Houellebecq: o Ctrl+C/Ctrl+V como ‘método’

08/09/2010

“Isso é parte do meu método”, disse o escritor francês Michel Houellebecq a uma rádio de Paris (trechos da entrevista são reproduzidos hoje pelo jornal inglês “The Independent”), em resposta à acusação de plágio que lhe foi feita semana passada pela revista eletrônica Slate.fr, que flagrou em seu recém-lançado romance La carte et le territoire longos trechos copiados da Wikipedia.

“Se esses caras pensam isso, não têm a menor ideia do que é literatura”, contra-atacou Houellebecq. “Essa abordagem, a da mistura de documentos reais com ficção, foi usada por muitos autores. Fui influenciado especialmente por Perec e Borges. Acredito que usar esse tipo de material contribua para a beleza dos meus livros.”

Para a promoção deles certamente contribui. Único nome da ficção francesa contemporânea a gozar de uma aura de estrela midiática, Houellebecq conseguiu mais uma vez provocar uma boa polêmica. A diferença é que agora, em vez das acusações de misogia ou islamofobia que pairavam sobre seus livros anteriores, surge a atualíssima questão dos limites entre o plágio e o sampling literário.

A jovem escritora alemã Helene Hegemann meteu-se em confusão parecida no início deste ano, comentada aqui no Todoprosa. Mas com Houellebecq, autor consagrado, o assunto ganha mais destaque e relevância. Como Hegemann, ele não deu crédito às fontes em que foi pós-modernamente buscar os retalhos da sua colcha. Isso não seria má-fé?

A discussão vai longe, mas os trechos quase idênticos descobertos pela Slate.fr ao confrontar o romance com verbetes da Wikipedia.fr são constrangedores. Está certo que, contextualizados numa obra de ficção, eles ganham outro sentido e não são mais que um grão de sal na ratatouille. Isso provavelmente torna exagerada a acusação de plágio, mas… e a de preguiça, não conta?

17 Comments

  • Arthur 08/09/2010 at 22:44

    Bem, nunca li nada do cidadão, não posso falar da qualidade de sua escrita (do que ele escreveu realmente, digo). Se ao menos ele fizesse como Perec, ao fim de “A vida: modo de usar” e listasse os autores dos quais ele fez sample no meu de seu catatau, acho que não haveria problema. Agora só citar o “seu estilo” depois de desmascarado, quando a Wikipedia está em constante mutação e aos poucos os trechos copiados poderiam ser alterados e perderiam a ligação com a obra, cheira um pouco a picaretagem, mesmo.

  • João 08/09/2010 at 23:57

    Ah, Sérgio, não tangencie Houellebecq com a preguiça – chega a ser, digamos, incongruente. Ícone que faz questão de ser polêmico – e, com isso, favorece a eterna vanguardia presente na boa literatura francesa – apenas brinca com isso que, a princípio, enxergamos com olhares que misturam interrogação e estranhamento. A missão dele é simples, até: onde é que está a fonte – nesta, a sempiterna, ou noutra, a d´agora? Questão de reflexão. Aplausos comedidos, e risonhos (?!), pra ele.

  • Anderson Sevilha 09/09/2010 at 01:16

    Plágio é plágio, independentemente do ‘tamanho’ do autor! Tivesse ao menos informado a origem de sua inspiração , como o fez Antonio Prata em um de seus textos composto por fragmentos de emails por ele recebidos. Prefácio está aí também para isso!
    Penso, às vezes, até que ponto minhas ‘obras’ (e outras também) são originais, frutos de um mergulho em meu próprio oceano, ou se esse é um oceano comum de idéias partilhado pelo pensamento de todos. Uma resultante de conversas, livros, artigos, imagens, sons, etc. Até onde racionalizei, penso ser o acesso às idéias uma mistura de ambos. Isto implica em certa falta de originalidade, ou melhor, em uma originalidade (ou autoria) de pensamento partilhada. No entanto, o que se espera de um escritor é que, na falta de autenticidade (de pensamento), é que este, pelo menos, se dê ao trabalho da paráfrase: ler, interpretar, racionalizar e expressar o seu entendimento do assunto. Caso contrário, o que temos é um escrevente limitado a reproduzir o que o mundo lhe dita: imprescindíveis em uma relatoria ou delegacia de polícia, não em uma biblioteca. Preguiça? Pirataria, diria. Agora é tarde para se retratar. Faltou pensar!

  • Ferreira Pena 09/09/2010 at 07:43

    Que sucesso! Parece ratos da esquerda brasileira …

  • Augusto Treppi 09/09/2010 at 12:16

    Puxa Sérgio, eu já vi você respondendo comentários, por que não responde os meus? :-)

    • sergiorodrigues 09/09/2010 at 13:55

      Caro Augusto, por nenhum motivo, acredite, ou porque acabo só conseguindo responder uma fração dos comentários. Sobre a angústia que você comentou, de não saber se é possível escrever uma literatura erótica (homo ou não, me parece que vale para tudo) que contenha passagens explícitas mas sem cair na pornografia, na literatura barata – bom, eu diria que é possível. Difícil, mas ninguém disse que escrever seria fácil. Você conhece um livro chamado “Call me by your name”, de André Aciman (acho que sem tradução aqui)? Saiu há uns dois ou três anos nos EUA. Vale a pena dar uma olhada, talvez tenha a ver com o que você busca. Um abraço.

  • Anderson de Souza 09/09/2010 at 12:22

    Sérgio, eu adotei como método e copiei este texto no meu blog: http://www.andersondesouza.com.br

  • Anouk 09/09/2010 at 12:58

    As editoras, críticos, etc e tal, deveriam cuidar para evitar o desastre. Gatunos nao merecem louvor.

  • Rafael 09/09/2010 at 16:32

    Convenhamos, senhores: o vexame não é ser flagrado cometendo plágio; o vexame mesmo, na real, é plagiar a Wikipedia, esse almanaque de cultura geral da Era Internet.
    Depois dessa, o indivíduo ainda tem a cara-de-pau de dizer-se discípulo de Borges…

  • Hefestus 10/09/2010 at 10:32

    Ao ler o comentário do João em defesa de Houllebecq – e a forma atroz do que escreveu – chego a entender como alguém que consegue encaixar ipsis literis citações de wikipedia em um texto tem tantos leitores.

  • Foguete de Luz 10/09/2010 at 14:03

    O relativismo na literatura. A fraude vira “método” e se não tivermos cuidado acharemos tudo normal. E tome iniquidade. Depois queremos CONSERTAR o Brasil… Né, não?

  • Foguete de Luz 11/09/2010 at 11:44

    Hefestus, agora que os leitores estão sabendo. É assim mesmo. Vai chegar a hora das pessoas escolherem os escritores pelo que eles escrevem e jamais pelo que eles plagiam.

  • Thiago Corrêa 11/09/2010 at 12:51

    Apesar de não conhecer a obra de Houellebecq, não vejo como acusá-lo de preguiçoso. Pelo que você descreveu, ele está é aplicando um método já largamente utilizado em outras linguagens artísticas. Ao meu ver, é o mesmo do ready-made de Duchamp, que pega objetos funcionais, cria uma discurso em torno dele e o recontextualiza em outro espaço (o da arte). E nem por isso ele precisou citar como autor a fábrica do mictório ou o designer que desenvolveu a forma do objeto.

    O mesmo também tem sido feito no cinema. Ano passado um cineasta daqui de Recife chamado Marcelo Pedroso fez o documentário “Pacific” sobre a viagem de cruzeiro para Fernando de Noronha construído inteiramente com imagens gravadas pelos próprios passageiros, como registros da viagem deles, sem qualquer interferência do pessoal da produção. Só no fim da viagem que a equipe do filme se apresentou e pediu para tirar uma cópia das gravações. Mesmo sem ter comandado as gravações, Pedroso conseguiu construir todo um discurso em cima daquelas imagens, através da montagem e da disposição das cenas.

    O mesmo acredito que Houellebecq deve fazer ao utilizar trechos do Wikipedia, que ali, no contexto do livro, deixam de ser textos do Wikipedia para se transformarem em outra coisa. De qualquer forma, obrigado por me apresentar essa história, fiquei curioso.

  • Rafael 12/09/2010 at 16:54

    Duchamp foi um estelionatário dotado de enorme talento para a auto-promoção. Não me parece lisonjeiro ser comparado a ele. As artes plásticas se rebaixaram ao tomarem-no como exemplo de inovação e de ousadia. Será que o triste destino da literatura é embrenhar-se na mesma vereda?

  • Afonso 12/09/2010 at 17:13

    Vejam o link: http://wp.me/pfFUq-Rk
    copiar não é roubo…

  • Vinícius Antunes 13/09/2010 at 11:43

    E logo da Wikipedia? Eu sou do tempo que a gente plagiava de fontes mais confiáveis! haha
    O bom é saber que este livro já está sendo distribuido gratuitamente na Wikipedia mais próxima de vc.
    Abraços
    Antunes
    http://cronicasdumasviagens.wordpress.com

  • sandro so 14/09/2010 at 16:04

    Mas plágio não tem a ver com propriedade intelectual e autoral? E quem é o autor de verbetes na Wikpedia.fr para processá-lo? Ela não é de autoria pública e coletiva, sempre em aberto?

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