Fala, Mindlin

25/10/2006

A língua portuguesa, hoje, não corresponde à realidade de todos os países lusófonos. Há grandes diferenças entre o português de Portugal e o português do Brasil. Anteontem, eu estive na casa do cônsul de Portugal, em um jantar para um escritor português, José Rodrigues dos Santos. Era um evento para quatro, cinco pessoas apenas. E eu passei o jantar inteiro sem conseguir entender quase nada do que o escritor falava. Felizmente, a Maria Adelaide Amaral estava sentada ao meu lado e traduzia para mim o que ele dizia.

Nunca achei certa a posição do Oswald de Andrade, que dizia: “Não li e não gostei”. Isso é uma coisa que não tem propósito. Eu li um livro de Paulo Coelho para poder dizer que li e não gostei. Paulo Coelho está para a literatura como o bispo Edir Macedo está para a religião.

Nos anos 40, resolvi ler Proust. E esbarrei naquela dificuldade: páginas e páginas sem um parágrafo. Não consegui captar o interesse e o valor do texto proustiano. E uma noite, em casa de um amigo do Rio, encontrei o Tristão de Athayde, Alceu de Amoroso Lima, um dos introdutores de Proust no Brasil, nos anos 20. A conversa versou sobre o escritor francês, e eu, querendo bancar o espirituoso, coisa que em geral não dá certo, disse: “Proust descreve o sono tão bem que a gente adormece”. Aí, o Tristão de Athayde me respondeu: “Você está muito enganado, rapaz. Você tem que ler as primeiras 50 páginas com todo o esforço necessário. Se depois de ler as 50 páginas, não tiver entrado no universo proustiano, leia mais 50, com o mesmo esforço. Depois você não larga mais”. E foi o que aconteceu. Proust se tornou o meu autor estrangeiro favorito.

Trechos da palestra do bibliófilo José Mindlin, 92 anos, no ciclo Paiol Literário, em Curitiba, promovido pelo jornal “Rascunho”. Vale a pena ler o depoimento completo aqui.

15 Comments

  • Gretoldo Urtul 26/10/2006 at 01:00

    O problema é que o Mindlin está surdo. Não se trata de entender ou não o que o português falou.

  • Saint-Clair Stockler 26/10/2006 at 01:50

    Ô meu Pai! Mas às vezes é difícil mesmo. Um amigo português veio ao Brasil certa vez e muitas vezes durante a nossa conversa ele me interrompia pra dizer: “O quê?”, e eu então repetia – mais devagar. A língua portuguesa e a língua brasileira escritas são perfeitamente compreensíveis para ambos os falantes, mas a língua portuguesa falada e a língua brasileira falada representam uma dificuldade…

  • Glória, a Celeste 26/10/2006 at 08:12

    Fui a um evento em Florianópolis…além da cultura ele é extremamente simpático e afável.
    Espero que ele seja um exemplo onde conhecimento e sabedoria convergem…o que na prática é bem difícil…

  • Clarice 26/10/2006 at 09:31

    Já estou tão acostumada com páginas e páginas sem parágrafo que quando tem acho extranho. Falta de pontuação também. Quando é dividido em capítulos então! Sou chegada a um romance tese.

  • Carmen 26/10/2006 at 10:02

    Da mesma forma que estranhei o Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas. Não tem capítulos. É tudo corrido. A princípio estranhei ler um livro assim. Parecia que a gente não tinha as pausas “necessárias” para retomarmos o fôlego.
    Mas o Athayde estava certo! Insisiti, e depois de 50 páginas, não larguei mais o Guimarães Rosa! Hoje em dia ele é um dos meus autores prediletos.

  • joao gomes 26/10/2006 at 12:15

    …o academico descobriu o ovo de Colombo.

  • Clarice 26/10/2006 at 15:05

    ô joao gomes, para você não é nada. Mas para o comum dos mortais que tem dificuldade com literatura é um conselho e tanto.

  • Clarice 26/10/2006 at 15:08

    A gente fica de mau humor é com os acadêmicos. A ABL… nossa senhora! Vocês sabem que o Quintana fez o “eles passarão/ eu passarinho” porque tinha ficado desgostoso de não ter entrado para a ABL. Hoje, se fosse indicado, ele recusaria.

  • Rogerio 26/10/2006 at 15:14

    E por falar no Marcel, o início do Em Busca do Tempo Perdido bem que merecia figurar nos Começos Inesquecíveis, não?

  • joao gomes 26/10/2006 at 15:37

    Cara Clarice,

    nao posso perdoar essa Academia. meu irmao Machado de Assis a criou, mas acho duvidoso que ele tinha uma visao elitista (no sentido de colocar pessoas como: Roberto Marinho que escreveu apenas um livro; P. Coelho que tem uma escrita rasa; recentemente um cineasta foi nomeado QUE NAO ESCREVEU LIVRO ALGUM).
    Ja nao me causara surpresa se la entrar grafiteiros, pichadores e letristas de rapper e funk. …e mais, pode até aparecer escreventes de versos de portas de banheiro. (alias academicos da UNICAMP escreveram uma Monografia sobre isso. é so apontar para o site universia e fazer uma busca sobre este item).

    Nao estou aqui defendendo a alta cultura. nao, nao. estou defendendo somente cultura.

  • Clarice 26/10/2006 at 19:13

    joao gomes,
    sem falar em Sarney, Pitanguy e outras coisas que aportam por lá. Coitado do Machado. Eu nem vou ler a Monografia da UNICAMP. É melhor esquecer a AB de Letras. E leva a mal não, literatura é literatura. Agora a gente vai ter de pedir desculpas porque lê determinados autores? Literatura com fôrma? Existe um curso com mestrado, doutorado e pós-doutorado para se estudar Literatura. Há pesquisadores que dedicam suas vidas par estudar obras que ficaram para a posteridade. E outros argumentos que eu sei que você concorda. Cultura é um conceito muito amplo. “Cinema é cultura” dizia um slogam que queria se referir ao cinema diversão. Se alguém faz filosofia não precisa ficar se desculpando por ler os filósofos que contribuiram para a sabedoria ocidental que é a nossa.

  • Pedro Curiango 26/10/2006 at 23:29

    Pode parecer difícil defender a Academia Brasileira, sabendo que Sarney, Cony e outros que tais andam por lá. Mas, desde o início ela foi assim mesmo: quem se lembrará de Filinto de Almeida? Era um português, da virada do século XIX para o XX, e que foi escolhido porque era marido da romancista Júlia Lopes de Almeida… É que, na época, mulheres não podiam ser acadêmicas, daí a honra passar para o marido (-:. E este foi dos fundadores, juntamente com Machado de Assis, ao lado de quem escrevia umas crônicas pífias nos jornais de então. O que importa é que a Academia abrigou e abriga também grandes nomes: Machado, Bilac, Rui Barbosa, Guimaraes Rosa, João Cabral. E não podemos nos esquecer que Oswald de Andrade chegou a ser candidato. E Mário de Andrade entrou para a filial paulista, bem mais provinciana. E para quem não acredite: toda esta gente era mutíssimo elitista…
    Outra coisa: alguns brasileiros (mesmo os que não são surdos) sentem às vezes dificuldade em entender os portugueses. Isto se dá principalmente no nível do vocabulário diário, já que lá e cá, a gíria domina e ela é quase sempre restrita a países ou regiões. Um estudante brasileiro, talvez com pouca consciência lingüística, poderá ter dificuldade em entender a “língua travada” de um lusitano, mas nenhum português alfabetizado terá qualquer dificuldade em entender uma conferência ou uma aula de um professor brasileiro. A razão é simplesmente fonética: a variante brasileira do português falado é “mole, arrastada, açucarada”, ao contrário da “cortante e áspera” pronúncia portuguesa… Mas eu às vezes também tenho dificuldade em entender um gaúcho de fronteira ou um matogrossese da divisa boliviana…

  • Jonas 27/10/2006 at 10:55

    Agora, um comentário à parte: como está boa essa edição nova do Rascunho, hem?

  • Raquel 27/10/2006 at 15:40

    Sérgio,
    toda vez que leio entrevistas ou textos do senhor Mindlin eu ouço a voz melodiosa dele. Uma vez encontrei a filha do senhor José – Betty (não tenho certeza como se escreve o nome mas sei que a acentuação é na última sílaba – pois bem, falando com ela não me contive e disse “Sou apaixonada por seu pai, dona Guita (ainda viva na época) que me perdoe!” Ela respondeu “Mamãe não liga não, nós as filhas é que somos ciumentas.”
    bisou raquel

  • Avellar 29/10/2006 at 10:24

    A verdade é que Proust é chato, Saramago entediante, Guimarães Rosa um saco e James Joyce, pernóstico…

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