Essa incômoda sensação de que os zumbis somos nós

15/09/2010

Não é fácil a vida de um humorista – ou de um escritor com inclinação satírica, o que no caso dá no mesmo – no país da piada pronta. Em janeiro deste ano, impressionado com o número de lançamentos internacionais surgidos na esteira do arrasa-quarteirão “Orgulho e preconceito e zumbis” (aqui lançado em março pela Intrínseca), que enxerta mortos-vivos no clássico de Jane Austen, fiz um post no Todoprosa jogando algumas ideias para autores e editores brasileiros que quisessem vampirizar esse escracho do mashup, coisas como “Dom Casmurro na máquina do tempo” e “Grande sertão: aliens”. E perguntei: “Quando será que o Brasil, sempre atrasadinho, vai pular no bonde dessa vibrante forma de vanguarda literária?”

A resposta teve que esperar apenas oito meses – menos que uma gestação completa. A editora Leya está lançando este mês, pelo selo Lua de Papel, quatro títulos claramente inspirados nessa tendência: “Dom Casmurro e os discos voadores”, “O alienista caçador de mutantes”, “Senhora, a bruxa” e “Escrava Isaura e o vampiro” (sei não, mas minhas sugestões pareciam melhores). A Leya leva seu lote ao mercado depois da Tarja Editorial, que atua no nicho fantástico e tem nas prateleiras “Memórias desmortas de Brás Cubas”, mas antes de outras casas mainstream que chegaram a anunciar planos de pegar essa onda, como a Ediouro e a própria Intrínseca.

Se eu sempre parto do princípio de que todas as dessacralizações, zoações e misturebas pop são bem-vindas no ambiente ainda solene da literatura nacional, por que será que acho essa notícia meio tristonha? Não é por preconceito contra zumbis, juro. O jovem gaúcho Antônio Xerxenesky mostrou em “Areia nos dentes” – lançado em 2008 por sua própria editora e reeditado agora pela Rocco – que é possível usar de forma criativa os clichês desse subgênero de terror.

O problema é ver a encomenda de títulos para coleções boladas por editores, uma prática de mercado tão saudável quanto rara entre nós, ser desperdiçada dessa maneira com o encantamento bobo por um modismo estrangeiro já meio passado. Que, sim, foi bem divertido quando surgiu, como são divertidas as piadas quando surgem, antes que as retuítem pela milésima vez. O problema é essa impressão de que não somos capazes de mercadejar adequadamente piadas de nossa própria lavra. O problema é essa falta de imaginação.

21 Comments

  • Tibor Moricz 15/09/2010 at 16:08

    Há espaço para todos nesse mercado cada vez mais efervescente. Mas é modismo, mesmo. Logo desaparecerá, não sobrevivendo ao tempo.

  • Eric 15/09/2010 at 16:13

    Mash-up não faz muito minha cabeça como autor, mas acho engraçado que exista. Cheguei a pensar em um Lucíola e os Lobisomens, mas, bleh, desisti. Como eu conheço o Lucio e o Pedro, vou acabar com o livro dos dois na mão mais para frente e poderei tecer uma opinião. Aliás, o do Pedro (brás Cubas) não é um mash-up, ele fez uma continuação do livro, 100% original até onde eu saiba. É o que a gente chama de Ficção Alternativa. Pegar personagens já existentes e usar em outras histórias. O Mash-up usa o texto original no trabalho final. Mas entendo o seu ponto de vista, é quase como se Jane Austen abrisse uma editora para publicar mashups… Abraços!

    • sergiorodrigues 15/09/2010 at 16:30

      Caro Eric, obrigado pelo esclarecimento. Não li os livros da Leya, mas como o meu post não se detém na técnica do mashup (e nem mesmo afirma que se trata disso), isso não altera em nada o argumento, que é totalmente temático, como aliás você compreendeu. Um abraço.

  • Foguete de Luz 15/09/2010 at 18:38

    Sim, você matou a charada: O maior problema é a falta de imaginação. Isso mesmo.

  • Foguete de Luz 15/09/2010 at 18:41

    Eu também não tenho preconceito contra os zumbis não. Tenho um conceito: zumbi deixa a pessoa sem criatividade. Entendeu? Pois é. Ela só vai repetir o já criado por alguém. Zumbi enfantasma o sujeito que acaba virando objeto… entendeu? Ah, isto é conceito comprovado e muito histórico relatado de ex-zumbis, ok?

  • regis 15/09/2010 at 19:56

    falta de imaginação? eu acho mesmo uma pobreza de imaginação e o pior nao é isso é que na falta idéias sofisticadas para escrever como ocorria a esses grandes autores como Jane Austen, Machado dentre outros pegam a história que eles ja contaram pra inserir uns zubis e fantasmas ou seja lá o que for na trama de forma ridicula e acham que estao escrevendo…

  • Raquel Sallaberry Brião 15/09/2010 at 21:26

    Sérgio,

    quero escrever sobre estes zumbis, lobisomens, vampiros na obra de Jane Austen mas tenho uma preguiça com esse assunto… Deve me atacar a falta de imaginação!

  • Fernando de F. L. Torres 15/09/2010 at 23:30

    Ouch! Certeiro Sérgio.

    Sei lá. algumas dessas homenagens e brincadeiras apenas me mandam de volta aos originais. Lê-los uma segunda vez (não considero que seja reler quando passou 10 anos longe de uma obra) faz um bem danado.

  • Pedro Fraga 16/09/2010 at 09:32

    Sérgio, o “Memórias Desmortas de Brás Cubas” não foi encomendado por editora não.

    • sergiorodrigues 16/09/2010 at 10:21

      Certo, Pedro. Nem eu disse que foi. Referi-me à Leya, que é o foco da notícia.

  • Afonso 16/09/2010 at 10:34

    Parece que há um “espírito de manada” nisso tudo – e todos seguem as mesmas trilhas em busca do “estouro”. E diga-se: falta coragem para as editoras arriscarem em “coisas” realmente inovadoras (porque devem existir, não?).

  • Saint-Clair Stockler 16/09/2010 at 11:31

    Quanto ao livro Dom Casmurro e os discos voadores, foi escrito pelo Lúcio Manfredi (não conheço os autores das demais obras, portanto não posso falar deles), que é um EXCELENTE escritor. Apesar de não gostar desse tipo de obra (nem aqui, nem lá fora), eu até que leria o livro escrito por ele. Até hoje nada que o Manfredi tenha escrito (e eu tenha lido) me desagradou. Muito pelo contrário. Acho que a gente tem de manter a mente aberta. Quando eu era aluno do Instituto de Letras da Uerj, só via meus colegas andando com Dostoiévski debaixo do braço, ou então Umberto Eco, ou Adorno, etc. Eu chegava lá com o Paulo Coelho (que eu lia e leio também, até hoje) e adorava os olhares escandalizados que recebia. Bando de gente besta. Tenho o melhor dos dois mundos: quando quero ler algo mais profundo, pego na Clarice Lispector, pego na Virgínia Woolf ou na Marguerite Yourcenar, mas quando quero me divertir, leio Stephen King, Agatha Christie (que é uma das minhas maiores paixões literárias) e mais uns três ou quatro autores que escrevem pra divertir e não para virarem tema de seminários acadêmicos.

  • Gustavo Claro 16/09/2010 at 14:08

    Pelo seu texto fico pensando sobre o que você gosta de ler. Certamente não é o que gosto. A crítica literária no Brasil ainda se ressente da época da censura e quer dizer o que cada um deve ler. Um dia um amigo que trabalha num grande jornal disse: aqui a gente não pode fazer capa com um livro de Sidney Sheldon, mas se for filme, podemos colocar o Transformers na capa, com chamada na página principal. Por isso livro é artigo pouco manuseado entre brasileiros. E você deveria ler se quer comentar.

    • sergiorodrigues 16/09/2010 at 15:18

      Gustavo, se eu quiser fazer uma resenha desses livros, pode deixar que lerei primeiro. Este post é um comentário sobre o mercado editorial brasileiro. Que nossos gostos literários divergem, acho provável. Mas sua acusação de censura e esnobismo é ridícula, como você saberia se conhecesse um pouco do meu trabalho.

  • Gercilia Costa 16/09/2010 at 18:38

    Bobagem.
    O romantismo brasileiro pegava a onda do romantismo francês, os proprios josé de Alencares da vida faziam isso…

    A literatura Modernista foi criada a partir de tudo o que existia. Isso é crítica de gosto sem fundamento.

  • Sara 16/09/2010 at 19:40

    Qualquer iniciativa que incentive à leitura dos clássicos é válida.
    Um adolescente que lê um José de Alencar recriado agora, pode se interessar em ler o original. É uma maneira de seduzir, de mostrar que um clássico não é intocável. Sei que o Jane Austen Zumbis faz isso, mas não é crime seguir uma boa idéia.

  • Foguete de Luz 16/09/2010 at 21:57

    Essa não! Agora que percebi o título! kkkk Pois é, mas logo logo teremos certeza… o mundo está desvirando e muitos nem percebem. E os que “percebemos” ficamos assim inintendíveis… mas só por enquanto!

  • J.Paulo 16/09/2010 at 22:48

    Eu acho isso uma grande bobagem, uma coisa verdadeiramnete vã. Quer conhecer os clássicos, é simples, abra-os e leia-os, apenas. E verdadeiramente não acho que, meter zumbis num texto de Machado, por exemplo, atraía leitores de livros de zumbis, para autores como Machado; é uma ideia, no mínimo, infantil. Já há muita coisa barata por aí; que despertará a atenção desses leitores superficiais por muito tempo.

  • Foguete de Luz 17/09/2010 at 12:22

    Prezada blogueira todoprosista, Sara, um adolescente que lê um José de Alencar recriado a partir desta anticriativa, incômoda, retrógada e alienante busca de leitores, vai sim, buscar “personagem fantasma” aqui e ali, e Machado de Assis, que é bom mesmo, ainda continuará sendo um fantasma para ele e seus coleguinhas que vão correr atrás do mais atual “encantamento bobo de modismo estrangeiro” em vez de buscar na realidade do cotidiano o lado mais humano que precisa ser explorado. Ficarão nessa sensação de que “há algo estranho no reino da literatura”. E capitú? Nem será captada. Garanto!

  • carlos magno 17/09/2010 at 12:58

    Fazer satira é o que estamos acostumados a fazer, mas acredito que até mesmo para isso tem limites.
    Não vou reclamar das obras citadas antes de ler, mas zoar livros classicos que já tem a sua dose de humor como os de machado de assis é desnecessario.
    É engraçado satirizar a midia e a politica, mas usar a formulá na literatura não chegar ser divertido, parece ridiculo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial