História do mundo em 13 tweets

20/10/2010

Será que o Twitter, com sua famosa limitação de 140 caracteres por mensagem, é um bom lugar para a literatura? Foi sem dúvida um excelente lugar para os calouros da Universidade de Chicago que ano passado venderam à editora Penguin a ideia do livro “Twitterature”, em que clássicos universais são recontados em “vinte tweets ou menos”.

Como ferramenta para o ensino de habilidades literárias em sala de aula, segundo reportagem desta semana, também está sendo descoberto. Mas…

Onde anda a boa literatura original do Twitter? Quase todo mundo que sigo lá, onde atendo por @sergiotodoprosa, é dessa área. E não vejo ninguém se animando a ir além daquela mistura de notícias breves, links, comentários e piadinhas que dá o tom inconfundível do meio. No máximo, pintam uns aforismos menos esquecíveis.

Aí fiquei pensando: e se a barreira imposta à literatura pelo Twitter não vier da limitação de espaço (Dalton Trevisan, afinal, já era tuiteiro antes do tempo), mas do pH do solo? De um certo prisma de leitura que ele cria, necessariamente leve, ansioso, volátil? Alguém quer mesmo ler literatura ali?

Foi com essas ideias na cabeça que resolvi fazer uma experiência: publiquei ontem a série “História do mundo em 13 tweets” para ver o que acontecia.

O que aconteceu foi, talvez previsivelmente, quase nada. Uma tradutora de português que mora no Japão retuitou a série completa. Um jovem escritor carioca acenou simpaticamente com o boné. E perdi cinco seguidores.

O assunto continua aberto, portanto. Mas vamos à “História do mundo…”:

1. Um dinossauro ergue o pescoço contra o horizonte metálico. Volta a dormir. Nada acontecerá nos próximos 5 milhões de anos.

2. O chão espelhado da planície calcária reflete os bilhões de estrelas do céu negro. O mundo é jovem. Um fauno passa.

3. Um olho abre devagar. Pisca. Estava escuro antes, a luz o cega. Um olho abre bem devagar.

4. Velho aos 20, morto aos 25. Copula desde os dez. Doença. Dor de dente. Mau hálito. Risadas.

5. Experimenta a poligamia. Divertido, mas guerras passionais dizimam o mundo. Dois mil anos depois surge o casamento.

6. A roda? Não foi inventada por ninguém, a roda existe na natureza. O primeiro tronco usado para rolar era uma roda.

7. A grande invenção da infância da humanidade não é a roda, é o domínio do fogo. Que tem inventor, embora de nome nebuloso.

8. Serviram reis. Foram escravizados. Fugiram daqui para lá. Maltrataram outros povos. Fizeram música. Entraram em declínio.

9. E prosperaram. E caíram mais uma vez. Gerações sucessivas, em camadas, tanto nervo amalgamado nessa lama.

10. Para quê? A pergunta perpassa milênios sem conta, como linha subjacente de baixo, dos pterodátilos aos datiloscopistas.

11. Para quê? A mãe que perde o filho para o tifo. A traição mortal a um irmão por dez dinheiros. Enchentes, dias de sol.

12. A dor do amor, a dor do luto, a dor do cálculo renal, da solidão, do câncer, a dor de não sentir dor ou sentir dor demais.

13. Para quê? E esse para quê é o olho que pisca, que tanto tempo depois ainda não se acostumou com a luz.

12 Comments

  • Daniel 21/10/2010 at 09:02

    Olá Sérgio, que tal um exemplo da Iliada para twitter?
    “Roubou a moça, levou a moça. O corno fez a guerra e com um cavalo de pau venceu.Matou a todos e trouxe a moça.O do calcanhar dançou.”
    Grande abraço

  • Rolfe 21/10/2010 at 11:27

    Oi Sérgio, eu estive presente no Café Literário na Bienal em Curitiba onde discutimos o assunto e não acho interessante esse tipo de literatura de vários tuites principalmente porque eles acabam perdidos no meio dos outros (tuites) e não temos paciência de lê-los na ordem correta; ou seja, acabamos lendo de trás para frente e acaba perdendo o sentido. Abraço.

    • sergiorodrigues 21/10/2010 at 12:15

      Pois é, Rolfe, é o que eu falo do pH. Efeitos literários menos superficiais dependem de duração, e duração não cabe no Twitter. Mas cabe nas coletâneas de tweets do futuro, como entenderam os garotos de Chicago. Um abraço.

  • Rosângela Maria 21/10/2010 at 13:07

    Ou não quer a luz?

  • Tibor Moricz 21/10/2010 at 14:16

    O máximo que concebo como literatura no twitter são os microcontos que acabam não passando (a maioria) de trocadilhos idiotas. O Kuja aparece de vez em quando com uns aforismos retuitáveis…rs

  • Tibor Moricz 21/10/2010 at 14:17

    Ah, não li nem vi a história do mundo contada por você. Que horas foi isso?

    • sergiorodrigues 21/10/2010 at 16:48

      Em torno do meio-dia de terça-feira, Tibor.

  • Sérgio Karam 21/10/2010 at 18:58

    Azar, eu gostei!!!
    Abraço, xará!

  • El Torero 21/10/2010 at 20:52

    Bom, o Fabrício Carpinejar lançou o ‘www.twitter.com/carpinejar’, que ele chama de primeiro livro do twitter do Brasil. Mas não sei do que se trata.

  • Leandro Jardim 18/10/2012 at 11:23

    Muito bonito, pequena grande obra!

  • Daniel S 18/10/2012 at 12:39

    Eu penso nisso também, como seria uma literatura pensada para o twitter. Tenho feito experiências com retweets compondo ressonâncias, significados, ecos e coincidências:
    https://twitter.com/interaubis
    Só que lendo na minha timeline não faz muito sentido, isso só funciona ao vivo para as pessoas que me seguem e recebem os retweets na sequência.
    De qualquer maneira também estou experimentando com a ferramenta (que nem você fez, aliás).
    É dessas inqueitações que surge alguma linguagem, né.
    Abs
    :)

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