Geração 90 na revista ‘Grandpa’: anatomia de uma tragédia

18/04/2012

Em retrospecto, pode-se afirmar que as sementes da calamidade foram lançadas quando correu a notícia de que a revista Grandpa dedicaria uma edição inteira aos escritores brasileiros com mais de noventa anos.

A princípio não seria possível distinguir agitação alguma na superfície do lago estético que a imprensa, dividida, ora chamava de “melhor literariedade”, ora de “verdadeira geração noventa”. Os principais nomes do movimento souberam disfarçar o nervosismo diante de seus tabuleiros de damas na pracinha, ajudados pelo fato de que o tremor nas mãos não era exatamente uma novidade. Dentaduras duplas camuflavam os dentes afiados metafóricos. Bengalas e andadores escondiam tacapes e estiletes, e fraldões geriátricos, a disposição generalizada de cobrir de barro a reputação dos colegas.

Se algum prenúncio de confusão houve, naquele primeiro momento, ele não partiu dos escritores com mais de noventa anos e sim dos que, aos oitenta e tantos, julgaram-se injustiçados. Um manifesto contra a “ditadura dos anciãos” chegou a reunir centenas de assinaturas. Os insatisfeitos não estavam desprovidos de razão. Meia dúzia de primaveras a menos não escondiam o fato de que as obras de alguns deles tinham as mesmas características – temática ultrapassada, imagística vintage, sintaxe détraqué – que Giorgio Agamben havia transformado em dernier cri crítico em sua radical ampliação do conceito de “estilo tardio”, lançado por Edward Saïd, como único estilo digno deste nome.

Como se sabe, não foram os oitentões inconformados com os critérios da Grandpa os vilões da história. O grupo que concebeu e executou o plano de tomar de assalto o Teatro Municipal e boicotar a cerimônia de lançamento da revista era composto exclusivamente de escritores nonagenários, isto é, aqueles que, embora elegíveis, não foram eleitos pelos editores estrangeiros.

Os líderes do movimento rebelde alegaram depois que as intenções do protesto eram pacíficas, baseadas em apupos, cornetas e a farta distribuição, em pontos estratégicos da plateia, de exemplares daquele barbantinho fedorento conhecido como “peidinho-alemão”. Não se sabe quem disparou a garrucha da Guerra do Paraguai que deflagrou o pânico e a correria, e que a polícia encontrou mais tarde entre pilhas de cadáveres pisoteados, aparelhos contra surdez e os malditos exemplares da Grandpa que provocaram tudo isso, apressando ironicamente a morte de grande parte dos artistas que buscavam imortalizar.

7 Comments

  • Kylderi 18/04/2012 at 13:53

    Sérgio, que conto maldosamente bom de ler! Queremos mais!

    PS: Os centenários Nelson Rodrigues, Jorge Amado e Lúcio Cardoso estão na risada. Estou com o “Olha para o céu, Frederico”, de José CÂndido de Carvalho, e na contracapa há recomendações de Jorge e Lúcio.

  • Thiago Maia 18/04/2012 at 22:34

    “Peidinho” porque o conto é muriaeense. Em Varginha é peido-alemão mesmo, ou pelo menos era nos 80s iniciais. Varginha sempre será uma cidade de orgulho ; )

  • Saraiva 19/04/2012 at 09:01

    Ô, Sergio, os únicos nomes que você cita são os de acadêmicos, enquanto aqueles que realmente importariam você omite? Eles não são conhecidos de todos. Que jornalismo é esse, meu caro? Nomes, por favor, e nada de querer ficar de bem com a torcida do Flamengo e do Fluminense ao mesmo tempo. Cadê o compromisso com a verdade? Nomes! Nomes! Nomes! [Brindaceira à sério…] Abs

  • shirlei horta 19/04/2012 at 17:56

    Uau! Um pontapé de potência virtual num monte de “contistas” de hoje em dia…

  • Sérgio Rodrigues 19/04/2012 at 18:08

    Obrigado, Shirlei e Kylderi. Ano passado os Sobrescritos apareceram aqui duas vezes por mês, em média. A marca vem se mantendo em 2012. Ou seja, apareçam sempre.

    Saraiva, meu caro, o compromisso com a verdade ficcional fala mais alto, mas preencha com os nomes dos matusaléns que você quiser. Tem muitos desafetos nessa faixa etária? (hehe)

    Thiago, é possível que o diminutivo seja mesmo muriaense, porque a infância sempre fala alto nessas horas. Mas convenhamos que é mais engraçado também.

    Abraços a todos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial