Escrever é… (segundo Nabokov, Bolaño, Duras etc.)

02/02/2011

O site This Recording vem juntando uma excelente coleção (em inglês, acesso gratuito) de “conselhos” de grandes autores sobre o ofício literário, sob o título “Como e por que escrever”. Coletados em fontes diversas, entre ensaios, artigos, entrevistas e até obras de ficção, os trechos são heterogêneos no conteúdo e no tom, mas compõem um painel instigante. Abaixo, uma pequena amostra em tradução caseira (via The Book Bench):

Susan Sontag: Todo mundo gosta de acreditar hoje em dia que escrever é apenas uma forma de amor-próprio. Também conhecida como auto-expressão. E não se supõe que sejamos mais capazes de sentimentos autenticamente altruísticos, ou capazes de escrever sobre qualquer coisa que não nós mesmos. Mas isso não é verdade.

Kurt Vonnegut Jr.: Garanto que nenhum esquema narrativo moderno, nem mesmo a ausência de trama, dará ao leitor satisfação genuína, a menos que uma daquelas tramas fora de moda seja contrabandeada para dentro em algum momento. Não valorizo a trama como representação acurada da vida, mas como uma forma de manter o leitor lendo. Quando eu dava oficinas de criação literária, dizia aos meus alunos para fazer com que seus personagens quisessem alguma coisa imediatamente – ainda que fosse só um copo d’água. Mesmo personagens paralisados pela ausência de sentido da vida moderna precisam beber água de vez em quando.

Roberto Bolaño: Nunca escreva um conto de cada vez. Quando se escreve um conto de cada vez, pode-se acabar escrevendo o mesmo conto até morrer. É melhor escrever três ou cinco contos ao mesmo tempo. Se você tiver energia para tanto, escreva nove ou quinze de uma vez.

Margaret Atwood: Leve um lápis para escrever em aviões. Canetas vazam. Mas se a ponta do lápis quebrar, você não conseguirá apontá-lo no avião, porque não pode carregar facas. Portanto: leve dois lápis.

Marguerite Duras: É desconfortável sentar a uma mesa redonda: seus cotovelos não têm onde se apoiar e você não pode contar com eles para descansar da escrita, e enquanto você escreve eles ficam boiando no vazio, e se você não percebe isso imediatamente pensa, “Não sei qual é o problema comigo, estou cansado”, mas isso é porque seus cotovelos não estão apoiados na mesa.

Vladimir Nabokov: O poder e a originalidade envolvidos no espasmo primário da inspiração são diretamente proporcionais ao valor do livro que o autor escreverá. No ponto mais baixo da escala, uma espécie branda de excitação pode ser experimentada por um escritor menor ao notar, digamos, a conexão íntima entre uma chaminé de fábrica, uma moita mirrada de lilases no jardim e uma criança de rosto pálido; mas a combinação é tão simples, a tríade simbólica tão óbvia, a ponte entre as imagens tão batida pelos pés de peregrinos literários e suas carroças cheias de ideias padronizadas, e o mundo que daí se deduz tão parecido com o mundo comum, que a obra de ficção posta então em movimento será necessariamente de pouco valor.

7 Comments

  • Silvio 03/02/2011 at 10:39

    Esse trecho do Vonnegut é sensacional: “Não valorizo a trama como representação acurada da vida, mas como uma forma de manter o leitor lendo.” Curioso é que me lembra um depoimento do mestre do suspense Hitchcock, sobre como a verossimilhança era tediosa e fácil de se fazer, não representava desafio. “Nossos amigos, os verossímeis”, dizia ele, cheio de ironia.

  • Pedro David 03/02/2011 at 11:41

    Escrever e ler, correr…

    Sérgio, estava dando uma folheada naquele livro que é um bate papo do Veríssimo com o Zuenir, e na hora de falar da escrita, os dois tiveram a mesma opinião: não gostam de escrever. Estou falando, claro, do ato no sentido mais estrito do termo, sentar ali, colocar uma letrinha depois da outra. Quem gosta ? Pra mim é um parto. Dói, cansa. Temos ainda um inimigo, que é a internet funcionando no mesmo lugar que está seu editor de texto. É mais ou menos como se a televisão viesse em cima da máquina de escrever, nos tempos idos. Na primeira falta de fôlego, já tem um ” Todoprosa” ali, pra te distrair. Pra voltar, depois, é uma merda.

    Ler é claramente mais prazeroso, mas até aí, às vezes, vejo que há uma necessidade de superação. Quando você encara uma “Montanha Mágica”, um ” Sertões”, você tem que dar uma respirada. É como aquela corridinha na orla. Se você obedecer ao seu primeiro impulso, nem sai de casa. Se der ouvidos ao segundo, corre dez minutos. Ao terceiro, e dá meia volta aos quinze. A comparação, claro, é temerosa, mas pra mim verdadeira. Fica a pergunta: alguém gosta de escrever ? Às vezes, até me divirto com a dancinha dos dedos no teclado, quando a coisa está fluindo. Mas é, literalmente, um parto. Ninguém faz samba só porque prefere…

  • zanzoreiadEle 28/02/2011 at 17:02

    Escrever é muito natural para quem “natura-diariamente” lê. Escrever brota. Brota como florinhas do campo. Quando se é Todo Prosa brota orquídeas, tulipas, hortênias…

  • zanzoreiadEle 28/02/2011 at 17:04

    Puxa… errei na escrita das hortênsias….( Ainda bem que todo prosa não erra. E se erra tem o cuidado de consertar em tempo…)

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial