Jackie Kay e Carpinejar: poesia, piadas e… orgasmo

08/07/2012

Por Raissa Pascoal

A poesia abriu o domingo frio e chuvoso em Paraty, onde termina hoje a 10ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Mediada pelo jornalista João Paulo Cuenca, um dos 20 jovens autores do país selecionados entre os melhores da revista Granta, a mesa Vidas em Versos reuniu a escocesa Jackie Kay e o brasileiro Fabrício Carpinejar. Apesar de divertir o – agora já reduzido – público da tenda dos autores, a conversa não teve frescor literário. Entre leituras de textos seus, os autores falaram dos ecos entre sua vida e obra, contando histórias e piadas. Para explicar sua relação com o uso da voz, por exemplo, Carpinejar fingiu orgasmo para defender o recurso, que seria utilizado pelas mulheres para sinalizar prazer. “É uma pedagogia da sensibilidade.”

O poeta gaúcho caiu no tema orgástico depois de Jackie Kay contar como presta atenção à voz e ao jeito de falar das pessoas. “Gosto de saber como as pessoas falam, sua sintaxe, a ordem das palavras. Uma vez que eu ouço a voz de um personagem, consigo criá-lo”, afirmou a escocesa. Carpinejar então disse que é filho do ouvido, porque cresceu com muito ruído em uma casa só de mulheres. “Foi muito importante viver em uma casa em que as mulheres nunca terminavam uma conversa.”

A primeira a se apresentar na mesa foi Jackie, escritora de origem nigeriana adotada por um casal de escoceses brancos. No livro Red Dust Road, publicado em 2010 e ainda sem tradução para o português, ela narra seu primeiro encontro com o pai biológico, que ainda vive na Nigéria. “Meu pai me via como seu pecado passado e eu precisava ser perdoada. Foi uma experiência perturbadora. Eu era um segredo na vida dele e ele dizia que, se a família dele soubesse de mim, perderia a fé em Deus”, contou Jackie. Sua mãe biológica também nunca havia contado para as suas outras filhas que já havia dado uma filha para adoção. “Uma delas leu o livro e entrou em contato comigo. A obra criou capítulos extras para si mesma”, disse.

O brasileiro tomou, então, a palavra e começou um desfile de piadas. “Uma das maravilhas da minha vida foi ter nascido feio. Se as pessoas riem de mim, por que eu não posso fazer isso? Entendi que a literatura é uma arte marcial. Se alguém vier me ofender, vou dar trabalho, vou cansar, não vai sair assim tão fácil”, disse Carpinejar.

Mais tarde, o papo foi parar na morte. “Às 10 horas da manhã, isso é muito interessante. Eu não comi nem um omelete ainda. Foi algo como ‘Acorde, escove os dentes e vá falar sobre sexo e morte”, brincou Jackie, que acredita ser definida muito mais pelo que perdeu durante sua vida do que pelo ganhou. “Nossas vidas são definidas pelo silêncio e pela ausência. Escrevo muito sobre isso. Às vezes, imagino minha própria morte.” O brasileiro aproveitou o assunto para ler um poema em que faz sobre a paternidade e a saudade da filha, que morava longe. “Toda minha poética gira em torno da família.”

No final, é possível afirmar que a mesa foi divertida, mas só para quem queria uma boa desculpa para levantar da cama e ficar ouvindo histórias em uma manhã de domingo chuvosa.

2 Comments

  • Julia 09/07/2012 at 09:41

    Carpinejar é um histérico. Ele deveria ter ido na mesa do Laerte. Sim, ele falou algumas coisas legais, mas no total, foi grosso, não ouviu nada, era como se estivesse , well, sofrendo de histeria grave. Jackie Kay, com toda sua grace and manners, foi elegante, quem deveria estar com ela era o Antonio Cícero ou alguém assim, não um cara histérico. Para quem diz que superou os traumas de ser feio e etc, Carpinejar não se comportou como tal. Pareceu um menino inseguro e babaca. Ainda que , no meio de sua histeria, havia flashes de coisas belas…Sugiro que ele faça terapia ou troque de remédio. Ahh o tal do Cuenca foi um gentleman, mas, não teve como mediar o que era impossível de ser mediado.

  • Janete serralvo 10/07/2012 at 17:20

    Estive presente, posso dizer que amei a palestra de Jackie e Carpinejar…foi um domingo maravilhoso…não conhecia essa mulher inteligentissima…foi paixao a primeira vista…quanto a Carpinejar fez o publico e a todos sorrir, muito bem humorado…nota 10 para os dois…espero dias assim em 2013…

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