mesmo. Cultivar e refinar.

  • Tibor Moricz 22/05/2007 at 16:11

    Caro Rafael, não posso deixar de mencionar: você chorou com o milésimo gol do Romário? Deve ter sido muito engraçado… :-]

  • Rafael Rodrigues 22/05/2007 at 19:25

    Tibor, Tibor… não espalha…

  • zeluis 25/05/2007 at 15:12

    Aviso aos internautas o
    Sidarta Calango da Caatinga
    de vulgo
    Calango Catinguentto
    que tem o codinome nas centenas de SEUS prontuarios policiais de
    ZULEIKU ( do mundo )
    USANDO DOS PRIVILEGIOS QUE TEM OS CORRUPTOS E CORRUPTORES CONTUMAZES saiu em campo para dar
    vazao a continuidade de seus negocios excusos!!!
    Sacou de pronto o seu celular global
    e encomendou varias centenas de
    televisores de 47 polegadas de alta resolucao, para MIMOSAR OS CONHECIDOS DE NOS TODOS
    ,,, O S P I C A R E T A S …
    A seguir ligou para o colega empresario e engenheiro
    OSAMA BIN LADEN
    no intuito de formar um consorcio das respectivas empresas !!!
    Como todos sabem Osama eh especialista
    na ( im)explosao de torres principalmente se forem gemeas!!!!
    Num ataque de pedido de desculpas esfarrapadas a nacao CATINGUENTO
    tentarah utilizando a experiencia
    de OSAMA DAR UM PONTO FINAL
    NAS TORRES GEMEAS DO PLANALTO CENTRAL TENDO COMO TELESPECTADORES PRIVILEGIADOS
    A CORES E ALTA RESOLUCAO TODOS O PICARETAS EM SEUS RESPECTIVOS GABINETES !!!!!
    viva zuleiku (DO MUNDO )!!!!

  • Kamille 10/06/2007 at 21:40

    Teve um site que vendia pixels, não?

    E teve o cara que começou trocando um clipe de papel vermelho por “alguma coisa maior ou melhor” e chegou numa casa:

    http://oneredpaperclip.blogspot.com

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