História de trás pra frente

06/02/2013

José Villoso, o escritor mais popular da história de Antares, a pequena ilha do Caribe, morreu aos noventa e um anos. Era gordo, rico e famoso, mas amargurado. Dizem que suas últimas palavras foram: “Os críticos que rezem bastante para a morte ser o fim de tudo. Porque, se não for, eu juro que volto para pegar esses cabrones”.

Villoso tinha sido a ausência mais notada no enterro, dez anos antes, de seu ex-amigo Juanito Penafort, o maior nome das letras de Antares. Ignorado pelo grande público, que passava longe de compreender uma arte rigorosa em que o experimentalismo se punha a serviço da ampliação das fronteiras do literário, Penafort morreu magro e pobre. Era considerado um deus pelos críticos.

O popular Villoso e o cultuado Penafort nunca mais se falaram depois de travarem uma polêmica amarga nas páginas do principal jornal de Antares, chamado justamente Jornal de Antares. Aos cinquenta e muitos anos, eram ambos nomes sólidos em suas respectivas praias literárias. Villoso escreveu um artigo em que chamava Borges de “ceguinho pomposo”. Penafort replicou com violência, houve tréplica, contratréplica, deu no que deu.

Até o episódio da briga, Villoso e Penafort tinham sido o Gordo e o Magro da imprensa antarense. Repórteres e leitores adoravam o contraste cômico entre eles – literário, financeiro e corporal – e se enterneciam com o fato de, apesar disso, serem ambos tão fiéis a uma amizade que vinha da infância. “José Villoso é o maior escritor de Antares”, dizia Penafort. “Nada disso, o maior escritor de Antares é Juanito Penafort”, dizia Villoso. E se abraçavam rindo.

Pouca gente sabia que os primeiros livros escritos por ambos, ainda nos tempos da Faculdade Antarense de Direito, tinham permanecido inéditos. O de Villoso era um romance cubista de quinhentas páginas que narrava, numa multiplicidade de pontos de vista e idiomas – alguns deles inventados – o período de um minuto e meio transcorrido entre dois sinais vermelhos em certa esquina da capital. O de Penafort era uma novela policial ensopada de sangue e sexo.

Quando tinham quinze anos, José e Juanito ganharam permissão dos pais para acampar durante um fim de semana no parque nacional próximo à capital, famoso por suas cachoeiras. Lá toparam com uma cabana na mata e ajudaram sua moradora, uma velha decrépita, a recuperar três cabritos que tinham fugido de um cercadinho tosco. Agradecida, a mulher serviu café aguado com pamonha de milho roxo em sua choupana. Disse que era feiticeira e que cada um tinha direito a um desejo.

6 Comments

  • Aldo Ghisolfi 06/02/2013 at 16:34

    E?…

  • Carlos Eduardo Doné 07/02/2013 at 05:50

    Sensacional, Sérgio, meus parabéns!! Que texto! Abraço!
    Obrigado, Carlos Eduardo. Abraços.

  • ROBERTO PRADO 07/02/2013 at 10:41

    Sim, e?

  • Diego Moita 07/02/2013 at 15:12

    Porque parou? Estava indo tão bem…
    Porque tudo está dito, Diego. Abs.

  • benjamin cole 08/02/2013 at 14:43

    Melhor sobrescrito em mais de dois anos! Quer que eu o traduza para o inglês?

    E para os reclamões e espertos, saibam que a brevidade também é uma virtude. Não se esqueçam do dito de Karl Kraus: “Quem sabe escrever aforismos não precisa escrever ensaios”.
    Obrigado, Benjamin. Você é bem-vindo para traduzir o texto sem compromisso se quiser, será uma honra. Se surgir uma chance de publicar, voltamos a conversar, ok? Um abraço.

  • Graça 08/02/2013 at 20:59

    Lindo texto!
    Puro lirismo.
    Obrigada
    Sou eu que agradeço, Graça. Apareça sempre.

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