Hemingway e Salinger são os maiores, diz Lillian Ross

13/12/2010

Os dois maiores escritores do meu tempo são Ernest Hemingway e JD Salinger. Ambos cruzaram a fronteira entre o século 20 e o 21 com sua originalidade, sua substância e seu poder de permanência intactos. Como repórter e como amiga – com o privilégio de brincar na sua área – foi excitante observar em primeira mão o gênio único dos dois escritores revelar-se de forma cada vez mais nítida com o passar dos anos.

Ambos tinham um senso de humor muito particular – surpreendente, inimitável, em conversas, em cartas e em seu trabalho. Salinger me mantinha ao telefone por horas, morrendo de rir, falando de tudo e de todos à nossa volta. Ele adorava ler e adorava escrever. Hemingway costumava dizer que amava a parte de escrever, “mas não o que vinha depois”. O que veio depois para ele foram anos de inexplicável censura por ter tido a coragem e o gênio de nos dar prazer e iluminação duradouros na leitura.

Nunca entendi a parte do “depois”, nem no caso de Hemingway nem no de Salinger. Temos visto tentativas deprimentes de derrubar Salinger também. Salinger amava as pessoas que criava e as protegeu até a sua morte. Ele nos deu Holden Caulfield. Ele nos deu a família Glass. Então por que alguns críticos “literários” adotam um tom de tanta censura sobre sua vida pessoal?

O artigo (em inglês, acesso gratuito) que Lillian Ross, lenda viva do jornalismo literário americano, publicou ontem no “Observer” sobre JD Salinger – e um pouco sobre Ernest Hemingway – não tem nada de crítica literária. É antes um assumido e emocionado depoimento de amiga, o que evidentemente interfere com qualquer juízo estético mais equilibrado. Ainda assim, sua afirmação de que os dois foram os maiores escritores de seu tempo, nem mais nem menos, deve dar o que falar.

15 Comments

  • carlos cezar marques 13/12/2010 at 18:07

    Em minha humilde compreensão, entendo que Salinger, sim, é um dos grandes, com O Apanhador no Campo de Centeio. Quanto a Hemingway… hum… será? Um dos livros dele, O Sol Também se Levanta, parece algo interessante à primeira vista, mas não que se compare a uma obra-prima. Já o Velho e o mar, Adeus às Armas, contos etc… hum…

  • Sérgio Karam 13/12/2010 at 18:43

    Como assim, “contos etc…hum…”??? Não foi o Hemingway que inventou o formato do conto moderno, do conto do século XX? Claro, baseado naquela turma que veio antes (Tchekhov, Poe, Maupassant), mas foi ele que definiu o lance da linguagem econômica pro conto. Ou não foi? Claro que a essa altura é fácil desmerecer o trabalho do cara, mas acho que ele não merece um “hum…” assim desdenhoso. Abraços.

  • J.Paulo 13/12/2010 at 20:35

    Hemingway é um escritor cuja obra desperta algum interesse e prazer. Mas Salinger é medíocre.

  • Joao Gomes 14/12/2010 at 00:17

    …cada um puxa a brasa para sua sardinha.
    Observaram que os dois são dos USA?

  • João Chiodini 14/12/2010 at 09:28

    Acho que “O Velho e o Mar” é um bom livro para leitores iniciantes. Tanto Salinger quanto Hemingway são escritores de altos e baixos. E vejo Salinger com pontos não tão altos…

  • Marcelo ac 14/12/2010 at 10:55

    Hemingway não gostava da parte das revisões porque o aborrecia. Mas que ele deu uma contribuição inegável para a literatura, isso é inegável.Ele conseguiu extrapolar o ambiente literário propriamente dito, e isso é um feito e uma característica da época. Ele não era o que a gente chama hoje de engessado nem pela crítica,nem pela academia, mas tinha um olhar bem agudo para o mercado. Escritores que não olham um pouco para isso, deviam fazer outra coisa da vida.

  • carlos cezar marques 14/12/2010 at 11:08

    Não sei se é uma resistência apenas minha, como leitor, mas tentei reler alguns contos do Hemingway e não fui capaz de ir em frente, ao contrário do que acontece quando estou relendo Maupassant e Tchekhov. Esses dois, como contistas, continuam atraindo meu interesse.

  • Saint-Clair Stockler 15/12/2010 at 15:21

    Não li com suficiente profundidade e amplidão a obra do Hemingway (estou com o A festa móvel aqui pra ler, que vai ficando sempre pra depois, depois…) mas, sim, gosto de ambos: Salinger e Hemingway. O engraçado é que, neste momento – friso o “neste momento” -, o escritor em língua inglesa que acho insuperável chama-se Paul Bowles. Pode ser que amanhã ou na semana que vem eu venha a me lembrar de outro escritor americano, ou mesmo inglês, e acabe tirando Bowles do trono no ápice dos autores de língua inglesa. Mas, por enquanto, meu coração bate mesmo é por ele.

  • carlos cezar marques 16/12/2010 at 09:57

    Saint-Clair, estou interessado em ler Paul Bowles. Você pode me apontar os melhores livros dele?

  • Saint-Clair Stockler 16/12/2010 at 13:39

    Oi Carlos! Com o maior prazer: comece com a coletânea de contos Chá nas montanhas (parece que foi relançada recentemente com o título de Um episódio distante, só que está com preço mais caro. A edição da Rocco é perfeitamente adequada e mais barata) e, se gostar, experimente depois o único romance que Bowles escreveu: O céu que nos protege. Um romance extremamente belo e, em seu terço final, estranhíssimo (o que aumenta a sua beleza). Ao meu ver, são os dois melhores livros do Bowles. Não esqueça depois de me falar o que achou. Abraços!

  • Saint-Clair Stockler 16/12/2010 at 13:45

    Não disse que ia acabar me lembrando de mais um autor de língua inglesa que ombreia com Salinger e Hemingway (ao meu ver, até os ultrapassa, mas isso é uma opinião pessoal)? Carson McCullers.

    Então, recapitulando: no meu Olimpo literário pessoal, os assentos com a plaquinha de “Os maiores da língua inglesa” estão ocupados no momento por Paul Bowles e Carson McCullers… O que pode mudar, é claro. O bom da literatura é que na ONLU (Organização das Nações Literárias Unidas) os assentos até podem ser permanentes, mas seus ocupantes ficam mudando o tempo todo :)

  • Sérgio Karam 16/12/2010 at 15:12

    Carlos e Saint-Clair:
    O CÉU QUE NOS PROTEGE não é o único romance do Paul Bowles, tem também QUE VENHA A TEMPESTADE e BEM ACIMA DO MUNDO. E há uma outra coletânea de contos, UM AMIGO DO MUNDO, complementar a CHÁ NAS MONTANHAS, também publicada pela Rocco. Baita escritor!

  • carlos cezar marques 16/12/2010 at 17:21

    Obrigado, Saint-Clair e Sérgio. Irei ler primeiramente O CEU QUE NOS PROTEGE, pois já ouvi dizer que é um ótimo livro! Me lembrava do título, mas não do nome do autor.
    Abraços…

  • Saint-Clair Stockler 16/12/2010 at 22:34

    Sérgio: ah, sim, pois é. Sorry. Quando eu escrevi que era o único romance do Bowles estava era pensando no André Gide (que só escreveu um romance, Os moedeiros falsos). Só Freud explicaria o lapso… rsrsrs.
    Com relação ao Um amigo no mundo, só não o recomendei porque acho-o, de um modo geral, ligeiramente inferior ao Chá nas montanhas. Mas, ainda assim, é um excelente livro de contos…

    Carlos: depois, caso você se anime, e ainda não a conheça, dê uma lida em alguma obra de Carson McCullers… Como sugestão, comece com o romance O coração é um caçador solitário. Muito emocionante! Abraços!

  • Ernani Ssó 17/12/2010 at 11:38

    Saint-Clair, O Imoralista não é romance? Lembro de ter lido na adolescência e de ter gostado muito mais do que dos Moedeiros. Já n’Os Frutos da Terra empaquei logo no começo.

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