Goleada

04/04/2009

Que goleada, não? O vexame magnífico que a Bolívia impôs à Argentina no 6 x 1 de quarta-feira merece, claro, a eloqüência desse brasileirismo que ganhou seu primeiro registro em 1958 no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, de Antônio Soares Amora. Mas nem sempre a justeza da palavra é tão evidente. No mesmo dia o Brasil derrotou o Peru por 3 x 0. Goleada? A julgar pelo que disse a certa altura da transmissão da partida o repórter Mauro Naves, da TV Globo, sim. De acordo com a sabedoria não escrita dos torcedores, não.

Derivada de gol – que importamos do inglês goal, “meta” –, a goleada nunca teve definição numericamente precisa nos dicionários. É apresentada como “vitória por ampla diferença de gols” (Houaiss), “grande quantidade de gols marcados por uma equipe numa só partida, contra nenhum ou poucos gols da equipe adversária” (Michaelis) ou “vitória por larga margem de gois (sic) ou tentos; enfiada” (Aurélio).

Historicamente, como sabe qualquer freqüentador de arquibancada, o piso da goleada sempre foi o 4 x 1 – três gols de diferença, mas quatro marcados. Ou seja: 3 x 0 e 4 x 2 não servem. No entanto, a freqüência com que o placar do último Brasil x Peru tem merecido da imprensa esportiva o nome de goleada parece indicar que algo está mudando na semântica da palavra. Talvez seja inevitável que isso ocorra numa época de maiores preocupações defensivas e baixa média de gols, em que os 10 x 3 que eram relativamente comuns nos tempos românticos do futebol estão extintos.

Em tempo: melhor esquecer aquele “gois”, estranho plural de gol recomendado pelo Aurélio. De fato, pelas regras do português, “gols” é uma anomalia – a única palavra terminada em ol que é flexionada desse jeito. Mas trata-se de uma forma tão consagrada que qualquer tentativa de corrigi-la é puro pedantismo.

Publicado na “Revista da Semana”.

4 Comments

  • Antonio Neto 04/04/2009 at 13:16

    Que a goleada se caracteriza pela quantidade de gols, isso é fato.
    Mas também traz um outro fato decisivo para ser considerada de fato: a punjaça do espetáculo oferecido diante do adversário. Havendo este fato e as inúmeras oportunidades desperdiçadas no jogo posso considerar os 3×0 como goleada. Longe de ocorrer punjança, espetáculo – pelo contário – no jogo em questão, não posso dar crédito em comentários, que não sejam realistas, vindo de quem tem o direito de levar o “espetáculo” ao público. Aí vale tudo: espetáculo sofrível e rísivel ser “espetáculo, e quem sabe algumas distribuições de entradas ao espetáculo serem bem-vindas para o espetáculo ser tornar espetáculo diante, principalmente, daquele que estão em frente a telinha.

  • Aníbal 04/04/2009 at 13:52

    Goleada só aparti de 4 gois de diferença, dixer que 3×0 é goleada, mal colocado, 4×1, 4×2,5×3, 6×4 são goleadas, a diferença de dois gois quando o adversario que saiu vitorioso fez 4 ou mais caracteriza-se a goleada

  • OBSERVADOR 04/04/2009 at 13:59

    GOLEADA SÓ SE CARACTERIZADA APÓS UM PLACAR DE 4 x 0 E OU 4 X 1. DERREPENTE PELO PÉSSIMO FUTEBOL QUE SE ESTÁ PRATICANDO ATUALMENTE O PLACAR DE: 3 x 0, JÁ SEJA CONSIDERADO UMA GOLEADA. DO JEITO QUE VAI O FUTEBOL HOJE EM DIA, TALVEZ O 2 x 0 PODE CARACTERIZAR-SE COMO GOLEADA.

  • João André Stravato 04/04/2009 at 15:41

    isso depende muito tbm, das equipes em questao,
    bolivia x argentina msm, 1 a 0 ja eh goleada
    =)

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