Gabo, o político

04/02/2010

Pode-se argumentar que, aos 82 anos de idade, a reputação literária do colombiano Gabriel García Márquez está estabelecida. Sua cotação na Bolsa de Valores Literários deverá sofrer oscilações ao longo do tempo, como a de qualquer escritor que não seja simplesmente esquecido, mas poucas vozes – como a do exilado cubano Guillermo Cabrera Infante, um desafeto político morto em 2005 – deram-se ao trabalho de lamentar seu “folclorismo e exotismo realmente desnecessários”. Cem anos de solidão é um monumento cravado na história da literatura, ponto. E, como seus três ou quatro principais livros depois dele mantêm o sarrafo lá no alto, o solo sob os pés do escritor parece firme. No caso de Gabo, como o chamam os amigos próximos (e os jornalistas de qualquer distância), a reputação que falta fixar é a do homem público, a do “político” – papel que o ex-menino pobre e franzino de Aracataca passou a representar de modo praticamente profissional depois de se consolidar como celebridade planetária com o Nobel de literatura de 1982.

Foi essa frente política – ou seriam fundos? – que a crítica internacional atacou com maior apetite na notável biografia autorizada que o inglês Gerald Martin publicou em 2008, após 17 anos de trabalho, e que chega agora ao Brasil: Gabriel García Márquez: uma vida (Ediouro, tradução de Cordélia Magalhães). Não adianta dizer que o homem político interessa pouco, que só se deve julgar um escritor por sua obra: García Márquez se impõe no papel não só por sua estética “terceiro-mundista”, influenciadora de gerações de escritores ditos pós-coloniais, mas sobretudo por uma atuação pública de esquerda que sobreviveu à própria ideia de esquerda. Como separar vida e obra de quem prometeu em 1975, após lançar O outono do patriarca, que não voltaria a escrever romances enquanto o ditador chileno Augusto Pinochet estivesse no poder – promessa felizmente descumprida?

Assim começa minha resenha para a “Bravo!” que está chegando às bancas, com capa dedicada à relação promíscua entre escritores e ditadores ao longo da história – no caso de García Márquez, claro, estamos falando de Fidel Castro. O ponto fundamental é que, ao contrário do que disse em linhas gerais a crítica de países anglófonos sobre a biografia autorizada de Martin, parecendo meio frustrada no desejo de ver o linchamento moral do escritor colombiano, o livro me pareceu digno e ponderado ao tratar de seu polêmico apoio ao líder cubano – fuzilamento de dissidentes inclusive.

32 Comments

  • Marcelo ac 04/02/2010 at 13:21

    Infelizmente fico com os anglófonos. Um cara que defende el paredon porque não vou defender o paredón também para ele. Que vergonha!! E eu que li boa parte da obra dele… Pura perda de tempo

  • Rosângela 04/02/2010 at 13:22

    Gosto de ler os parágrafos do Sérgio… grandes… Gosto muito. Apreeeendoo muito!
    BEM Melhor que festar numa sala de aula … Aqui é mais vivo…

  • Rosângela 04/02/2010 at 13:23

    Festar?
    Corrigindo:
    Estar.

    É sempre “festa” quando se “eureka!” !

  • Vinícius Antunes 04/02/2010 at 14:20

    A obra de García Marquez é bem coerente com sua proposta política. Sem falar que criticá-lo por apoiar o Fidel parece-me risível. Antes assim que este modelo de democracia yankee.

    • otavio 08/02/2010 at 16:02

      Taí algo que não entendi… que “modelo de democracia yankee” é esse que você refere? Ninguém pode criticá-lo por apoiar Fidel por que? O cara não pode ser criticado nas opiniões políticas?

      Então tá. Agora, na tal democracia ianque a que você se refere, ninguém questiona essa direito de crítica, bastando, para isso, lembrar do Chomsky, do Tariq Ali e de tantos outros…

  • Miguel Carneiro 04/02/2010 at 16:53

    A obra mais linda de Gabo é “Ninguém escreve ao coronel”, escrita num só fôlego em 1957, em Paris, quando o escritor passava fome. Prende o leitor do começo ao fim e o final é belo quando acaba o milho para dar ao galo de briga que o casal de idosos guarda como última lembrança do filho. Porém, este gênero literário denominado de “literatura fantástica”, no Brasil já se fazia há tempos….. Que diga Murilo Rubião, Permínio Asfora e etc etc …..

  • Sergio 04/02/2010 at 17:41

    Pode-se falar qualquer coisa a re´peito de Gabo, mas a sua obra é simplesmente fantástica. Cem anos de solidão é leitura imprescindível para qualquer admirador conhecedor ou não da literatura universal.

  • Sergio 04/02/2010 at 17:41

    Pode-se falar qualquer coisa a respeito de Gabo, mas a sua obra é simplesmente fantástica. Cem anos de solidão é leitura imprescindível para qualquer admirador conhecedor ou não da literatura universal.

  • Carlos 04/02/2010 at 17:49

    Aqueles que criticam Gabo, podem optar por ler “Marimbondos de Fogo” e cultuar o seu autor.

    • Marcelo ac 04/02/2010 at 18:13

      Cheiro de Goiaba, Os Funerais da Mamãe Grande, A Incrível e Triste História da Cãndida Erêndira e Sua Avó Desalmada, Cem Anos de Solidão, O Outono do Patriarca, Doze Contos Peregrinos (uma jóia do realismo mágico), Notícias de um Sequestro e mais dois ou três títulos que ficaram perdidos pelas bibliotecas desse mundo de deus me livre. Mas é que a gente vai cedendo aos argumentos da esquerda, e passa ano, entra ano e a gente não se desliga da genialidade do cara. Daquela música que invade os ouvidos, aquela riqueza de vocabulário. Até dor de barriga dele eu li sobre a escritura na Ilha de O Amor nos Tempos do Cólera. Mas como dissociar o escritor do homem. Como dissociar o artista do intelectual que cedeu ao totalitarismo. À lei de talião: dente por dente, olho por olho. No meu caso, o escritor acabou indo para o lixo.

  • Silvio... Silva 04/02/2010 at 19:15

    Muito oportuno, Sérgio.

    Só li duas obras do Márquez. Até hoje, gosto bastante do contundente ‘O Outono do Patriarca’.

    Mas não entendo esse auê todo em cima do ‘Cem Anos de Solidão’. Ele apenas teve êxito em agradar ao nicho do 1º (e do 3º, obviamente) Mundo que tem aquele fetiche por exotismo dos trópicos: vilarejos primitivos, morenas sedutoras, coqueiros, dança folclórica, governos instáveis, “revolucionários” escondidos na selva, empresas estrangeiras que são o Mal encarnado. Agora com o extra do tal do realismo mágico. Não consegui terminar de ler. Há quem goste. E são muitos.

    Quanto às opiniões políticas, há tempos parei de prestar atenção, tal a quantidade de bobagens. Lembro quando a falecida yankee Susan Sontag criticou a posição dele em relação à ditadura socialista de Cuba, e ele todo esguio, dizendo que ajudava no que podia os dissidentes e perseguidos, etc etc.

  • Silvio... Silva 04/02/2010 at 19:18

    Não sei o que me deu de tacar ‘esguio’. Leia-se ‘esquivo’.
    Sorry.

  • zédascouve 04/02/2010 at 19:55

    A propósito da relação entre o escritor e o político, não leiam Platão nem Aristóteles.

  • Paulo Mahon 04/02/2010 at 20:28

    Falar sobre o escritor Gabriel García Marquez, é redundante. Agora falar do cidadão e político Gabo, são outros carnavais. Justifico a posição política dele, com os olhos voltados para a Revolução Francesa,Deixem a hipocrisia de lado. Revolução se faz, quando se quer mudar totalmente um sistema.A guilhotina foi ferramemnta dos burgueses. Longa vida a Gabo, Niemayer, Chico Buarque!

  • zédascouve 04/02/2010 at 20:34

    Nem Borges, o liberal, nem Saramago, o comunista. He he he…

  • zédascouve 04/02/2010 at 20:37

    Relacionar a literatura com as idéias políticas dos seus autores é a forma mais eficaz de esterilizar o seu verdadeiro poder revolucionário. (Oxente! Quem disse isso?)

  • zédascouve 04/02/2010 at 20:43

    Os genes de inquisidores que nos habitam anseiam avidamente por qualquer oportunidade de listar um Index Librorum Prohibitorum…

  • João Avelino Leite 04/02/2010 at 20:54

    Do Gabriel Garcia marques só li um livro. ‘O Amor no Tempo do Cólera”. Gostei muito mas. Não tive curiosidade em ler outros livros dele. Leio tambem os artigos que ele escreve nos jornais.
    João Leite

  • gesiel 04/02/2010 at 21:14

    QUAL ESCRITOR, OU ARTISTA DE MODO GERAL, não TEVE LIGAÇÃO COM A POLITICA? Jorge Amado era AMIGO DE ANTONIO CARLOS MAGALHÃES? Ariano Suassuna, era AMIGO DE MIGUEL ARRAES? Hebe Camargo, é amiga de PAULO MALUF? Wilson Simonal, foi acusado de TER RELAÇÕES COM GOVERNOS DA DITADURA? Milton Nascimento era AMIGO DE JK? Frank Sinatra ERA ENVOLVIDO COM ALCAPONI? Merlin Monroe ERA AMANTE DE JOHN KENEDY? Tudo Isso É MENTIRA?

  • José Brasileiro,maior,vacinado e invocado. 04/02/2010 at 21:16

    O “cara” pode até escever que o sabiá daquí não gorgeia como lá; que nenhuma curva de rio se compara a curva que o meu Tejo faz, ou como disse o autor, “um menino no canavial não é só um menino no canavial”, pode escrever o que qizer, só não pode um público dizer que Pinochet era um sanguinário ditador (e era pois assassinou mais de 3.000 sêres humanos) mas, o maior ditador assassino do pós guerra, só por ser comunista, mereçe o seu beneplácito, mesmo tendo assassinado mais de 95.000 sêres tão humanos quanto os chilenos ou os cubanos valem menos? Por isso este “cara” deve ser esquecido no lixo da história.

    • José Brasileiro, maior, vacinado e invocado. 05/02/2010 at 08:19

      São tantas “megalomanias literárias” que prefiro responder a minha parca sabedoria. Os nossos genes de observadores viram nas noites de outrora que o dia “nascia” a meia noite quando a grande China que ia de Mao a Piao, ardia nas montanhas literárias desprezando em cinzas tudo o que escritores montaram em noites, estas escuras, para “apenar” seus sonhos. Índice de Livros Proibidos. A alma de um escritor, não vale para ” Marimbondos de Fogo” ou ” Os Filhos de José”, nunca será destruída, pode no máximo ser esquecida ou jogada no lixo, não queimada.

    • otavio 08/02/2010 at 16:20

      Megalomanias literárias? As dos outros, claro… sempre são os outros…

  • zédascouve 04/02/2010 at 21:34

    Não falei? Repito: os genes de inquisidores que nos habitam anseiam avidamente por qualquer oportunidade de listar um Index Librorum Prohibitorum…

  • Zé Arcádio 04/02/2010 at 21:45

    Acho que é muita falta de inteligência criticar uma obra magnifica, como é a do Gabo em virtude virtude de suas convicções políticas.Também é muito ser colonizado desprezar a critica social que se faz em algumas das obras do escritor, simplesmente ignorando-se os meandros politicos e a história da américa latina pós big deal.

    Para o forista que disse que o fato do Gabo defender o regime totalitário cubano torna sua obra perda de tempo, recomendo a leitura do livro(sic) do Mainardi, que ao que parece deve ser otimo, tendo em vista que o padrão maniqueista de pensamento adotado deixa entender que a genialidade do Gabo deve ser desconsiderada em função da convicção política,,

  • joão sebastião bastos 04/02/2010 at 22:55

    Tem militância para todos os gostos,desde Hemingway e Malraux combatendo o fascismo até Céline,em suas apologias do nazismo e panfletos anti-semitas.Uma coisa em comum : grandes escritores.A busca da coerência costuma ser decepcionante, principalmente entre escritores.

  • Colafina 04/02/2010 at 23:01

    Parece então que tive o privilégio de conhecer o escritor antes do político. Acho que li todos os seus livros, uns melhores que outros, mas todos ótimos. O primeiro que li foi “Ninguém Escreve ao Coronel”, muito bem descrito no comentário do Miguel Carneiro lá em cima, depois “Cem Anos…”, e não pude mais deixar de lê-lo até “Memórias de Minhas Putas Tristes”, na minha opinião sem a mesma qualidade dos que o precederam, mas ainda um bom livro.

    Aprecio o seu estilo, até mesmo a loucura de frases com várias páginas de comprimento de “O Outono do Patriarca”, uma marca inconfundível.

    Mas o que leio é a obra do escritor, não a do político. No caso do Gabo, felizmente consegui sempre manter uma distância segura entre elas, e acredito que só tive a ganhar com isso. Pois afinal, quem sou eu para julgar Garcia Márquez, tanto o escritor quanto o indivíduo?

  • José Brasileiro,maior,vacinado e invocado. 04/02/2010 at 23:06

    Realmente sou tomado por um dúvida, será que prefiro não ser inteligente e manter MINHA opinião ou melhor, minhas convicções tiradas Deus sabe de onde uma vez que não me deixei seduzir pelo “iluminismo mental” de achar que TODA a sabedoría do mundo está comigo vez que sou leitor de obras geniais que comungam com as convicções que a vida me impôs? Sería melhor tornar-me “cult” e dizer a mesma plateia, sempre, as frases feitas sacadas de algum livro que elegemos como “obras geniais”, ou ter minhas “burras” mas minhas próprias frases? Sería melhor para meu “status tribal” contestar algum algum austéro pai com relação mal resolvida ou ao próprio Deus? Ser Ateu é o “canal”? Fingir que sou feio porque sou desleichado, sujo, cabelo ensebado e barbudo, roupa surrada e mal cheirosa? Defender as convicções que outros contam sem nunca ter conhecido? Defender regimes totalitários indecentes sejam de “direita” ou de “esquerda” ? Olha, quer saber, prefiro, dentro de uma humildade chinesa, deixar toda a sabedoría com você e recolher-me a insignificancia dos sêres humanos comuns.

  • Daniel Brazil 04/02/2010 at 23:23

    Só falta deixar de ler Shakespeare porque bajulava a Coroa britânica. Ou ignorar Pound porque demonstrou simpatia pelo fascismo.
    GGM é grande por méritos literários, e não políticos. Só um idiota deixará de lê-lo por ser “de esquerda”. A separação se dá assim, Sérgio:
    “Cem anos de solidão é um monumento cravado na história da literatura, ponto. ”
    Não é à toa que Rocamadour reencarna em Paris, anos depois, pelas mãos de um certo Julio Cortazar…

  • Isabel Pinheiro 04/02/2010 at 23:55

    Sérgio, fiquei curiosa: quando você diz que “o livro me pareceu digno e ponderado ao tratar de seu polêmico apoio ao líder cubano”, é porque achou o trabalho do Gerald Martin isento em relação à posição política de GGM? Se for assim, acho que vou colocar o livro na minha lista de “futuros” – respeito muito quem consegue fazer isso, não deixar transparecer juízo de valor a respeito do biografado. Creio que o Lyra Neto conseguiu isso na bio do Padre Cícero. O Ruy Castro nem sempre consegue. O Fernando Moraes me parece sempre chapa-branca…

    • Sérgio Rodrigues 05/02/2010 at 11:53

      É isso mesmo, Isabel. O livro é bom. Martin é claramente um fã, mas não foge dos fatos desagradáveis. Apenas teve a ousadia de tentar contextualizar e entender (não necessariamente concordando com) a visão de mundo de GGM, para quem – de forma coerente com sua obra – Fidel, com todos os seus erros, é o maior nome da política latino-americana do século XX. Isso vai ficar mais claro se você ler o restante do meu texto na Bravo!, isto aqui foi só um aperitivo. Um abraço.

    • Isabel Pinheiro 05/02/2010 at 15:15

      Lerei, sem falta! Abração

  • Rosângela 06/02/2010 at 15:12

    Busquei o texto de Sérgio no Bravo, mas pelo google não encontrei. Não sei se tenho que ter a Revista em mãos.

    Sérgio, você poderia me dar o link?

    Um abraço,

    Rosângela

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial