Estudo em solferino

03/12/2010

Se você acreditasse numa palavra do que está lendo, saberia que a escadaria era alta e larga, de mármore, e no centro dela descia lambida uma língua púrpura de veludo que vinha morrer aos pés de um cântaro de ouro velho, um tipo de cântaro de cintura alta que foi moda no Ancien Régime ou coisa assim, era o que estava escrito no verso do postal, mas cito de memória porque o postal se perdeu, Smirna o enfiou em sua famosa bolsa sem fundo e o levou, quando saiu da minha vida.

Agora, por um instante, você talvez considere a possibilidade de acreditar no que está lendo, mas que nada, logo fica esperto: Smirna é um nome tão inverossímil, só faltam lúgubres bares búlgaros, encontros em vielas de Saigon, ou fazer dela uma puta de luxo especializada naquele último grito da perversão – a tonushka dentata.

E no entanto, distante de todos esses lugares, atividades, a Smirna que eu conheci, que mergulhou em Fernando de Noronha, que fez concurso para a Receita Federal e não passou, essa Smirna levou para sempre o postal da escadaria de mármore lambida de um rútilo solferino que Smirna ou uma mulher muito parecida com ela descia lentamente, heráldica, com seu salto stiletto.

A caligrafia do postal corre na página diante de seus olhos incrédulos, e você se surpreende ao notar que as maiúsculas têm volutas de época e a tinta roxa da caneta cheira a bala de alcaçuz, embora você não faça a menor ideia de como cheiram balas de alcaçuz, enquanto Smirna, porque só pode ser Smirna, desce a escadaria hemorrágica em câmera lenta, ganhando tempo, punhal na mão.

E aí você entende e ao mesmo tempo perde por completo a capacidade de entender. Smirna é ela – é Ela. O brilho intuído da lâmina tira fino do seu gogó. Você acredita por fim.

11 Comments

  • Norberto 03/12/2010 at 10:18

    Conheci uma bonita moça chamada Smirna no Clube Libanês de Vila Velha, no Esírito Santo, nos idos de 80. Quem sabe é essa que você nos traz neste belo texto.

  • Victor Hugo 03/12/2010 at 12:24

    Desculpa a minha ignorância, mas esse texto é seu? Achei sublime, muito bom mesmo!

    • sergiorodrigues 03/12/2010 at 13:03

      Victor, se não está assinado, é meu. Obrigado, um abraço.

  • Ramon Alcântara 03/12/2010 at 14:52

    Poético!

  • Ottoni Barbosa Junior 03/12/2010 at 15:21

    Excelente texto! Vc continua ótimo. Parabéns.

  • foguete de luz 03/12/2010 at 16:21

    Hum! Duas palavras me chamaram a atenção e vai nascer uma postagem: Smirna e solferino. Lembrei que uma aiga falava assim: Amo esta cor: sulferino. Eu pensava que era sulferino. Mas é sou ferino, quer dizer: solferino, né? Pois é. Bravim ele, né? Solferino é uma cor púrpura… cor de paixão. Paixão geralmente termina mesmo no caixão. Eu já morri a muito tempo, quem vive em mim é Jesus. Inda bem, né? Ah.. E esmirna é das 7 igrejas da Ásia a segunda que não levou repreensão. Só elogio. E E Jesus se releva a esta Igreja Esmirna, como o primeiro e último, que esteve morto e tornou a viver. E que temos que ser fiel até à morte. Quer dizer, até a possibilidade de morte. Pois é, se Ele ressuscitou e Ele vive mim, jamais morremos, só deixaremos esta Vida terrena. Gostei muito. E quem sabe sua smirna ressuscita, hein, ferino.kk..

  • foguete de luz 03/12/2010 at 16:24

    Em tempo:Corrigindo
    aiga = amiga

    releva= revela

    Aproveitando: Que amiga vai te revelar algo, hein? ( Não precisa dizer>)

  • Ernani Ssó 04/12/2010 at 08:41

    Sérgio, essa escadaria desemboca na Continuidade dos parques, embora o tapete pudesse ser menos solferino, mais para a cor de um fogo pálido. Uma boa brincadeira.

    • sergiorodrigues 06/12/2010 at 21:05

      Excelente lembrança, Ernani. Nada consciente, mas Cortázar é vírus que não se cura, mesmo quando assintomático. Grande abraço.

  • Rubia 05/12/2010 at 20:57

    Execelente!
    Apenas a parte “fazer concurso para a Receita Federal” me deprime…

  • Carlos Marques 09/12/2010 at 20:59

    Como sempre, muito bom! De uma sensibilidade ímpar e um estilo afiadíssimo. Parabéns!

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