Google e o Cérebro

25/01/2013

httpv://www.youtube.com/watch?v=1vxIveocxjM

Hoje o Pop de Sexta abre mão da leveza para falar de um documentário sério que estreou esta semana no Festival de Sundance e vem ganhando críticas positivas. Google and the World Brain, de Ben Lewis, narra com uma multiplicidade de pontos de vista a complicada história do projeto de escanear todos os livros do mundo, lançado pelo Google em 2002, e da resistência que ele vem enfrentando.

O trailer acima começa com H.G. Wells discursando para a câmera: “Não há hoje nenhum obstáculo prático de qualquer tipo à criação de um índice oficial de todo o conhecimento, ideias e realizações humanas, ou seja, à criação de uma memória completa e planetária para toda a humanidade”. No caso, hoje era 1937, quando o famoso escritor inglês de ficção científica lançou seu ensaio World brain, que explica o título do documentário.

Wells acertou quanto à ausência de obstáculos tecnológicos, mas o fato é que eles se multiplicam no campo jurídico – para não mencionar o ideológico. O historiador Robert Darnton, nome de maior peso intelectual na frente de oposição à ambição do Google, aparece no documentário dizendo mais ou menos o que disse em Paraty na Flip 2010:

“Estão criando o maior monopólio já visto, um monopólio de informação. Não acho correto comercializar uma biblioteca que foi formada ao longo de séculos e deixar isso na mão de uma empresa que precisa gerar lucro para seus acionistas. A República das Letras, com seu acesso universal ao conhecimento, ideal do seculo 18, tem uma chance de ser tornada real no século 21, mas precisamos encontrar modelos que façam isso levando em conta o interesse público, não o privado.”

Se o argumento de Darnton lhe parece no mínimo sólido, dê uma espiada nos comentários postados no YouTube sob a postagem do vídeo acima: todos acham um tremendo absurdo ir contra o Google. Dá medo.

10 Comments

  • Rafael 25/01/2013 at 13:25

    Sérgio,
    O assunto é, ao mesmo tempo, interessante e pertinente.
    Tenho uma opinião radical, que irá desagradar a muitos. Ei-la: o direito autoral deveria ser simplesmente abolido ou, ao menos, drasticamente enxugado (cinco anos de privilégio para o autor). Ao autor a lei deveria proporcionar apenas a proteção ao nome, o direito de reclamar a autoria do texto que produziu, sem lhe dar monopólio pela exploração comercial do livro. Também deveria ser assegurado ao autor o direito à integridade do texto, que não poderia ser adulterado sem sua permissão. E ponto final.
    Muitos dirão que, sendo as coisas assim, ninguém iria se dar ao trabalho de escrever livros, a literatura acabaria, pela falta de incentivo. Não penso assim, porque sei que a vaidade humana é combustível suficiente para manter acessa a chama literária. Aqueles que alcançarem a fama acharão meios de ganhar com isso (palestras, por exemplo).
    Uma vez extinto o direito autoral, o risco de monopólio do conhecimento reduzirá enormente: outros terão a liberdade para digitalizar e disponibilizar livros no ambiente virtual, sem que o Google ou qualquer um possa oferecer resistência.
    Vale

  • Edson Moraes 25/01/2013 at 16:10

    Ora, a solução para esse problema é tão simples: basta criar um tributo substancial sobre o armazenamento de dados dos sites de busca. Os tributos deveriam, no mundo ideal, representar distribuição de renda. Por outro lado, criar leis que obriguem essas empresas de tecnologia, que auferem lucros astronômicos a distribuir substanciais parcelas de seu lucro entre todos os seus empregados. Não se deve desestimular o empreendedor, deixa ele criar e enriquecer à vontade. Normalmente, os mega empresários já distribuem suas riquezas, embora talvez visando imagem e desconto em suas contribuições tributárias. Se o google é competente e por isso é acessado, aplique-se a legislação contra monopólios, cartel, anti trust etc.

  • Mauricio 25/01/2013 at 16:52

    Rafael, seu ponto de vista radical é meio louco.
    Senão vejamos; eu escrevo e tenho livros publicados. Cada parágrafo, cada linha de minhas obras são como filhos. Filhos amados que me custaram dor e prazer ao serem criados.
    Você com sua ideia de limitar a cinco anos o direito do autor sobre sua obra é absurdo. É como se alguém decidisse por decreto que a a partir dos cinco anos de idade, meus filhos já não são meus e sim do mundo. Que eu perdi o direito de criá-los, de educá-los.
    Veja bem, não é uma questão financeira, mas de ordem emocional também. Nós autores somo muito apegados a nossas obras, como pais zelosos. Faz parte.
    Já quanto ao índice proposto, já ia falar besteira e defender o Google. Só o faria se a empresa abrisse mão dos direitos sobre ele e o tornasse uma obra universal de consulta, como o a Wiki. De outra forma é uma tentativa insidiosa de monopólio que pode levar a humanidade a outra idade média. Época em que o conhecimento humano pertencia aos frades de determinadas ordens de copistas e a mais ninguém.

  • Microempresário 25/01/2013 at 17:06

    Mas afinal, o Google vai ficar sendo dono das obras? Vejo um possível prejuízo para autores e editores, mas não vejo qual o “poder” que o Google vai ganhar com isso.

    Quanto a direito autoral, minha idéia vai na mesma linha do Rafael: num mundo em que todo mundo escreve sobre tudo (e provavelmente sequer lembra o que escreveu no dia seguinte), o direito autoral da forma como existe hoje é obsoleto.

    Mas há que distinguir literatura de conhecimento. A primeira é um processo criativo, teoricamente pessoal e inesgotável, e com um custo de produção que não é mensurável. Já o conhecimento, no sentido de pesquisa científica, envolve custos reais e não deve ser excludente. Já pensou se Pitágoras tivesse patenteado o triângulo?

  • Anna C. 25/01/2013 at 18:44

    Eu apoio sim construção de um acervo mundial de todos os livros. Porque é justamente isso: um cervo. A Google não está impedindo o cesso aos livros, ela está o facilitando. Se você não consegue ver isso…

    Aparentemente a pessoa que escreveu essa matéria parece igualmente concordar com a distorção dos ideais da Google. “Conspiradores fantasiosos” é o nome que se dá esse tipo de pessoas.

    A Google é uma empresa que colabora para o crescimento e integração do que temos hoje como ‘internet’. Ah, se você provavelmente também pens como esse caras você deve estar pensando que devo ser outra mente alienada, porém, olhe para as realizações que a Google já fez até hoje. Se você se iludi com o argumento de só porque a Google é rica e grande de mais el oferece risco a “humanidade” olhe para muitas empresas que ganham seu dinheiro desonestamente e saem impune e são pequenas justamente pra não chamar a atenção.

  • ricardo 26/01/2013 at 15:27

    Ao final do texto de Sérgio, logo me veio à mente o 1984 de Orwell. A empreitada megalomaníaca e sôfrega do Google parece algo inspirado pelo Grande Irmão. O problema de um projeto como esse não é executá-lo, e, sim, como executá-lo. Na medida em que o Google toma para si toda a responsabilidade e arca com todos os custos desse hiper-escaneamento, a empresa vai se achar no direito de fazer o que bem entender com o resultado desse esforço. Ao ponto de acontecer situações absurdas como, por exemplo, o próprio autor de um livro ter problemas para comercializá-lo ou até mesmo distribui-lo gratuitamente on line devido a impedimentos legais a favor do Google, num mundo onde cada vez mais as pessoas leem por meio de gadgets. Empreitadas totalizantes e unilaterais como essa nunca cheiram bem. Acabam se tornando instrumento para práticas anti-democráticas e abusivas.

  • Eduardo Uchoa 26/01/2013 at 15:41

    Desde que os copyrights sejam respeitados ter um índice universal de livros é ótimo para os autores. Alguma grande empresa ou governo teme um monopólio? Faça o seu próprio índice, os livros vão continuar nas bibliotecas. Só a google é competente o suficiente pra isso? Não creio.

  • Rafael 26/01/2013 at 16:36

    Maurício,
    Você compara os livros a filhos e sugere que a abolição do direito autoral seria o equivalente à supressão do pátrio poder.
    Por mais que eu compreenda que o processo de criação possa ser, por analogia grosseira, assimilado ao parto, não consigo ver no afeto que o escritor alimenta por suas obras algo que o assemelhe ao amor aos filhos.
    Na minha proposta, disse que a lei deveria proteger o direito à titularidade da obra (ninguém poderia se apropriar da criação alheia) e resguardar o criador contra as adulterações introduzidas no texto sem sua autorização (o plágio não seria permitido). Só não vejo por que a lei deva dar ao autor o direito de proibir outros de publicar a obra e o direito de exigir a contrapartida financeira, os royalties.
    Idéias têm paternidade; porém não têm donos. “To be or not to be” e “E agora, José?” tiveram seus genitores, mas, uma vez divulgadas, se tornam parte do patrimônio cultural da humanidade, deixando de pertencer ao cabedal particular de Shakespeare e Drummond.
    A analogia com os filhos é imprópria: não me imagino sofrendo porque alguém publicou uma história que escrevi, mas recompensado por esse sinal de que minhas idéias se mostraram preciosas a ponto de interessarem outros.
    Vale

  • ramflabr 27/01/2013 at 05:31

    POis e. Devido ao scan da Google, muitas bibliotecas perderam o custeio. E quando a informacao dos livros ficar so na mao da Google? Sera que isto e bom para o mundo?

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