Gaúchos

04/12/2009

Quando ele fez o velho sinal de pedir a conta rabiscando o ar, o garçom – um sujeito alto e branquelo, cabelos vermelhos cortados à máquina – se aproximou com um sorriso amplo e disse:

– Como tu adivinhou que eu escrevo?

E em vez da conta pôs em suas mãos um manuscrito pesado, com encadernação em espiral, chamado “Carnificina”. Antes de se retirar, acrescentou:

– Sou um escritor gaúcho.

Claro, ele pensou, nada mais apropriado. Você vai jantar numa churrascaria em São Paulo e o garçom é um escritor gaúcho. Estava decidido a não tomar o ansiolítico – não ainda. Atraiu outro garçom, desta vez tendo o cuidado de se expressar verbalmente:

– A conta!

Foi então que viu entrar na churrascaria aquele famoso escritor gaúcho de meia-idade, feio como poucos, acompanhado de uma mulher jovem e bonita. Ouviu quando o casal da mesa ao seu lado comentou:

– Viu quem chegou?

E discerniu no sussuro dos dois os nomes estrangeirados do escritor de meia-idade e de uma jovem escritora gaúcha emergente cuja cara ele não conhecia, embora, por dever de ofício, já a tivesse lido – não era má. Sem se dar conta, acompanhou os recém-chegados com os olhos até que eles se sentaram nos fundos do salão e foram saudados festivamente por uma mesa vizinha, uma mesa comprida onde só então ele reconheceu o maior escritor gaúcho vivo, que sorria com ar tímido, e outros sete escritores gaúchos de idades e sexos variados, incluindo o mais…, aquele que fundou a… e a que venceu o…, além daquele outro que se…

Decidiu que era chegada a hora do ansiolítico: engoliu o comprimido com o último gole de chope, pagou a conta e saiu.

Na porta, viu um gaúcho repreendendo o maître por não lhe arranjar uma mesa:

– Como assim, lotado? Tu fique sabendo que eu sou o melhor escritor dos últimos…

Saiu correndo e se jogou dentro do primeiro táxi parado na esquina. Só então, irritado, se deu conta de que ainda tinha nas mãos o manuscrito do garçom. O motorista o encarou pelo retrovisor e disse:

– Escritor?

Era um cara moreno de nariz comprido, barba por fazer. Com seu cabelo preto penteado para trás das orelhas e sua camiseta sem mangas, parecia um anarquista italiano de filme.

– Não – tartamudeou. Fez a bobagem de acrescentar: – Crítico.

O anarquista de filme ficou muito sério, abriu o porta-luvas e lhe estendeu um gordo envelope pardo.

Acuado no banco de trás, ele gemeu:

– Gaúcho?

O motorista sorriu, um canino de ouro brilhando à luz fria dos postes.

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