Fim de semana: sustos

03/03/2008

Lendo o Babelia (em espanhol, acesso gratuito), encontro uma reveladora entrevista de Ian McEwan: “Muitos acreditam que o romance perfeito é ‘Madame Bovary’. Eu o reli há dois anos e pensei: não é. ‘Madame Bovary’ morreu. (…) Dizem que quando Emma morre, Flaubert chorou. Agora entendo por que não gosto. Ele estava envolvido demais com a história. Deveria ter permanecido muito mais frio, distante, com algo de gelo”.

Meu susto nada tem a ver com a frieza que o escritor inglês confessa. Mais prosaico, deve-se ao fato de que só agora On Chesil Beach está chegando ao efervescente mercado editorial espanhol, oito longos meses depois de dar as caras por aqui.

A propósito: para McEwan, o romance que mais se aproxima da perfeição é “Ana Karenina”.

*

Lendo o Prosa & Verso (só para assinantes), o susto é com as seguintes palavras do jornalista José Castello sobre a novelinha “A morte e a morte de Quincas Berro D’Água”, de Jorge Amado: “jóia até hoje desprezada que, lançada seis anos antes de ‘Cem anos de solidão’, de Gabriel García Márquez, antecipa o realismo mágico”.

Hein? Promovido abruptamente de maior nome da “escola” que se costuma chamar de realismo mágico a seu solitário – e, em 1967, tardio – inventor, García Márquez, descobrimos agora, ainda teve Jorge Amado como precursor, viva nós! É como se nunca tivessem existido, entre outros, Alejo Carpentier e seu “real maravilhoso”, Juan Rulfo e seus mortos falantes, Miguel Ángel Asturias com “O senhor presidente”, e muito menos aquele Arturo Uslar Pietri que, já em 1948, importava da crítica de artes plásticas dos anos 20 para a literatura latino-americana o rótulo “realismo mágico” – dezenove anos antes de “Cem anos de solidão” e treze à frente do ótimo livreto de Amado. Que, aliás, veste meio mal esse figurino todo.

Quincas tinha razão: “impossível não há”.

*

Lendo a revista eletrônica Slate (em inglês, acesso gratuito), levo o maior susto de todos com a história do romance inacabado que o genial Vladimir Nabokov, às vésperas de morrer, em 1977, mandou seu filho e único herdeiro queimar. O manuscrito de The original of Laura, que uns poucos estudiosos já leram e que muita gente aposta ser uma espécie de pós-escrito – mais explícito! – a “Lolita”, dorme até hoje no cofre de um banco suíço enquanto Dmitri, o filho, se dilacera em dúvidas: ser fiel ao desejo do pai ou à curiosidade do mundo, eis a questão.

A novidade desse novelão fascinante, segundo o artigo assinado por Ron Rosenbaum, é que Dmitri, aos 73 anos, parece ter finalmente chegado a uma decisão. Alega haver sido aconselhado pelo fantasma do próprio Nabokov, num imaginário diálogo hamletiano travado recentemente: “Por que não faturar uma grana com esse troço?”.

Se for este mesmo – um tanto cínico – o capítulo final da intriga, daí para as prateleiras não deve demorar muito. E eu vou comprar.

10 Comments

  • Murilo Gabrielli 03/03/2008 at 12:55

    Sérgio, obrigado pela dica sobre a entrevista do McEwan. Como vc, sou fã do moço – mormente agora ao descobrir que ele tb considera Ana Karenina o romance que mais se aproxima da perfeição.
    Como bem dizia um amigo meu, o pretensioso do Leão se meteu a, em um único livro, discorrer sobre tudo que há bajo el sol. E quase conseguiu.

  • kurtz 03/03/2008 at 14:37

    A novelinha de Jorge Amado está mais na tradição de Gogol, por exemplo, do que do “realismo mágico”. É um texto russo, isso sim, e o melhor do escritor baiano.

  • francisco 03/03/2008 at 19:13

    Bem, esqueceu Castello que o brasileiro Murilo Rubião, nos anos 40, em Minas Gerais, escrevia realismo mágico mesmo. Qualquer característica dessa escola está presente em seus contos. Minha monografia de graduação em Letras foi sobre realismo mágico; além disso, há a excelente dissertação de Jorge Schwartz, “Murilo Rubião: a poética do Uruboro, orientada por ninguém menos do que Antonio Candido.

  • Diego 04/03/2008 at 13:35

    eu também vou comprar :]

    e Karenina… recente peguei mas não passei da pág. 20 e poucos. isso que foi só o começo de tudo que há aqui no baixo do sol.

    insisto?

  • Murilo Gabrielli 04/03/2008 at 18:39

    Diego,
    o comentário do meu amigo é, claro, um exagero. Ma è bene trovato.
    O livro é brilhante. Leia.

  • Sérgio Rodrigues 04/03/2008 at 19:46

    Diego, o Murilo está certo, vale muito a pena insistir. Tomando o cuidado de evitar uma das velhas traduções feitas por tabela com o francês, melhora muito. A edição da Cosac Naify, com tradução do Rubens Figueiredo, é boa e bela, embora o preço (99 reais) seja quase uma conclamação à luta de classes.

  • Diego 04/03/2008 at 21:21

    e, nesse preco, vou ter que praticar a insistencia no meu exemplar mesmo… herdado de um morto desconhecido, integrante do “classicos etc.” safra 1972 da ed. abril. provavelmente, traducao da traducao da traducao.

    mas tai, o que justifica cobrar 99 por um livro?

    (desculpem a falta de acentos. odeio macs, e eles me odeiam)

  • Daniel Brazil 05/03/2008 at 21:47

    Além do Murilo Rubião, não custa lembrar do bom escritor goiano José J. Veiga, que em 1959 lançava seu primeiro volume de contos fantásticos, OS Cavalinhos de Platiplanto.

  • uirapuru 09/03/2008 at 10:00

    Epa! Machado de Assis em Memorias de Postumas de Bras Cubas- esqueceu dele!!!!

  • Sérgio Rodrigues 10/03/2008 at 11:39

    Uirapuru: realismo mágico no Brás Cubas??? Apesar do narrador defunto, não é o caso. Nem todo elemento de fantástico na ficção – e o de Machado é tênue, embora genial – tem a ver com o que ficaria conhecido como realismo mágico latino-americano.

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