Flip, cada um faz a sua

30/07/2010

Se você está indo à Flip pela primeira vez, talvez não saiba que quando ela nasceu, em 2003, a graça era sentar no banco da praça ao lado do Julian Barnes e puxar um papo de papagaio. Eu não estava lá, o que até hoje lamento de modo amargo. Contam que a caipirinha de Maria Izabel jorrava em fontes, as pousadas estavam repletas de vagas e as plateias contavam-se em dezenas, todo mundo confortavelmente abrigado na intimidade de um auditório de província. Era grande a lista do que ainda não existia: megatendas, setecentos programas paralelos, restaurantes lotados, multidões serpenteando pelas vielas noite adentro atrás de uma mítica Festa Perfeita, gente à beça que nunca leu nem Paulo Coelho em busca de alguma forma de diversão. Parati era pacata como sempre tinha sido, aquelas pedras inacreditáveis tentando torcer seu tornozelo a cada dois passos, mas de repente você podia topar, sei lá, com um coroa americano tentando vender uma bola de beisebol usada e você olhar e o cara ser o Don DeLillo, mas ele estava pedindo alto demais pela bola de beisebol e você seguia em frente – gringo metido a esperto. Naquela primeira Flip, tão pré-historicamente romântica que até o site oficial do evento a trata como capítulo à parte, Eric Hobsbawn foi visto correndo atrás de borboletas utópicas, bois passavam voando e a água benta das igrejas era puro parati. De tanto ouvir os relatos de quem esteve lá – pessoas saudosas que talvez exagerem um pouco – eu acredito que era exatamente assim. O que não impede cada vez mais gente de sustentar que a Flip 2003 nunca aconteceu, é apenas o delírio coletivo de um grupo de escritores de São Paulo, provavelmente induzido pelo consumo excessivo de álcool e barbitúricos.

A de 2004, sim, esta aconteceu mesmo – meninos, eu vi. É quando começa a Flip como a conhecemos, com Tenda dos Autores, Tenda da Matriz, ruas cheias, tietagem cultural de massa e escritores cada vez mais ariscos. As pousadas acordaram para a oportunidade de faturar alto e as multidões começaram a desaguar no pequeno recipiente do Centro Histórico. Convidado pelo Flavio Pinheiro, então diretor de programação, fui o mediador de duas mesas: uma estrangeira, com Jeffrey Eugenides e Jonathan Coe, e uma nacional, com Sérgio Sant’Anna e Luiz Vilela. Lembro-me de ficar comovido como o diabo após algumas doses do bom espírito da terra e sentir nos ossos que a magia tangível de Parati conjurava uma bolha dentro da qual a literatura de fato importava, tinha um peso decisivo no mundo. Mesmo então eu já sofria com a ideia de voltar para a vida real, onde ela importa tão pouco, mas questões familiares – a obrigação de comparecer a um casamento em Porto Alegre – me arrancaram de Parati no sábado de manhã. Perdi o filé, a saraivada de estrelas anglófonas mais impressionante da história da festa, destinada a servir de parâmetro para todas as acusações de decadência que a perseguiriam pelos anos vindouros: Ian McEwan, Martin Amis, Paul Auster, Margaret Atwood. Perdi também a pelada do Chico Buarque. Na viagem de volta dei carona ao meu xará Sant’Anna, que não tinha casamento nenhum para ir, estava só fugindo daquilo mesmo.

Desde então, estive na maioria das Flips, entre participações mais ou menos intensas e até uma presença como autor convidado, ano passado, na mesa dividida com Arnaldo Bloch e Tatiana Salem Levy. Abordei Christopher Hitchens na Praça da Matriz em 2006, quando a polícia acabava de descobrir uns planos de atentados de extremistas islâmicos na Inglaterra. Transtornado com a notícia, sobre a qual tinha acabado de enviar um artigo para a matriz, disse-me Hitchens: “We have to get better at killing them”. Que eu traduzi na época como “Temos que aprimorar nossa capacidade de matá-los”, mas taí uma tradução que consegue, sendo correta, ser equivocada, então corrijo agora: “Temos que aprender a matá-los melhor”. No ano seguinte fui um dos que vibraram – enquanto a maioria do público saía chutando pedrinha e cuspindo no chão – com a leitura fria que um J.M. Coetzee engravatado e formal fez de seu ainda inédito “Diário de um ano ruim”. E ano passado vi Alex Ross, o jovem crítico de música clássica da “New Yorker”, rebolando ao som de Sidney Magal na única festança digna deste nome a rolar na cidade (sim, elas andam escasseando).

Se esse histórico sumário e personalíssimo servir para alguma coisa, talvez sirva para ensinar ao flipeiro novato que o evento mais chique do calendário literário nacional será sempre aquilo que você quiser – e puder – fazer dele. Como um romance caudaloso, a Flip não comporta uma leitura só, de forma que importam pouco, na hora da fruição, as críticas antípodas que lhe costumam ser feitas: de um lado, a de que já não conta com estrelas de primeira grandeza em número suficiente; do outro, a de que não deveria basear seu apelo no cultivo frívolo de estrelas de primeira grandeza. São verdades parciais. Acredite: na fresta entre elas, a experiência única de comer e beber literatura por quatro dias sempre dá um jeito de escapar.

Será que a Flip 2010 está mesmo carente de estrelas? Bom, o elenco passa longe do brilho midiático de 2004, sobretudo depois que a descortês desistência de Lou Reed – cujas razões apenas Marcelo Mirisola afirma conhecer – deixou Robert Crumb como a única cereja de seu bolo pop. Sem o poeta marginal do rock, o genial desenhista de Fritz the Cat acabou como esteio quase solitário – secundado por Gilbert Shelton, companheiro menos badalado de ofício e credo estético – de uma boa ideia do Flavio Moura, o diretor de programação: levar a Parati um naco do wild side da contracultura americana dos anos 60-70. Salman Rushdie seria outra estrela mas, tendo estado aqui em 2005, andou gastando seu brilho. Isabel Allende certamente pode ser considerada um ponto luminoso também – pelos leitores dela, que não são poucos, embora eu não conheça nenhum. E depois tem… quem mesmo? Fernando Henrique Cardoso? Hmm.

A crítica oposta também tem suas doses de razão ao acusar a Flip de ser dominada pelos autores da Companhia das Letras, de ser uma espécie de filial praiana da Casa do Saber e suas dondocas ociosas, de celebrar o privilégio elitista de quem tem dinheiro para comprar livros da Cosac Naify e pagar por hospedagem inflacionada num país de analfabetos funcionais. Hmm de novo.

Se você está indo à Flip pela primeira vez, vale a pena levar em conta todas essas conversas e refletir sobre elas. E depois tratar de fazer o seu recorte pessoal naquela bagunça, com um bom calçado de sola resistente mas flexível nos pés e uma ideia na cabeça: a de que, no atual estado de coisas da cultura brasileira e ponderados todos os poréns, amar a literatura e ser programaticamente contra uma festa vital como a Flip são atitudes que só uma certa medida de transtorno pode compatibilizar na mesma alma.

13 Comments

  • Saint-Clair Stockler 30/07/2010 at 17:57

    Um: nunca fui à FLIP e pretendo nunca ir.
    Dois: Mirisola, eu adoro você, cara! Passo mal de tanto rir quando leio uma crônica sua! “Viadinho cultural” foi ÓTIMO!

  • rafael pontes 30/07/2010 at 21:42

    um: nunca fui à flip e pretendo nunca ir.
    dois: como caiu o todoprosa!

    • sergiorodrigues 31/07/2010 at 00:48

      Questão de gosto, Rafael. No um e no dois. A Flip eu não sei, mas o Todoprosa nunca esteve tão bem.

  • Mr. WRITER 31/07/2010 at 10:12

    Eu tenho vontade de ir à Flip, acho que, além de estar em uma bela cidade, com certeza tem muita coisa bacana para se fazer e ver durante o evento.

    Se for acompanhado de alguém especial na empreitada então deve ser melhor ainda.

    Gostaria que houvesse algum evento assim aqui onde moro, seria mais barato para ir e mais fácil de aproveitar também.

    Mas cada um com seu cada qual né?

  • Sérgio Karam 31/07/2010 at 12:01

    Belo texto, Sergião, como sempre! Quer saber? Só sinto falta dos links pro Babélia, Arts&Letters Daily, etc, mas isso dá pra encontrar por conta própria, né? Abraços!

    • sergiorodrigues 31/07/2010 at 14:28

      Obrigado, xará. Quer saber? Eu também sinto! Abraços.

  • kylderi 01/08/2010 at 11:11

    Oi, Sérgio

    Sei que o Ferreira Gullar será uma das atrações da Festa e também sei que ele está lançando novo livro. Afinal, como se chama a nova obra dele? Nos sítios de vendas de livros não a encontro nos lançamentos. Já antecipadamente lhe agradeço a informação.

    PS: O Todoprosa está devendo notícias de livros; parece-me que o Sobre palavras está demandando mais atenção do que o nosso espaço aqui. Visito diariamente as duas páginas.

    Abraços

    • sergiorodrigues 01/08/2010 at 21:45

      Olá, Kylderi. O que soube é que se chama “Em alguma parte alguma” e sai em setembro. Segura que vem notícia aí, cobertura ao vivo. Abraço.

  • andre 01/08/2010 at 22:17

    a sua participação na flip foi completamente descartável. a tatiana salem levy sim é uma grande escritora e merecia dividir a mesa com outros convidados! fui nas últimas quatro edições da flip e acho fantástica! desde a flipinha até as mesas, como a do lobo antunes no ano passado. até chico buarque, que como escritor não me diz muita coisa, estava ótimo. enfim, seu texto me parece “mágoa do caboclo”. e os melhores autores estão nas editoras citadas, salvo poucas excessões. normal que elas estejam presentes em maior número… muito drama viu, ui!

    • sergiorodrigues 01/08/2010 at 23:24

      André, é constrangedor para mim ver como você não entendeu nada do texto. Eu faço uma defesa cândida e até comovida da Flip e você lê “mágoa de caboclo”? Se eu já fui chamado pela Flip (livrando-me da lista do Globo), mágoa de quê? É constrangedor porque, pra você ter entendido tão pouco, devo ter feito alguma coisa errada. Ou será que a praga do penúltimo parágrafo é mais grave do que eu pensava? A propósito, a Tatiana é ótima e o Arnaldo também. Um abraço.

  • kylderi 02/08/2010 at 17:25

    Você é uma ótima pessoa e um escritor competente, Sérgio. Há muitos leitores que admiram você e não o acham desnecessário, senão não viriam lê-lo aqui.

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