Gêneros? Sim, mas com generosidade

26/04/2014

os irmãos sisterSe escrevesse hoje, Jane Austen, autora de clássicos do romance inglês como “Orgulho e preconceito”, talvez fosse catalogada como uma autora cômica, isso se não fosse parar na prateleira de “romance romântico” ou, quem sabe, de chick lit. Esse é o argumento defendido pela escritora Elizabeth Edmondson em artigo publicado no “Guardian” (em inglês, aqui), sob o título “Ficção literária é só marketing esperto”, como parte de uma série dedicada a debater os chamados “gêneros literários”.

O argumento é instigante: Jane Austen não se via como autora de “ficção literária” (também chamada de “literatura séria”) pela simples razão de que tal rótulo não existia no século XIX. Sua criação, no século XX, foi uma forma até certo ponto artificial de diferenciar obras artisticamente ambiciosas, mais focadas no trabalho de linguagem do que na contação de histórias, da vasta produção de livros de ficção científica, literatura policial, fantasia, terror, humor, faroeste e outros gêneros de grande apelo comercial, mas considerados artisticamente “menores”.

Muito bem. Fora o fato de que rótulos são redutores por definição, haverá algo errado nessa classificação, de resto importante para as livrarias na hora de expor seus produtos? Se considerarmos que uma coisa é vender livros e outra bem diferente é lê-los, debatê-los, compreendê-los, premiá-los, ignorá-los, tentando separar o joio do trigo, eu acredito que sim. Compartilho em parte a irritação de Edmondson com uma série de cacoetes críticos que, sendo filhos já idosos do modernismo, passam até hoje por naturais em certos círculos.

Alguns deles: o uso irrefletido ou abertamente esnobe de categorias como high brow e middle brow; a identificação ingênua de prosa carrancuda ou arrevesada com prosa séria ou sofisticada; o preconceito contra a história, o enredo, como se a fabulação fosse incompatível com o tal “trabalho de linguagem”; a crença absurda de que basta ter poucos leitores para ser um escritor realmente desafiador e de que tê-los em grande número rebaixa qualquer um ao comercialismo. Cabe aqui um longo etc.

Talvez se possa dizer, com algum otimismo, que esse tipo de pensamento entrincheirado perde cada vez mais espaço no cenário cultural contemporâneo e que a multiplicação de pontos de vista trazida pelo ambiente digital logo assinará sua sentença de morte. Tenho minhas dúvidas. Um vício que resiste ao desmentido de séculos de história da literatura – dos teatros lotados que nunca deixaram de estar na mira de Shakespeare ao cintilante “trabalho de linguagem” de um autor assumidamente comercial como Elmore Leonard – não pode ser subestimado.

Prefiro ser menos ambicioso e me limitar a recomendar aos apreciadores de literatura – sem necessidade de adjetivo – um romance definitivamente “de gênero” que ajuda a avacalhar essas fronteiras: “Os irmãos Sister”, do canadense Patrick deWitt (Planeta, tradução de Marcelo Barbão, R$ 29,90), é um faroeste picaresco sobre dois irmãos matadores que, em meados do século XIX, em plena corrida do ouro, são enviados à Califórnia para assassinar um certo Hermann Kermit Warm, um químico – ou alquimista? – que descobriu a fórmula do enriquecimento fácil.

O encontro com o misterioso Warm vem apenas no último terço do romance. Antes disso os dois cruzam pelo caminho com toda sorte de gente. Na narração de sintaxe e vocabulário curiosamente cultos do mais novo e filosófico dos irmãos, Eli Sisters (sim, no plural mesmo, que a edição brasileira singularizou de modo incompreensível), alguns desses episódios, como o do homem que não consegue parar de chorar nem para explicar por que está chorando, têm uma surpreendente força alegórica. Engraçado, sombrio, violento, estranho, é impossível negar que o livro de deWitt, sem ser uma obra-prima, tem asas para fugir do curralzinho que em tese lhe caberia ocupar, usando os clichês do gênero para transcendê-lo.

Nada de novo nisso: guardadas as proporções vertiginosamente díspares, foi o que fez Cervantes com o romance de cavalaria. Como eu disse ali em cima, são séculos de literatura que recomendam um olhar menos estreito e mais generoso, para não dizer inteligente, sobre a questão dos gêneros. Mas é sempre bom lembrar outra vez.

7 Comments

  • Silvio 26/04/2014 at 09:57

    Sérgio, aproveitando que você mencionou a Jane Austen, no ótimo ‘A Abadia de Northanger’ tem vários trechos em que são discutidas questões como o gosto pessoal, os rótulos, o apelo comercial, quais leituras são relevantes ou banais, etc. Os diálogos são muito engraçados, um personagem chega a dizer: “Pelo amor de Deus, eu nunca leio romances! Tenho mais o que fazer.” E eu vejo um paralelo desse livro com o ‘Quixote’ (também mencionado por você). O que Cervantes fez com as histórias de cavalaria, Jane fez com as histórias góticas: escreveu uma obra que é uma curiosa mistura de sátira (superação) e homenagem (continuidade) a um certo gênero literário.

  • Noah 26/04/2014 at 12:12

    Sérgio,

    Vale lembrar do Valerio Evangelisti, autor de grandes livros de ficção de gênero e grande literatura subversiva.

  • Paulo Cesar 26/04/2014 at 12:37

    Ótimo texto, essas reduções também me incomodam bastante na crítica. Porém talvez todo esse medo do comercialismo não seja tão infundado. O cinema por exemplo tem sofrido bastante com isso. Os custos de produção e divulgação ficaram tão altos, que roteiros medíocres seguindo moldes já definidos como bem sucedidos financeiramente estão cada vez mais comuns, e abocanham cada vez mais espaço..

  • Eu odeio Game of Thrones 27/04/2014 at 19:55

    Borges já havia achincalhado os limites da assim chamada “literatura de gênero” muitos anos atrás. De resto, a boa literatura continua sendo aquela que foge a qualquer rótulo (sobretudo dos rótulos forçados pelos editores), como fez o próprio Borges ou todo o realismo mágico latino-americano. E os Tolkiens e Martins da vida, aliás, continuam uma merda, justamente por insistirem nos tais gêneros.

  • Claudio Faria 30/04/2014 at 09:10

    Sérgio, havia justamente acabado de ler um romance e não sabia o que ler em seguida. Aí li esse seu post e comecei a ler “Os Irmãos Sister”. Você definiu muito bem (como de praxe): rotulá-lo somente como faroeste sem detalhar suas peculiaridades seria um equívoco. A história é uma delícia, o personagem-narrador Eli é cativante em sua dubiedade e o livro fisga o leitor já nas primeiras páginas. E olha que por não apreciar o gênero eu ia passar batido por ele; mas graças à sua dica, estou me deleitando com um dos melhores livros que li nos últimos meses. Valeu mesmo, obrigado!

  • Pedro 01/05/2014 at 00:43

    Concordo! E acho que, de alguma forma, tudo isso tem a ver com: petralhas.

  • Alaer Garcia 02/05/2014 at 12:47

    A Neurociecia esta capengando mais ja da para linear ou escanear o cerebro das pessoas que vivem numa ficcao ou na vida. ´E interessante ver o filme ´( Words´ ( mal traduzido por Palavras roubadas´ ), da uma ideia do que seja uma coisa ou outra.

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