Isaac Bábel: ‘O Exército de Cavalaria’

29/11/2006

O assombroso Isaac Bábel (1894-1940), um judeu franzino de óculos nascido em Odessa, cumpriu um percurso tristemente típico de seu tempo e lugar: fulgurante escritor revolucionário soviético nos anos 20, uma espécie de Maiakóvski da prosa; visto com desconfiança cada vez maior e incomodado com os rumos tomados pelo país ao longo dos anos 30; preso como contra-revolucionário e assassinado pela máquina repressiva de Stálin em 1940; reabilitado oficialmente pelo Partido em 1957. Esse breve esboço biográfico vai aqui porque, em primeiro lugar, ajuda a dissipar um pouco do denso desconhecimento que paira sobre Bábel no Brasil, e depois por ter, na sua brutalidade, uma sinistra correspondência com a literatura do homem. O livro de contos que a Cosac Naify lança agora como vigésimo volume da coleção Prosa do Mundo, “O Exército de Cavalaria” (tradução e apresentação de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade; posfácio de Boris Schnaiderman e Otto Maria Carpeaux; capa dura, 256 páginas, R$ 55), já teve no Brasil, com o título de “A cavalaria vermelha”, até edição na série Clássicos de Bolso da Ediouro. Isso não o impediu de permanecer pouco conhecido entre nós, o que é lastimável. A edição atual, a primeira com tradução feita diretamente do russo, tem cuidados de forma e conteúdo que podem – se tivermos um pouco de sorte – mudar essa história. Escritos a partir das experiências de Bábel como correspondente no front da guerra russo-polonesa em 1920, os contos curtos e violentos de “O Exército de Cavalaria” têm uma estranha mistura de secura realista e imagística suntuosa que não se encontra em nenhum escritor antes ou depois de Bábel. No posfácio, Schnaiderman os chama de “texto-paradigma do século XX”. E explica: “Com o seu sabor acre de sangue e terra, com sua violência que nos deixa perplexos, eles estão realmente entre os escritos que expressaram melhor aquele século de horror e de mudança”. Leia a seguir o conto “O filho do rabino”:

… Lembra-se de Jitómir, Vassíli? Lembra-se do Tiéteriev, Vassíli, e daquela noite em que o sabá, o novo sabá, insinuava-se ao longo do crepúsculo, esmagando as estrelas sob seu tacão vermelho?

O corno esguio da lua banhava suas pontas nas águas escuras do Tiéteriev. O ridículo Guedáli, fundador da Quarta Internacional, levou-nos à casa do rabino Motale Bratslávski, para a oração da noite. O ridículo Guedáli sacudia as penas de galo de seu chapéu alto na fumaça vermelha do anoitecer. As pupilas rapinantes das velas bruxuleavam no aposento do rabino. Debruçados sobre os livros de orações, judeus espadaúdos gemiam surdamente, e o velho bufão dos tsadiks de Tchernóbyl fazia tilintar moedas de cobre no bolso rasgado…

… Lembra-se daquela noite, Vassíli?… Do outro lado da janela os cavalos relinchavam e os cossacos gritavam. O deserto da guerra bocejava lá fora, e o rabino Motale Bratslávski, com os dedos consumidos cravados no talete, orava junto à parede do Oriente. Daí a cortina da arca foi descerrada e, à luz funérea das velas, vimos os rolos da Torá metidos em suas capas de veludo púrpura e seda azul, e, debruçado sobre a Torá, o belo rosto inanimado e submisso de Iliá, o filho do rabino, o último príncipe da dinastia…

E eis que, faz uns dois dias, Vassíli, os regimentos do Décimo Segundo Exército deixaram o front em Kóvel a descoberto. Na cidade ribombou o desdenhoso bombardeio dos vencedores. Nossas tropas vacilaram e se misturaram. O trem da Secpolit começou a rastejar pela espinha morta dos campos. Camponeses tifosos rolavam diante de si a tão conhecida corcova da morte do soldado. Eles saltavam nos estribos do nosso trem e eram derrubados a coronhadas. Fungavam, debatiam-se, voavam longe e silenciavam. Uma dúzia de verstas depois, quando as batatas acabaram, atirei-lhes uma pilha de panfletos de Trótski. Mas só um deles estendeu a mão morta e suja para apanhar um panfleto. E eu reconheci Iliá, o filho do rabino de Jitómir. Eu o reconheci na hora, Vassíli. Ver o príncipe, que perdera as calças, dobrado em dois sob a mochila de soldado, doía tanto que, desobedecendo aos regulamentos, nós o puxamos para dentro do vagão. Seus joelhos nus, desajeitados como os de uma velha, batiam nos degraus enferrujados; duas datilógrafas peitudas, com blusa de marinheiro, arrastaram pelo chão o corpo comprido e envergonhado do moribundo. Nós o depositamos num canto da redação, no chão. Cossacos de calças bufantes vermelhas ajeitaram-lhe a roupa caída. As moças, plantando no chão suas pernas tortas de fêmeas broncas, observavam friamente os órgãos genitais, a virilidade mirrada e crespa de um semita que tinha definhado. Mas eu, que o vira numa das minhas noites errantes, comecei a arrumar no baú os pertences espalhados do soldado Vermelho Bratslávski.

Tudo estava amontoado ali, as credenciais de agitador e as anotações de um poeta judeu. Retratos de Lênin e de Maimônides jaziam lado a lado. O ferro nodoso do crânio de Lênin e a seda opaca dos retratos de Maimônides. Uma mecha de cabelos femininos servia de marcador num livro com as deliberações do Sexto Congresso do Partido, e nas margens das páginas comunistas apertavam-se as linhas tortuosas de antigos versos hebraicos. Qual chuva rala e triste, caíam sobre mim páginas do Cântico dos Cânticos e cartuchos de revólver. A chuva triste do crepúsculo lavava a poeira dos meus cabelos, e eu disse ao jovem que agonizava num canto, em cima de um colchão esfarrapado:

– Faz quatro meses, numa sexta à noitinha, que o trapeiro Guedáli levou-me à casa do seu pai, o rabino Modale, mas naquela época, Bratslávski, você não pertencia ao partido.

– Naquela época eu pertencia ao partido – respondeu o rapazote, arranhando o peito e retorcendo-se de febre –, mas não podia deixar minha mãe…

– E agora, Iliá?

– Na Revolução, mãe não passa de um episódio – murmurou ele, com um fio de voz. – Saiu a minha letra, B, e a organização me mandou para o front…

– E foi parar em Kóvel, Iliá?

– Fui parar em Kóvel! – gritou com desespero. – Os kulaks deixaram o front descoberto. Tomei o comando de um regimento recém-formado, mas já era tarde. Me faltou a artilharia…

Morreu antes de chegar a Rovno. Morreu, o último príncipe, entre versos, filactérios e peais. Nós o enterramos numa estação perdida. E eu, que mal posso conter no corpo decrépito as tempestades da minha imaginação, eu recebi o último suspiro do meu irmão.

14 Comments

  • Roberto 29/11/2006 at 01:28

    Livraço, livraço, livraço. Esses russos quando acertam a mão são insuperáveis. Tinha lido alguns desses contos numa edição da própria Cosac – “Maria”, se não me engano. Agora veio a cavalaria inteira. Um dos lançamentos do ano, sem dúvida.

  • Lucas Murtinho 29/11/2006 at 06:51

    O mais curioso é que o Brasil teve uma grande chance de conhecer Bábel quando Rubem Fonseca publicou “Vastas emoções e pensamentos imperfeitos”, que tem como um dos pontos centrais da trama um romance inédito que Bábel teria escrito. Foi o romance do Fonseca que me fez comprar “A cavalaria vermelha” na edição de bolso da Ediouro, mas confesso que não achei o livro muito interessante e larguei a leitura no meio. E Fonseca também traduziu um dos contos da antologia que o Roberto mencionou aí em cima, também publicada pela C&N.

  • Jonas 29/11/2006 at 08:44

    Pois é Lucas, na hora eu lembrei do Vastas Emoções..

    Vai ser bacana finalmente poder ler o Bábel.

  • Sírio Possenti 29/11/2006 at 09:06

    Ia contar como cheguei ao livro, mas Lucas Murtinho se antecipou. Quando o vi num sebo (em Campos, RJ, esperando ônibus para o Rio), me dei conta claramente de que Rubem Fonseca não tinha inventado um ficcionista russo. Só não sigo Lucas na avaliação do livro, que achei extraordinário.

  • Erwin 29/11/2006 at 10:29

    Li o outro lançamento e não me apareceu por inteiro o escritor. Li agora essa nova tentativa e asseguro que pela amostra, ficaremos todos terrivelmente emocionados.

  • Saint-Clair Stockler 29/11/2006 at 11:19

    Se não me falha a memória, o livro “Vastas emoções e pensamentos imperfeitos” faz diversas referências a Bábel e seu livro de contos. Acho que o personagem principal do romance quer fazer um filme baseado nos contos do russo. Algo assim.

    Agora, algo mais prosaico: Porra, 55 reais??? Os livros estão pela hora da morte!

  • Clarice 29/11/2006 at 11:44

    Bóris Schnaiderman não se mete em qualquer coisa. Talvez o maior conhecedor de literatura russa no Brasil.

  • clelio 29/11/2006 at 12:02

    Falta traduzir os diários do homem, há edições em inglês por aí…

  • João Marcos 29/11/2006 at 14:53

    Por que mudaram o título tradicional? Cavalaria Vermelha é muito mais bonito.

  • Sérgio Rodrigues 29/11/2006 at 15:03

    Meu russo anda meio enferrujado, João Marcos, mas a explicação dos tradutores é que o título original é esse. ‘A Cavalaria Vermelha’ teria surgido de uma liberdade tomada por uma tradução do livro para o inglês.

  • Guilherme 30/11/2006 at 01:21

    eu sou mais um que chegou até o Babel através do Rubão…

  • Deise Guelfi 30/11/2006 at 10:03

    Saint-Clair, R$ 55,00 é merecido. O problema é que nosso poder aquisitivo não possui a mesma realidade. É por isso que muitos autores e suas obras não são conhecidos, como é o caso. Eu adoraria ler, mas não tenho condições de pagar esse preço.

  • Clarice 30/11/2006 at 11:49

    Deise,
    É que esta turma deve pensar que a gente quer comprar um livro por ano. Aí dava.

  • Flávio Rios 30/11/2006 at 16:03

    http://books.guardian.co.uk/news/articles/0,,1960617,00.html

    O link não tem nada a ver com o post, mas pelo menos é o anúncio de um importante prêmio literário “Bad sex in literacy”…

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