II Concurso Todoprosa de Microcontos: os vencedores

16/07/2012

Foi mais difícil escolher os vencedores desta vez. O número de narrativas ultracompactas inscritas foi o mesmo, pouco acima de 600. No entanto, desde a primeira versão do Concurso Todoprosa de Microcontos para Twitter, em 2010, é possível que o formato radicalmente sucinto tenha se alojado mais fundo na sensibilidade da nossa época, sei lá. O fato é que o trabalho de seleção foi mais difícil, o medo de cometer alguma injustiça grave pairando o tempo todo sobre a cabeça do microjúri – formado, como já anunciei, por mim mesmo.

Numa primeira peneirada, cheguei a 53 microcontos que, sem favor algum, poderiam constar da lista abaixo. Desse universo, um pente mais fino separou 24 finalistas. Escolher um oitavo deles para montar o pódio foi, como seria de esperar, o salto mais arriscado.

Após incontáveis releituras, o primeiro lugar vai para Mara Augusta Soares pelo prodígio de, pronunciando apenas oito palavras cuidadosamente pesadas, desenhar um não-dito de dimensões vertiginosas entre a violência realista – tom eleito pela maioria dos concorrentes – e o lirismo, o mundo lá fora e o mundo aqui dentro, borrando irremediavelmente suas fronteiras:

Ao pular na garganta do penhasco, ele sonhou.

O segundo lugar premia uma tendência que pouco apareceu no concurso anterior, mas que desta vez – em outro sinal, talvez, de que o formato vai sendo abordado de modo mais consciente – contou com diversos representantes: a metalinguagem. Leandro Henrique assina o microconto que fez melhor uso dela, jogando ainda humor e um trocadilho inteligente na mistura. Quem se der ao trabalho de contar o número de toques do conto descobrirá que a conta fecha rigorosamente:

Conto 150. Mas assim o conto não vale, diz: valor é isso menos 10. Peço o troco. Ele devolve 20. E assim é que se faz um desconto.

O terceiro colocado, Alexandro de Camargo, é o autor da história de maior fôlego histórico, um insight de fazer inveja a papas da psicologia evolutiva como Steven Pinker:

A escrita cuneiforme teve início com as garras das bestas-feras nas peles trogloditas. Cada confronto deixava gravado: “aperfeiçoe-se”.

Parabéns aos três vencedores. Na quarta-feira voltarei ao assunto e, além de destacar microcontos que merecem menção honrosa, darei a lista dos outros nomes entre os 24 autores finalistas. Obrigado a todos os participantes.

Atualização às 19h45: o nome do autor do terceiro microconto é Alexandro – e não Alexandre, como grafei a princípio. Peço desculpas pela distração.

25 Comments

  • Ricardo Fontana Alves 16/07/2012 at 16:24

    Lembro de ter lido TODOS os contos publicados pelos meus “concorrentes”, e apesar de ter encontrado alguns belíssimos (o terceiro lugar da sua lista seria facilmente o primeiro lugar na minha), não sei se concordo com as duas primeiras colocações.

    Por mais que o segundo colocado tenha uma ideia muito bem executada, meu problema com ele é a sua validade enquanto conto. O primeiro lugar, apesar de impactante, também me parece raso demais, literariamente falando.

    Mas claro, opiniões são opiniões e eu só tenho a parabenizá-lo (e aos vencedores) por promover o concurso. Que venham os próximos! =)

  • Joana Masen 16/07/2012 at 16:25

    Quando li o microconto que ficou em segundo, tive a impressão de que ele estaria entre os primeiros. Já o que ficou em terceiro, eu, particularmente, não gostei.

  • Guilherme Sobota 16/07/2012 at 16:34

    E que comecem as trombetas dos apocalípticos (hoje em dia, amplamente conhecido como “mimimi”).

  • Márcia Regina 16/07/2012 at 16:45

    Um parabéns especial para o terceiro colocado.
    Achei incrível.

  • Márcia Regina 16/07/2012 at 16:49

    Leio e releio e cada vez gosto mais do microconto do Alexandre de Camargo. Muito dez!

  • Sherlock 16/07/2012 at 17:05

    Nenhum deles constava da minha lista pessoal. Mesmo assim, parabéns aos vencedores! São a prova de que é possível contar uma boa história e dar asas à imaginação falando pouco… muito pouco.
    Abraço e parabéns pelo excelente nível do blog!

  • @Medeyer 16/07/2012 at 19:43

    Apesar de nenh1 dos meus microcontos está presente, gostei demais do terceiro colocado!
    PARABENS!

  • Fernanda Falleiro 16/07/2012 at 20:07

    Há que lindo! Eu tinha adorado o terceiro lugar! Mesmo não sendo meu, fiquei super feliz de encontra-lo nos finalistas.

  • Leonor Barroso 16/07/2012 at 20:20

    Parabéns aos vencedores! Gostei muito de ter participado e conhecido tanta gente cheia de imaginação.
    Abraços

  • Fabio 16/07/2012 at 21:17

    Também achei o terceiro o melhor, em minha opinião. Agradeço pela iniciativa, e fiquei muito feliz em ter participado. Abraço

  • Madson 17/07/2012 at 07:03

    Parabéns! Mas, sem dúvida (minha opinião), o terceiro lugar é o melhor dos selecionados, muito embora não tenha gostado tanto desses minicontos. O primeiro colocado, apesar de falar de sonho, é muito ”comum” para ganhar um concurso: ”atirar-se de um penhasco”. O segundo lugar, por sua vez, mostra minúcia e criatividade, de modo que podemos dá um desconto (brincadeira com o microconto) e entender sua posição no Ranking do Sérgio Rodrigues. Essa é minha crítica. Porém, como nenhum dos meus textos foi selecionado, talvez isso seja apenas dor de cotovelo kkkkkkkk. Abraços!

  • Sherlock 17/07/2012 at 08:41

    Refaço a minha lista – o terceiro vencedor acho que merecia o troféu. Mas como você bem mencionou no post sobre a lista da Granta, cada um tem a sua. Dou meus parabéns ao Alexandro!

  • j. damião 17/07/2012 at 09:50

    Que pena que não dá mais para participar. Bem, quanto aos vencedores, parabéns. Só que achei os 3 microcontos escolhidos bastante pretensiosos, sem leveza nem humor. Se são os melhores, então fico imaginando como devem ser os demais, péssimos? Como não os li, posso estar comentendo alguma injustiça, mas literatura (ainda que nesse formato) não pode ser uma coisa assim tão chata: vai afugentar leitores não atraí-los. Bem, é minha opinião, talvez pouco educada, mas sincera.

  • George 17/07/2012 at 18:55

    Puxa vida, vocês e seus concursos. O primeiro conto não faz o menor sentido e vocês tecem uma crítica totalmente fictícia para atribuir-lhe o primeiro lugar; o segundo não passa de um trocadilho infame, desses que se ouve a toda hora entre amigos; o terceiro faz menos sentido que o primeiro, que maluquice é essa? Esses concursos são brochantes para qualquer escritor talentoso que se inscreva, você só premiam coisas sem valor nenhum.

    • sergiorodrigues 17/07/2012 at 19:30

      Não desanime, George. Um dia você chega lá, ou não, mas de qualquer maneira persevere. Saber reconhecer o mérito alheio é uma parte importante do caminho. Um abraço.

  • Marcelo Da Viá 17/07/2012 at 20:59

    Gostei do decassílabo, mas nao vejo sentido em criar esses haikais.

  • Edweine Loureiro 18/07/2012 at 09:36

    O terceiro, que maravilha. Parabens a todos os classificados.

  • Claudinei Herbert 18/07/2012 at 10:06

    A primeira micronarrativa me surpreendeu bastante e trouxe-me uma lembrança cara da minha infância: é exatamente, sem trocar uma palavra, a frase do parachoque do caminhão de meu tio, que a escutou de um estudante que pegou carona com ele, indo ao famoso congresso clandestino de reconstrução da UNE, na Bahia, no final dos anos 70. Essa frase inspirou-me desde que a li pela primeira vez. Feliz coincidência que adorei!

  • Gustavo Rossato 18/07/2012 at 12:17

    Muito bons os três classificados. Parabéns!

  • Lucas 23/07/2012 at 04:03

    O terceiro deveria ter ganho! Muito bom, é daqueles tipos que te surpreende com uma qualidade inesperada. Acho meio injusto um concurso com uma pessoa só no júri. No fundo acaba-se premiando o que é bom segundo o gosto dessa única pessoa, e muita coisa absurdamente boa pode ser perdida nesse processo. Se eu fosse o júri, o terceiro seria o primeiro e o primeiro, no máximo seria terceiro, pois não li outros.

  • Mario Aguiar 27/07/2012 at 15:01

    O primeiro microconto- ao meu ver- é tão impactantemente como uma estrela de prótons. Numa leitura rápida, ele não parece grande coisa; no entanto,num passar de olhos mais devagar e atenciosamente, esse microconto revela-se de uma profundeza abissal,pois,em poucas palavras narra que mesmo em situações limites a espaço para sonhar e, por conseguinte, ter esperança.

  • Joailce Azevedo Waisman 30/04/2013 at 08:14

    Destrancou a porta devagarinho. Hesitou. Esperançoso,entrou. Seus olhos se chocaram com as paredes do apartamento vazio.

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