Genichiro Takahashi: ‘Sayonara, Gangsters’

16/09/2006

Até agora o único livro do japonês Genichiro Takahashi lançado nos Estados Unidos, e também o primeiro a chegar ao Brasil, “Sayonara, Gangsters” (Ediouro, tradução do japonês de Jefferson José Teixeira, 296 páginas, R$ 39,90) é um espanto. Engraçado e perturbador, satírico e ridículo, cínico e bobo, incongruente e brilhante, é tarefa inglória tentar encontrar referências que situem o trabalho de Takahashi, um ex-diretor de filmes pornográficos, em algum tipo de tradição literária ou mesmo antiliterária. O “Japan Times” bem que tentou, falando em “Pynchon com editor” e “Calvino como ele é”. O que talvez tenha sua graça, mas não soa muito condizente com uma história passada num futuro indeterminado em que as pessoas já não têm nomes propriamente ditos, o protagonista é conhecido como Sayonara, Gangsters (sim, o livro leva o nome dele), existe uma sala de aula com um deserto no meio e Virgílio, o poeta, é uma geladeira.

O “Japan Times” não teria como saber disso, mas, aqui do meu canto, o escritor mais aparentado com Takahashi em que consigo pensar é o José Agrippino de Paula de “PanAmérica”: cada um a seu modo, os dois refratam a cultura pop num prisma de loucura. O trecho abaixo dá uma idéia do grau de piração do livro, que foi lançado no Japão em 1982 e chega ao Brasil com a mesma capa e a mesma recomendação de Jonathan Safran Foer, autor de “Tudo se ilumina”, que ajudaram a vendê-lo no careta mercado americano: “Com certeza é um livro engraçado. E belo. E um pouco maluco também. E assustador. E de partir o coração”. É por aí. Se você não gosta de literatura que anarquize sua cabeça, não passe nem perto de “Sayonara, Gangsters”.

Eu e esse cara estávamos de pé no meio do corredor da escola.

De pé diante de mim, o professor de história perguntou:

— Diga-me, garoto, você realmente tem certeza de que o descobridor da América em 1492 foi Babe Ruth?

— Não — eu respondi. — Desculpe meu erro, mestre. Foi Marlon Brando.

— Permaneça de pé por mais uma hora — o professor ordenou.

O professor de história parou diante desse cara.

— Você realmente acha que o livro que a rainha Elizabeth I pediu a Shakespeare para escrever em 1598 era Emmanuelle? — ele indagou.

— Hum — esse cara gemeu e, de braços cruzados por algum tempo, permaneceu pensativo. Então esse cara inesperadamente abriu um pequeno sorriso, indo sussurrar algo ao pé do ouvido do professor.

— Permaneça aí até amanhã de manhã — o professor ordenou.

Esse cara despendeu de pé, no corredor da escola, alguns anos valiosos daquele período difícil da vida.

À semelhança de um judeu que finalmente chega à Terra Prometida, nem um pé-de-cabra o tiraria de sua posição no corredor.

Mesmo no dia de minha formatura, esse cara continuava de pé no corredor, dirigindo-se de modo divertido aos professores e alunos que passavam diante dele: — Vejam, eu sou um corredor.

— Adeus — eu disse ao me despedir dele.

Sofri ao me formar por ter que deixar esse cara para trás, sozinho no corredor.

— Não esquenta com isso — esse cara me disse. — Descobri que sou um corredor. Saiba que ser um corredor é algo muito positivo. Ei, escuta… tem uma coisa que eu, na qualidade de corredor, gostaria de lhe dizer. Você leva jeito para poeta. Estou certo disso num sentido bem “corredorístico”, você sabe.

Eu concentrava toda a força de meu corpo nos olhos, a contemplar esse cara.

Naquele momento já era praticamente impossível distingui-lo do corredor e, por isso, bastaria relaxar um pouco os sentidos para não poder mais perceber a diferença entre os dois.

— Você acha que eu tenho tino para poesia?

Esse cara emitiu um guincho.

— Existem muitos tipos de corredor! — ele gritou.

Ele parecia já não entender mais o que eu falava.

— A maioria dos corredores é reta, mas ao virarem, sempre o fazem em ângulos retos.

O corredor emitia guinchos quando era pisado.

— Andar pelo corredor de ponta-cabeça: a isso se denomina teto. Por isso, o teto é também um corredor. Se andarmos pelo teto, certamente ele emitirá guinchos.

Eu disse “adeus” ao corredor que não parava de guinchar.

Dessa forma tomei conhecimento de que eu era poeta.

10 Comments

  • lao 16/09/2006 at 08:52

    Estranho e curioso.
    Veio-me a mente o Monty Python e o Catatau do Leminski. É o efeito do sakê.
    abrs,

  • Saint-Clair Stockler 16/09/2006 at 10:53

    Em geral, gosto muito de literatura japonesa (tudo que está fora do Cânone me interessa). Desde coisas mais “tradicionais” como o querido Yasunari Kawabata (atenção: “tradicional” não quer dizer pior, pelo contrário) até o ocidentalizado (o adjetivo, usado um tanto desdenhosamente, é dado pelos próprios críticos japoneses) Haruki Murakami. Mas esse escritor aí eu ainda não conhecia. Achei bastante interessante o fragmento. Me lembrou o Roberto Bolãno, já falado por aqui.

  • Fabio Negro 18/09/2006 at 00:52

    Esse é o vencedor absoluto do tradicional prêmio CAPA DE LIVRO MAIS FEIA DO ANO.

    Inpirada na cultura pop japonesa, mas MUITO mal inspirada.

  • Lucio 18/09/2006 at 02:07

    O unico japones que lí até hoje foi Confissões de uma Máscara (Yukio Mishima,1925/1970). Muito bom. Denso, meio autobiográfico.
    A “palhinha” me deixou curioso. Textos assim amalucados ou extravagantes fazem bem ao humor. Vou conferir.

  • Palhares 18/09/2006 at 09:48

    Cara***, seu Fabio. Você tá falando mal dessa capa do Chip Kidd, mesmo????? Meu deus, acho que vivemos em mundos diferentes. Como tem retardado na web.

  • Malu 18/09/2006 at 18:07

    Ótima dica, Sérgio. Veleu!

  • joao gomes 19/09/2006 at 12:26

    nem todo brilhante é ouro.

  • Fabio Negro 19/09/2006 at 21:16

    Cara***, Palhares, só porque um cara criou fama que eu vou assinar em baixo dos cocôs que ele faz profissionalmente.

    PArece minha mãe tentando me convencer a comer jiló porquê “não tem agrotóxicos”.

    FOD*M-SE os agrotóxicos e PAU-NO-** do Chipp Kidd.

  • Palhares 21/09/2006 at 07:46

    Bem, como sempre, digo aos caros leitores deste blog: leiam o livro, e parem de comentar coisas sobre as quais apenas leram repostagens ou críticas. Se você, Fabio, tem algum trauma de infância com nabos, a culpa não é da pobre literratura.

  • Fabio Negro 21/09/2006 at 08:14

    Como você “sempre diz”, então tá dizido, né não, guruzão?
    Parabéns pra você, viu?

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