Futebol, literatura e caneladas

08/05/2006

O caderno Prosa & Verso, do “Globo”, aproveita a proximidade da Copa do Mundo para pôr novamente na roda uma velha discussão: por que o futebol do Brasil nunca encontrou uma representação literária à altura de sua exuberância?

(Re)lançada a questão, alguns craques consagrados foram convidados a comentá-la. E protagonizaram um festival de matadas na canela de fazer inveja ao Íbis.

Para o crítico literário Silviano Santiago, “o imaginário sobre futebol no Brasil é um espaço tão complexo, tão amplo e tão multifacetado que é quase impossível uma obra de ficção apreendê-lo. Nunca o imaginário do artista esteve à altura do imaginário do povo”.

Soa bonito, mas deixa no ar algumas perguntas incômodas: se a presença anêmica da arte de Ronaldinho Gaúcho na literatura brasileira se explica pelo excesso de complexidade do nosso “imaginário sobre futebol”, onde estão os grandes romances brasileiros sobre esportes de imaginário mais pobre como vôlei, basquete, automobilismo, bocha, badminton – qualquer um? E cadê as belas obras de ficção futebolística produzidas em países de literatura mais desenvolvida e futebol menos acachapante? “Febre de bola”, do inglês Nick Hornby? Aquilo é memorialismo, não ficção. E eu disse “belas obras” – não bonitinhas ou passáveis.

O antropólogo Roberto da Matta é mais contundente do que Santiago – e apanha mais da bola: “Essa está na cara. Os intelectuais brasileiros detestam o futebol. Por quê? Igualmente simples: o futebol (como o carnaval, a umbanda e o jogo do bicho) foi logo equacionado como ‘ópio do povo’, como um instrumento de alienação social e (?) como um exemplo acabado de importação negativa, a ser proibida por lei como querem até hoje os comunistas, porque era uma prova da tal espoliação estrangeira e sinal da nossa ausência de criatividade, imagine!”

Imagine, pois é. Se Roberto da Matta estivesse falando das primeiras décadas do século XX, quando vozes como as de Graciliano Ramos e Lima Barreto se levantavam contra o esporte (na época elitista), seria possível levar a sério seu argumento. Contudo, em cada geração de escritores brasileiros dos últimos 50 anos daria para formar um time de onze dispostos a dar uma perna – ou duas – pelo privilégio de escrever “o grande romance do futebol brasileiro”.

Que, aliás, está escrito desde 1947 e pouca gente leu – veja aqui.

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