‘Freedom’: Obama no conteúdo, Bush na forma

07/01/2011

Se quiséssemos lançar mão de categorias romanescamente tão rasas quanto aquelas que ajudam a estruturar sua visão de mundo, poderíamos dizer que Freedom, o novo e superaclamado livro de Jonathan Franzen, é um romance democrata no conteúdo e republicano na forma. Isso seria um pouco injusto, mas só um pouco – na medida exata em que, políticas ou não, todas as metáforas que buscam dar conta do atacado passam por cima do que as contraria no varejo. Como ocorre o tempo todo no livro, aliás.

Franzen é um romancista saudoso de um tempo pré-modernista (mítico?) em que a grande ficção desempenhava na sociedade um papel central, ideologicamente estruturador. Seus livros não são apenas bons de ler, cheios de humor e peripécias, mas se pretendem espelhos críticos e mais ou menos realistas do mundo, em diálogo com a tradição narrativa do século 19. O fôlego das histórias é épico e a construção dos personagens e de seu ambiente tenta se expandir tanto para dentro quanto para fora – tanto na dimensão psicológica quanto na social, com um interesse cujo foco, na verdade, não se encontra nem num plano nem no outro, mas em sua interseção. As comparações com Leon Tolstoi que andaram pipocando na imprensa anglófona, e que uma breve passagem de Freedom corteja de forma imodesta e escancarada, são claramente bem-vindas.

Não há nada de errado nesse projeto. Pelo contrário: desde que se evitem as armadilhas da ingenuidade, a redescoberta/atualização da boa arte narrativa é a resposta mais sensata à desvalorização cultural que a literatura vive em nossa época. No entanto, o que funcionava no excelente “As correções”, de 2001, um romance movido pelos mesmos princípios, perdeu voltagem em Freedom. E a principal razão para isso é algo que justifica pelo menos em parte a metáfora um pouco injusta ali de cima: assim como os anos George W. Bush foram marcados pelo rebaixamento moral e intelectual do horizonte americano, o novo romance de Franzen, ao mesmo tempo que busca retratar isso, conforma-se esteticamente a uma linguagem de baixa potência e fácil digestão mais próxima do jornalismo das revistas bem-pensantes que da literatura.

Isso se relaciona à sensação, cada vez mais incômoda à medida que o livro avança, de que a saga familiar dos Berglund, centrada no casal Walter e Patty, raramente é apresentada em primeira mão, com o pulso de vida que só a boa prosa realista – da qual Franzen é um cultor – pode nos dar. Quase tudo parece estar no pretérito imperfeito ou mais-que-perfeito, não por acaso os tempos verbais preferidos por quem tem pressa de sobrevoar cenas e montar logo um “painel social” – não é este, afinal, o grande bordão de venda do livro? Contrariando aquela velha lei das oficinas de ficção, Franzen conta (tells) mais do que mostra (shows). Na fórmula de Tchecov, opta por dizer que a lua está brilhando em vez de apresentar seu reflexo num caco de vidro.

É curioso que um romance de quase 600 páginas não tenha tempo de se aprofundar em nenhum dos temas que roça: casamento, infidelidade, amizade, vida no subúrbio, rock, ambientalismo, superpopulação, Bush, Obama. A pressa gera grandes desperdícios. Quando Joey, o filho bushista do casal democrata, tenta tocar normalmente sua rotina escolar no dia 11 de setembro de 2001, após ver na TV a imagem das Torres Gêmeas atacadas sem se se dar conta da dimensão do ocorrido, encontra salas vazias e corre o risco de ser tragado por um abismo de descompasso com o mundo. A cena poderia ser antológica, quem sabe a melhor já escrita sobre o tema. Não dura o suficiente para ser mais que legalzinha.

“Freedom” é um romance empenhado numa espécie de gincana: a obrigação auto-imposta de tocar num determinado número de assuntos, inclusive alguns que estavam acontecendo – “ooooh!”, podemos ouvir o murmúrio de pasmo percorrendo a plateia da Oprah – enquanto o autor escrevia! Num trabalho de maior rigor estético, é difícil imaginar que Franzen se desse por satisfeito com a baixeza do único artifício formal mais elaborado que emprega: o de fazer Patty narrar parte da história. Os problemas aqui são dois: a voz da personagem soa idêntica à do narrador em terceira pessoa e a única justificativa dramática para essa variação de ponto de vista, revelada perto do fim, tem a consistência de um último capítulo de telenovela.

Franzen pode ser melhor do que isso. Em “As correções”, a saga familiar dos Lambert, com seu humor trágico e selvagem, jamais dá a impressão de sucumbir à pressa do pretérito imperfeito e à obrigação da “sociologia em tempo real”. O resultado é que personagens dolorosamente tridimensionais como o enigmático Alfred e o patético Chip conseguem reproduzir diante do leitor uma tensão pai-filho que Walter e Joey Berglund, personagens comparativamente esquemáticos, peças-de-um-importante-painel, nem sonham em rivalizar. Se o ambicioso projeto de Franzen é, como parece ser, salvar a literatura de sua progressiva irrelevância social, a diferença de qualidade entre “As correções” e Freedom indica enfaticamente que o barateamento estético não é a melhor forma de fazê-lo.

17 Comments

  • Xerxenesky 07/01/2011 at 13:28

    Boa demais a resenha. Me fez entender melhor os motivos que me levaram a não gostar do Freedom (apesar das risadas ocasionais, dos personagens bem construídos).

    • sergiorodrigues 07/01/2011 at 13:57

      Obrigado, meu caro. Um abraço.

  • Rogério Moraes 07/01/2011 at 14:12

    Acho que li um romance diferente rs. Belíssimo romance, ambicioso e extremamente bem-sucedido. Franzen possui um projeto ficcional claro e com tempo poderá se tornar o principal romancista norte-americano.

  • foguete de luz 08/01/2011 at 07:54

    Amo ler suas críticas. Sua “minuciosidade” em mostrar as “miudesas” aqui e ali adentrando o leitor num livro que ainda não leu, só faz de você um “escritileitor” que balança não só o já leu o livro, mas muito mais aquele que começa a “pretender” rápida leitura.

  • foguete de luz 08/01/2011 at 07:56

    “não só o que já leu”

  • Danilo Maia 08/01/2011 at 21:54

    As cifras que você produziu com essa crítica cabem perfeitamente na métrica das letras d`”o Alquimista”, do Paulo Coelho. Quem leu o romance, e não aqueles que estão nesse momento fazendo troça mentalmente desse comentário, há de reconhecer logo.

    Para os intracitados, sugiro um olhar menos afetado e mais atento aos 65, enfatizo, sessenta e cinco milhões de exemplares do livro vendidos no mundo.

  • Osório 09/01/2011 at 07:38

    Eu só li “As correções”, e achei um romance sem alma. Tua critica se encaixaria perfeitamente nele. Agora tu elogia “As correções” e critica freedom..não espero muita coisa do franzen.

  • Maria José Silveira 09/01/2011 at 17:45

    Não concordo inteiramente mas achei muito provocante sua resenha. Valeu! E by the way: o que vc quer dizer exatamente com “baixeza” do unico artifício mais elaborado que ele usou, o diário da Patty? Eu até que gostei dessa “quebra” da narrativa como ele a faz e concordo que a “voz” não muda muito, mas não entendi a qualificação. Você pode explicar melhor? Fiquei curiosa.
    Grande abraço

    • sergiorodrigues 09/01/2011 at 23:32

      Olá, Maria José. Fico contente de saber que achou a resenha provocante. Quanto à baixeza, convém esclarecer que não tenho nada contra a alternância de vozes narrativas, pelo contrário: gosto tanto do recurso que já fui acusado por um resenhista sem noção de ter “preguiça de narrar” (hahaha), como se os personagens-narradores não tivessem por trás de si o mesmo autor. Só acho que em Freedom o recurso é baixo pelas razões que apresentei: a precária solução técnica da voz de Patty e a falta de um quadro dramático onde a estrutura parecesse mais firme, o truque menos “truque”, se é que me faço entender. Um abraço e obrigado pela mensagem.

  • Marcelo 06/02/2011 at 18:19

    Bom ler isso aqui, como achei o que você taxou de “excelente” As Correções uma enorme porcaria, nem perderei meu tempo com esse Freedom.
    Aliás livro que americano gosta não é pra ser lido mesmo.

  • Alessandro Garcia 30/05/2011 at 12:11

    “Quase tudo parece estar no pretérito imperfeito ou mais-que-perfeito, não por acaso os tempos verbais preferidos por quem tem pressa de sobrevoar cenas e montar logo um “painel social” “.

    Li recém a primeira parte, mas compactuo desta “pressa” em tecer um grande painelzão, acentuada pelo uso exacerbado destes tempos verbais, “varrendo” com muita velocidade uma quantidade gigante de fatos e personagens, sem se debruçar sobre cada um.

  • Dernival 13/05/2012 at 16:46

    Eu gostei do livro e gostei da narrativa – um tipo de literatura que revisita o projeto realista. Principalmente, o livro é bom porque pretende lidar com o presente – ou o passado quase-imediato -, coisa que nossos escritores – ao menos os mais afamados – poucos fizeram nos últimos 30 anos. A verdade é que os grandes da literatura estão velhos. Velhos, com 70 anos para mais. É preciso certo fôlego, Franzen pode ser essa fôlego.

  • Dernival 13/05/2012 at 16:50

    Outra coisa, a versão em português está muito mal editada, cheia de erros de ortografia. Um pena, um texto tão bonito. A Companhia tome suas providencias…

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