‘Habitante irreal’: desabou entre nós um livraço

05/12/2011

Se estivesse em curso um debate crítico de verdade sobre a literatura brasileira contemporânea, o romance “Habitante irreal”, de Paulo Scott (Alfaguara, 264 páginas, R$ 39,90), preencheria todos os requisitos para se por em seu centro e se tornar um teste de realidade para as teses antagônicas que cruzariam o ar: as que pregassem a falência artística de toda representação do real, as que declarassem nojinho da tradição e quisessem reinaugurar a literatura em bases sociológicas, as que apostassem tudo na formação de leitores e no prazer de ler etc. Infelizmente para “Habitante irreal”, não há debate algum. Atolada num ambiente besta que se assemelha a uma guerrinha entre fiéis e infiéis (existe ou não existe, é divina ou é uma fraude, vamos à missa ou não vamos?), a literatura brasileira contemporânea corre o risco de nem se dar conta de que acaba de ganhar um livraço.

“Habitante irreal” representa um salto na carreira de Scott, 45 anos, escritor gaúcho radicado no Rio. Entende-se como ele chegou até aqui: não houve guinada no caminho iniciado com “Voláteis” (2005), seu primeiro romance, que buscava uma poética da sujeira e do desencanto em submundos urbanos, contrapondo apenas uma certa candura ao risco do clichê geracional. O que houve foi crescimento, amadurecimento, consideração honesta dos limites e potencialidades da arte em face de toda essa confusão que a ultrapassa e que se costuma chamar, à falta de palavra melhor, de vida. Não “o real” dos críticos: vida mesmo. Escolhas que, pensadas ou impulsivas, têm consequências. Consequências que, no balanço coletivo das vidas, moldam, entre outras coisas, a cara de um país.

O romance começa em Porto Alegre nos anos 1980, após o fim da ditadura, acompanhando o desencanto do promissor militante Paulo com o PT e a política estudantil. Puro demais para a sordidez da Realpolitik, o protagonista não vê nada de errado, porém, em se envolver com uma índia adolescente que encontra na miséria à beira de uma estrada: afinal, estar apaixonado não era, para sua geração, o álibi moral supremo? O maior mérito da primeira metade do romance é a voz crível de Paulo, filtrada por um narrador em terceira pessoa que pouco descola dele: por cima do dado, aliás irrelevante, de que ela é parcialmente confessional, só um leitor com ouvido ou coração de lata negaria eficácia literária à sua sujeira medida.

Até aqui estamos no terreno de um sincero acerto de contas com os sonhos e desilusões de uma geração. Não seria pouco, mas o que faz de “Habitante irreal” um livro excepcional é o salto mortal que vem em seguida. Arrastados por um mecanismo mais complexo do que o início sugeria, abandonamos Paulo num autodestrutivo exílio londrino para mapear, entre diversos pontos de vista, as consequências da bagunça que ele deixou para trás ao fugir. Numa proeza técnica digna de Don DeLillo, que mereceria análise à parte, o romance se expande então para fora e ao mesmo tempo para dentro, englobando história e mito: revela-se um cruel espelho político-social de impasses coletivos e, no caminho oposto, um objeto que se quer tão xamânico quanto a bizarra máscara construída por Donato, o “índio mais não índio do qual já se teve notícia”, com o propósito de dar voz aos mortos.

É tão grande a ambição e tão elevado o nível de acerto do romance que torna-se quase implicante mencionar deslizes, mas eles existem: a cansativa enumeração de marcos noticiosos para dar à ação uma moldura histórica parece desnecessária, e certos personagens secundários, dos quais o narrador se aproxima por poucas páginas em momentos de transição, soam mais como pretextos para a exibição de virtuosismo do que como peças relevantes da história. Mas isso importa pouco. O fundamental é que, fechando um ano que começou com “Diário da queda”, de Michel Laub, “Habitante irreal” reforça a impressão de que a literatura brasileira está entrando numa fase qualitativamente madura após a explosão quantitativa da última década. O livro vai ser tão lido quanto merece? Provavelmente não: o ambiente, como foi dito, não ajuda. Mas depois dele fica mais difícil negar que quem insiste na tecla da nossa “irrelevância” literária é ruim da cabeça ou doente do pé.

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