Flame war

01/04/2011

Diante de seu computador velhusco, Adolfo Pinho Rosa, o famoso crítico literário, bufava. Maxilar rangendo, testa vincada de rugas profundas, olhar de maluco, dedilhava sua última bomba atômica na épica batalha internética que vinha travando há mais ou menos duas horas contra Berilo di Carlo, o jovem escritor. Flame war era como chamavam em latim contemporâneo aquilo em que se entretinham madrugada adentro, além de Berilo e ele, diversos internautas de nome inventado, alguns tomando um partido ou outro, a maioria só se divertindo com variantes do incentivo à pancadaria que aglomerações humanas tendem a jubilosamente manifestar.

E Adolfo Pinho Rosa escreveu:

“Para encerrar esta novela e irmos todos dormir, eu quero dizer o seguinte: Berilo di Carlo não chega a ser um escritor. Gostaria muito, se esforça de forma até comovente para isso, mas não chega. Falta-lhe o talento para transformar seu escasso mas (vá lá) intenso conhecimento literário em literatura. Falta gás. Seus romances, tanto Lava fria quanto Os estranhos habitantes de Marte, são patéticos simulacros de romance. Os personagens não convencem como gente, a prosa claudica, sintaxe e vocabulário abusam das contorções exibicionistas e se estrepam, a escolha do detalhe descritivo oscila entre o clichê e a originalidade inepta, as imagens não colam, o diálogo dá vontade de cortar os pulsos – enfim, um acidente ferroviário pavoroso é o melhor símile para cada uma das duas narrativas longas de ‘ficção’ que Berilo teve a imprudência de publicar (os contos são um pouco melhores, porque duram menos). Claro que nada disso o impede de continuar tentando: não faltam desses escritores de mentirinha por aí, e sempre haverá leitores de ouvido de lata para gabar, em troca de um interesse ou outro, seus méritos fulgurantes. Boa sorte ao ‘escritor’ Berilo di Carlo. Só não me venha posar de sabichão aqui no blog, viu, escritor de mentirinha, porque eu sou um crítico de verdade que gosta de literatura de verdade e tem um nome respeitável e não tem tempo a perder com eunucos intelectuais da sua laia.”

Releu, trocou eunucos intelectuais por anões intelectuais, ampliando dramaticamente o alcance estatístico da minoria que ofendia, e publicou o comentário.

Decidido mesmo a dormir, desligou o computador e se meteu na cama. Meia hora depois estava religando o computador e lendo os três comentários postados após o seu: “menos, adolfinho, menos: o berilo não é tão ruim assim, embora seja péssimo”, “issssaaaaa agora só no brasso!!!”, “Quem esse pedante f.d.p. pensa que é, Antonio Candido?”. Apagou correndo o terceiro: palavrão não. Estranhou o relativo silêncio, nem sinal de Berilo, e passou as próximas horas olhando para as brasas moribundas da sua flame war, lendo os comentários sem relevância que chegavam e lambendo um a um todos os que tinha postado, em especial o último, que releu setenta vezes. O dia já clareava quando desistiu de esperar a reação de seu oponente, certamente adormecido àquela altura, e foi dormir.

Passava do meio-dia quando o telefone o acordou, um amigo lhe dizendo que Berilo di Carlo tinha se matado aquela madrugada. Como? Cabeça no forno, e deixou um bilhete. Um bilhete? Um bilhete, e sabe o que ele diz? “Adolfo Pinho Rosa tem razão. Dedico a ele, com solenidade, a minha morte. Possa este último golpe narrativo finalmente impressionar Adolfo Pinho Rosa: neste livro, pestilenta criatura, você carrega meu cadáver na consciência até morrer”. O quê! Você só pode estar brincando comigo. Não brincaria com uma coisa dessas. Fala sério, o que o Berilo diz no bilhete de suicida dele? Espera aí, e se tudo for uma brincadeira, hahaha? Vem cá, o Berilo se matou mesmo? Lamento muito, Adolfo. Publicaram o bilhete na internet, já está com mais de quinhentos comentários. Ah, meu Deus. Cuidado, meu amigo. Eu não recomendo ler o que o pessoal está escrevendo a seu respeito, sabe como é a internet.

Leu tudo, absorveu tudo: cada insulto desmoralizante, cada imperativo escabroso, cada viscoso palavrão. Cada ameaça de morte. O suicídio de Berilo di Carlo e a implicação do crítico Adolfo Pinho Rosa na tragédia eram o assunto preferido da blogosfera brasileira e começavam a ganhar projeção internacional. Antes de cair a noite, #berilolives tinha emplacado como trending topic mundial do Twitter e, no Orkut, a comunidade “Morte ao crítico Adolfo Pinho Rosa” angariava adeptos em velocidade inédita. Logo apareceu alguém para encontrar em seu texto uma sugestão claríssima de suicídio com a cabeça no forno: “Falta gás”, frase que Adolfo, claro, tinha empregado de forma tão inocente quanto lhe permitia seu ódio de então, querendo dizer que faltava fôlego, capacidade. Mas o diabo da frase elevou ainda mais a altura das chamas que o mundo alimentava na ágora digital, onde um crítico literário de ex-excelente reputação ardia agora em mudo estupor.

Adolfo Pinho Rosa passou uma semana no inferno antes que Berilo di Carlo viesse a público para revelar a fraude. Hoax era como chamavam em inglês. Estava de férias em Jeriquaquara, onde escrevia seu terceiro romance, e ria: “Primeiro de abril!, kkkkkk, vê lá se eu vou me matar por causa de um mané desses”. Só então Adolfo foi prestar atenção na data daquela guerra, primeiro de abril, ora veja. Sentiu-se esvaziar de tudo num jorro, feito uma sacola rasgada de feijão. Era um alívio, sem dúvida, mas acabou oco. Boçal. Uma certeza solar iluminava as gargalhadas nervosas que subiam da ágora: sua ex-excelente reputação estava perdida para sempre.

5 Comments

  • zanzoreia 02/04/2011 at 10:20

    Estas questiúnculas literárias são bem confrontadas na Internet. Detesto ver um crítico ir além da crítica. Detesto ver um crítico se achando e achincalhando um autor. Por pior que seja um autor toda crítica deve ser literária. Uma espécie de aula de literatura. Assim fica bonito. O resto acaba mesmo é em ringues ou muitas vezes na boca do povo cibernético.

    O primeiro de abril foi show! ( Apesar de não gostar desta coisa de primeiro de abril…)

  • Adolfo Pinho Rosa 02/04/2011 at 19:04

    Até você, Sérgio, que se dizia meu amigo, hen? Colocando lenha nessa minha fogueira de vergonha e desmoralização.

    Muito obrigado.

    • sergiorodrigues 02/04/2011 at 23:32

      Caro Adolfo, você me conhece e sabe que perco o amigo mas não a piada. Procure manter a calma nessa hora difícil. Em cinquenta anos ninguém vai se lembrar dessa história.

  • João 03/04/2011 at 21:10

    Apenas um breve apontamento: prefiro a grafia Jericoacoara.

  • Pedro 03/04/2011 at 22:13

    Sérgio,
    O texto é muito bom, mas faltou você colocar os links, pra gente acompanhar melhor a discussão. Fiquei sem saber, por exemplo, de quem o Lúcio Nareba tomou partido, embora não seja difícil imaginar. Se conheço bem a figura, está em Jericoacoara, junto com o Berilo. Mantenha-nos atualizados sobre a contenda. ABS

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