Ferreira Gullar recapitula vida e obra

07/08/2010

Teve tom biográfico a mesa “Gullar, 80”, protagonizada pelo maranhense Ferreira Gullar no fim da tarde deste sábado, em Paraty. Numa conversa com o especialista em teoria literária Samuel Titan Jr., Gullar relembrou o início da carreira, com o livro Um Pouco Acima do Chão, que não reedita por considerar muito parnasiano, sua contribuição para o surgimento do movimento de poesia concreta, com que romperia depois, seu engajamento no neoconcretismo e o nascimento do Poema Sujo, o exílio, em Buenos Aires, quando as ditaduras grassavam na América Latina e ele se achava “sem saída, vendo as pessoas desaparecerem”. O Poema Sujo foi uma forma de “escrever o que restava dizer.”

Segundo Gullar, o Poema Sujo foi escrito num jorro, mas ficou incompleto, porque a inspiração acabou. Até que um dia ele conseguiu talhar os versos finais do poema – a poesia, como ele mesmo diz, não se pode controlar, ela surge quando quer, ela vem do imprevisível. Numa visita à Argentina, Vinicius de Moraes ouviu do dramaturgo Augusto Boal, em um jantar, que Gullar havia feito um texto longo e que não o mostrava a ninguém. Vinicius insistiu em conhecer o poema e fez com que o maranhense o recitasse. Ao final, ficou comovido – “O que não era raro”, lembrou um divertido Gullar – e convenceu o amigo a registrar em áudio o texto. De volta ao Brasil, o poetinha providenciou a publicação do Poema Sujo, que aconteceu sem a presença de seu autor.

O exílio de Gullar pode ser explicado por suas posições políticas: embora não apreciasse a disciplina partidária e gostasse de “pensar pela própria cabeça”, quando os militares tomaram o poder no Brasil, em 1964, o poeta entendeu que precisava se posicionar a respeito. No mesmo dia, disse sim, finalmente, aos amigos comunistas que viviam tentando cooptá-lo.

Gullar também se associou a outra entidade que fazia frente aos militares: a União Nacional dos Estudantes (UNE), onde atuou no Centro Popular de Cultura (CPC), à época da gestão de José Serra à frente da instituição.

A história de Ferreira Gullar é, como se vê, uma parte da história do Brasil no século XX. Além de marcar presença em momentos políticos importantes, o poeta esteve ligado a dois movimentos artísticos relevantes do país: o concreto, que inspirou sem querer com Luta Corporal, livro em que busca a “essência da poesia”, e o neoconcreto, que fundou com Lygia Clark e Helio Oiticica, entre outros, após romper com a racionalidade e as promessas não cumpridas dos concretistas.

“Uma vez, o Décio Pignatari, que era o mais sociável dos concretos (os outros, não citados pelo poeta, seriam os irmãos Haroldo e Augusto de Campos), me procurou porque eu trabalhava em um jornal do Rio e ele queria divulgar um manifesto”, contou Gullar, arrancando risos da plateia. “Nós nos encontramos e nos desentendemos. Ele começou com uma teoria (ele diz “tioria”) de que o Brasil, que sempre havia tido indústria de consumo, estava criando uma indústria de base, e que nós precisávamos criar também a poesia de base. Eu logo disse a ele: você criou, pelo movimento concreto, o manifesto da poesia matemática, que nunca foi produzida. Não vou publicar outro manifesto de uma poesia que nunca vai ser feita.” Até hoje, a poesia de base não chegou ao papel.

Ferreira Gullar, que recebeu neste ano o Prêmio Camões, se mostrava à vontade, com muito bom humor. O tom reverencial da mesa também contribuiu para o clima e a disposição do maranhense. Uma plateia lotada riu e aplaidiu o poeta todo o tempo e, ao final, o aplaudiu longamente, de pé. Uma mulher ainda gritou, da sua cadera: “Obrigada”. Ao que ele respondeu, “Eu é que agradeço. Não sabia que a poesia ainda atraía as pessoas.”

Maria Carolina Maia

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