Greve de fome

14/12/2007

A palavra “greve”, aquilo que o bispo Luiz Flávio Cappio voltou a fazer, vem – como tantas inconveniências, diria um ultraconservador – do francês. Sua história começa no século 12 com o vocábulo grève, “praia, terreno de areia ou cascalho à beira-mar ou beira-rio”. Antes de adquirir seu sentido político, a palavra passou a batizar uma praça de Paris, à beira do Sena, que por ter piso arenoso e sem calçamento era chamada de Place de Grève (hoje Place de l’Hôtel-de-Ville).

Segundo o Houaiss, o local era “ponto de reunião de trabalhadores e operários sem emprego ou descontentes com as suas condições de trabalho; daí a expressão faire grève (1805)” – isto é, “fazer greve”, já então com o sentido de interromper coletivamente o trabalho como forma de protesto ou reivindicação, que mais tarde seria ampliado para outras modalidades de recusa, entre elas a greve de fome. E por que os trabalhadores se reuniam naquela praça? Explica Márcio Bueno, autor do bom livrinho “A origem curiosa das palavras” (José Olympio): “Nesse local funcionou durante muito tempo a Bolsa do Trabalho, órgão encarregado de cadastrar desempregados”.

O primeiro registro de “greve” em português é de 1873, mas até as primeiras décadas do século 20 o galicismo (termo oriundo do francês) era bombardeado pelos puristas, que insistiam no uso de “parede” em seu lugar. Hoje ninguém questiona a palavra, mas certos patrulheiros do idioma, sucessores espirituais dos puristas, já ensaiam submeter a expressão “greve de fome” à mesma campanha pela qual passou “risco de vida”. Fórmula consagrada e perfeita (risco de vida = risco para a vida), essa expressão foi tão atacada por professores de mente literal que boa parte dos jornais e revistas a substituiu por “risco de morte”. Ora, a greve de dom Cappio é de fome ou de comida? Aguardem a próxima ação da patrulha.

Texto publicado na “Revista da Semana”.

23 Comments

  • luiz Mozzambani NEto 16/12/2007 at 09:31

    Mesmo correndo “risco de vida” eu lembro aos puritanos que , o jeito “certo” de falar o português vem do jeito “errado” de falar o latim!

  • Pablo 16/12/2007 at 14:07

    Cada vez que você nos brinda com um tópico de “A palavra é…”, dá uma saudade da antiga coluna!

    Abraço,

    Pablo.
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  • Paulo (Outro Paulo) 16/12/2007 at 18:23

    A greve de Dom Cappio não é nem de fome nem de comida, é de inteligência. Não sabendo ater-se ao seu ofício, que é o de cooperar na salvação das almas, e resolvendo abraçar a causa errada, o sacerdote está em plena greve pela burrice.

  • Pablo 16/12/2007 at 18:59

    Vou ter de assinar embaixo do que você disse, Outro Paulo. Quando, pela primeira vez, aparece a intenção de salvar o semi-árido nordestino, vem um ignorante desse atrapalhar. Que absurdo!
    Pablo.
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  • Ana Pulg 17/12/2007 at 01:30

    Dom Cappio transpôs o limiar da defesa de sua vida, pela defesa do bioma.

    A transposição das águas do Velho Chico não vai resolver os problemas de abastecimento para consumo, irrigação, indústria e energia do semi-árido. Desde os tempos de D.Pedro II, pensa-se nisso. Essa solução é política. As Universidades e os técnicos apresentam soluções, que não dependam de rios intermitentes, da baixa vazão do Rio São Francisco, nem do alto consumo de energia para bombear os 160 metros de água, nem da sazonalidade das secas coincidentes( época de seca na bacia coincide com a caatinga e cerrado). E mais um montão de fatores.

    Há muito pouco esclarecimento sobre esta questão. Daí a importância da atitude de Dom Cappio, do Ministério Público e de mais alguns ambientalistas defensores da Vida do Velho Chico.

    O que os políticos tem que fazer é estudar.

  • Pablo 17/12/2007 at 13:46

    O que Dom Zé-Ninguém tem de fazer é estudar. É ele quem não sabe que apenas uma parte ínfima da vazão do São Francisco será desviada, menos do que a quantidade de água que o rio perde com a evaporação. Ele não sabe, ele não estudou.
    Onde está a parte suja da coisa? Pessoas ganharão muito dinheiro com isso, a obra será superfaturada, a corrupção rolará solta. Até aí, onde está a novidade? Desde o Descobrimento já era assim. Se resolver o problema do Nordeste, é isso o que importa. Corrupção resolve-se por outros meios.

    Pablo.
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  • Nilton 17/12/2007 at 14:13

    Uma curiosidade: foi na Place de Grève que ocorreu a primeira execução com guilhotina, em 1792.

  • Paulo (Outro Paulo) 17/12/2007 at 20:11

    A grande sorte dos israelenses é não dar ouvidos a idiotas como esse D Cappio. Puderam assim transformar aquela merda de deserto num lugarzinho razoável, desviando rios, escavando poços e tudo mais. Mas como sempre, no Brasil, a gente vai dar ouvidos a essa lesma imbecil que se coloca contra um projeto absolutamente monumental em prol dos nordestinos de todas as classes.

  • Daniel Brazil 17/12/2007 at 23:09

    O problema, Outro Paulo, é que os israelenses, sabendo dos efeitos da evaporação, construíram tubulações para levar água a lugares distantes. Os brasileiros “espertos” parecem ignorar a natureza, pois menos de 50% da água canalizada a céu aberto chegará ao seu destino. Um desperdício, pago pelos cofres públicos. Se vai favorecer o agronegócio, por que não fazer com que os usineiros banquem parte da obra? Tá mal contada a história!

  • Pablo 17/12/2007 at 23:54

    Esses dados não são reais, Daniel. Ainda que fosse um fracasso, seria ao menos uma tentativa, coisa que nunca aconteceu no Nordeste.
    Pablo.
    http://cadeorevisor.wordpress.com

  • anrafel 18/12/2007 at 01:21

    Oscar Wilde, se estivesse nas proximidades, diria: “Uma causa não é obrigatoriamente certa pelo fato de alguém ter morrido por ela”.

    A greve de fome do padre, entre outras inconveniências, banha de sentimentalismo a questão. E tome-lhe lembranças de Padre Cícero, Antonio Conselheiro e outros. É a Igreja Católica incentivando as absurdas comparações históricas e a demagogia.

    Pode um sacerdote católico confrontar dessa maneira um ato do estado brasileiro de maneira a causar problemas na relação entre este o e Vaticano?

  • Paulo (Outro Paulo) 18/12/2007 at 12:39

    Quer dizer então, Daniel Brazil, que você sabe do “problema da evaporação” mas os engenheiros a quem se cometerão as obras de um projeto monumental como este ainda não sabem? Daniel, você deve ser mesmo muito inteligente, muito sagaz. E me diga uma coisa: além dos tributos pagos por aqueles pérfidos donos de “agronegócios” (que somam a 40% do PIB) quanto mais de grana você acha que eles devem colocar num projeto específico de infra-estrutura que a Constituição da República manda seja financiada com dinheiro dos — veja só! — tributos? Por acaso você pagou a asfaltagem da rua onde você mora, exceto por contribuição de melhoria? Por acaso você pagou a iluminação da rua onde você mora, exceto por Cosit? Por acaso você pagou o lixeiro, o bombeiro, o policiamento ostensivo, o serviço de cartório, exceto por imposto de renda? Por acaso você pagou o seu passaporte, exceto por taxa? Daniel, eu sei muito bem onde você vai buscar as suas “dúvidas” a respeito do projeto do Rio São Francisco. É no lugar onde vivem as piores e mais maldosas mentes que o país produz contra sua própria saúde. Mas virá o tempo em que vamos conseguir expulsá-los, a ponta-pés, e desobstaculizar finalmente o desenvolvimento do nordeste e melhorar um pouqinho a vida daquela gente fudida e mal paga.

  • Daniel Brazil 18/12/2007 at 15:51

    Claro que não são dados reais, Pablo. A obra ainda não existe. São projeções teóricas, feitas por técnicos e ambientalistas. Posso te passar o endereço de alguns, se interessar.

    Outro Paulo, você parece meio alterado. Tem algum interesse direto no assunto? Eu não tenho nenhum, não sou da área, mas tenho lido textos pró e contra em vários veículos. Prefiro argumentos das piores e maldosas mentes científicas, que das melhores e bondosas mentes políticas, meu caro.

    Desculpe fugir do tema, Sérgio!

  • Paulo (Outro Paulo) 18/12/2007 at 22:04

    Não estou alterado, estou decepcionado com gente como você. Porque discutir um assunto desse é salutar, mas que não haja um consenso quanto à absoluta necessidade de se realizar o projeto, isso é algo que me deixa profundamente triste. Não tenho interesse direto, meu interesse é ver aquela merda nordestina andar finalmente.

  • Daniel Brazil 18/12/2007 at 23:08

    Se você quer consenso, não quer discussão. Com tem muita gente séria que acha esta obra uma loucura faraônica, e que propôem, baseados em estudos oficiais, soluções mais viáveis, racionais e democráticas, deveriam ser escutados.
    Curiosamente, o governo federal não realizou audiências públicas nos estados “doadores” de água (MG, BA, AL e SE), somente nos “receptores” (CE, RN, PB, PE). Não te parece que houve aí uma manipulação da informação?

  • Sérgio Rodrigues 19/12/2007 at 00:55

    Caros Daniel e Paulo, acho impressionante como esse Fla x Flu específico, o do velho e mitológico Chico, mexe lá no Brasil profundo; daí, acredito, essa radicalização. Confesso que não entendo lhufas de projetos de irrigação, muito menos os do tipo mastodôntico. Sei que a discussão é pouca, seja ela técnica, política, econômica, ecológica, humana, a discussão na imprensa é miserável. Mas acho, aliás tenho certeza, que greve de fome de bispo é golpe baixo. Não precisa disso. Por outro lado, sem isso, estaríamos aqui discutindo o assunto?

  • Daniel Brazil 19/12/2007 at 14:41

    Esse é o ponto, Sérgio. A miséria que cerca um debate como esse daz com que um ato irresponsável como o do bispo, que tenta chantagear um governo legítimo, levante uma questão onde os dois lados omitem dados e manipulam informações.
    E, apesar de tudo, consegue trazer a discussão até para o Todoprosa…

  • Daniel Brazil 19/12/2007 at 14:43

    faz, não daz!

  • Chico 19/12/2007 at 15:49

    Que a acao do padre tenha banhado de sentimentalismo uma decisao politica, nao tenho duvidas. Afirmacao, apesar de retorica, eh bem colocada.

    Entretanto, estamos falando de um pais com a extensao do Brasil, onde comunidades inteiras vivem absolutamente isoladas. Centenas de cidades, milhares de familias, serao desalojadas sem plano de assentamento concreto – isso, o que os jornais noticiam.

    Portanto, nao me antecipo em condenar uma atitude dessas, pois so assim atentei para o fato, e refleti sobre como deve ser uma merda ser desalojado de minha casa para que aqui passe um canal cheio d’agua que ira abastecer a fazenda do cara que me contrata nos periodos sazonais. Ai, eu recolho as mangas para exporta-las para um lugar que nem sei o nome. Passa esse periodo e eu volto para a minha casa. Um burocrata me diz que eu tenho que sair pelo bem do Nordeste e do pais. Eu acho isso retorica – mas eu nao sei bem o que essa palavra significa pois eu sou um merda – , mas como eh para cobrir a balanca de pagamentos e o rombo da divida publica que cresce em virtude de juros altissimos, eu decido sair. Afinal de contas, eu sou um merda e posso bem me arranjar com minha merda de mulher e minha merda de familia num buraco qualquer, pra nao atrapalhar o progresso do Nordeste e do pais.

    Alguem citou o Euclides aqui. Foi bom ter lembrado. Eu fiquei pensado que 110 anos depois a gente ainda tem muito que aprender sobre como funciona uma Republica, os estamentos burocraticos do Estado, a cabeca do povo brasileiro e a logica do homem cordial que envolve tudo que esta azedado em papel celofane pra ser vendido mesmo fora do prazo de validade.

    [ironia on] nem ia participar dessa discussao, mas para mim o melhor comentario foi:

    “meu interesse é ver aquela merda nordestina andar finalmente.” [ironia off]

  • Saint-Clair Stockler 19/12/2007 at 22:14

    Enquanto o Bispo Faquir fica lá fazendo sua greve de fome (sim, ele parece que desistiu, me informa a Fátima Bernardes), seus fiéis morrem de fome (espiritual). A função do Bispo é cuidar das questões ESPIRITUAIS do seu rebanho, não das temporais. Pra essas, existem pessoas muito mais competentes do que ele (que já provou ser, por duas vezes, uma mula. Ou um camelo, em face dos acontecimentos).

    Imaginem se os lixeiros que limpam a minha rua fizessem greve de fome porque o Velho Chico vai ser transposto! Cagava tudo! Imaginem se o meu carteiro fizesse greve de fome porque acabou a CPMF! Eu ia receber as minhas encomendas só em 2009. Que cada um faça o que é sua função. Se o Bispo Faquir quer reclamar da transposição, que deixe de ser Bispo e entre pra WWF ou pro Greenpeace!

  • Saint-Clair Stockler 19/12/2007 at 22:16

    Odeio ficar citando, mas…

    Como bem disse Jesus: ninguém pode servir a dois senhores. Ou bem se serve a Jeová, ou bem se serve à Política. Tentar servir a dois senhores nunca deu certo em lugar nenhum do mundo.

  • Ana Pulg 21/12/2007 at 00:54

    Caro Saint-Clair Stockler, não dá para misturar as coisas. O carteiro, o gari e o padre não deixam de ser cidadãos.

    Se tal cidadão tem coragem de lutar pelo bem maior que é a vida, melhor.

    Sem água não há vida. E, o Velho Chico é só água.

  • Elaine 23/12/2007 at 20:33

    Como jornalista, se tem uma coisa em que eu não acredito é no tal do engenheiro técnico de obras públicas! Vide tantas obras, que depois de começadas recebem ágios de 40%, 50% porque “a estrutura estava mais abalada do que o pensado”, ou porque “o custo foi sub-estipulado”.
    Agora que estamos colhendo os frutos de séculos de poluição desregrada, eu tenho sim muito medo do que esses gárgulas possam fazer ao Rio São Francisco. Quem me garante que essa transposição – mal-feita como tantas outras obras públicas – não vai acabar de vez com a maior fonte de água da região?
    Nenhum estudo até agora negou essa possibilidade.
    Eu não pagaria para ver.
    Além disso, -estudamos desde o primário – há várias outras formas de levar água para quem realmente precisa. Quem já deu umas voltas pelo semi-árido vê áreas verdes, lindíssimas, regadas a poços e açudes, reservatórios bem administrados, que dão conta da água nos períodos em que ela falta.
    Falta é vontade de resolver a situação de fato. Isso é mania de brasileiro que tem que acreditar em um único salvador da pátria. Mega estruturas colossais enganam mais o povo do que fazer açudes descentes. quem não se lembra da Transamazônica? Aqui no ES tem uma ponte “revolucionária”, que, 20 anos depois, quando foi, finalmente concluída e inaugurada, não tem mais serventia nenhuma. Querem fazer isso do velho Chico?

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