Juó Bananére x Mandrake

05/12/2006

Na área de comentários da nota abaixo, o leitor Felipe Lenhart lembra uma discussão que andou empolgando alguns comentaristas do Todoprosa há pouco tempo: se a literatura brasileira teve ou não teve força para produzir personagens que se tornassem ícones culturais, parte do nosso imaginário, referências para a população em geral – e não apenas para aquela meia dúzia de apaixonados por literatura. Felipe justifica sua volta ao assunto com a edição de dezembro da revista “Entrelivros”, que elege os “50 personagens que são a cara do Brasil”. E pede minha opinião. Não sei se ele se refere à minha opinião sobre a escolha da revista ou sobre a questão de termos ou não termos personagens tão fortes em nossa literatura – então comento ambas.

Minha opinião é que temos personagens emblemáticos aos montes: Macunaíma, Jeca Tatu, Emília, Capitu, Policarpo Quaresma, Diadorim, Gabriela e Iracema são alguns. A penetração social deles seria maior se não fosse contida pela grave limitação do nosso letramento, mas não faz sentido culpar os escritores por isso. Quanto à lista da “Entrelivros”, fica claro que não se trata de relacionar apenas os personagens que transbordaram dos livros para impregnar o imaginário nacional – desconfio que literatura nenhuma do mundo seria capaz de amealhar meia centena desses. Tratando-se de lista menos grandiosa, mais propriamente literária, vejo nela erros e acertos como em qualquer lista. Juó Bananére, por exemplo, só existe em São Paulo. E cadê o Mandrake, do Rubem Fonseca? Como ponto de partida para discussões, é claro que vale.

É possível ler a lista aqui, mas em versão seca: o conteúdo da reportagem não está disponível no site da “Entrelivros”.

PS em 6/12: Mandrake está na lista da “Entrelivros” impressa, mas por alguma razão desapareceu, junto com o Espinosa de Garcia-Roza, da lista publicada no site da revista. Lamento ter dado corda para a confusão, mas só hoje pus as mãos na edição de papel. (S.R.)

29 Comments

  • Henry Shinasky 05/12/2006 at 16:23

    O nosso letramento é limitado porque o livro é caro ou o livro é caro porque o nosso letramento é limitado?

    O Cebolinha e a Monica fazem parte da lista?

  • Saint-Clair Stockler 05/12/2006 at 17:57

    Henry, eu acho que é um problema puramente – ou essencialmente – cultural. O livro é caro, sim. Me dá vontade de chorar quando vejo um livro custando 70 pratas na livraria. Mas se você é um leitor, vai conseguir achar um sebo onde poderá comprar livros às vezes a 3, 4 reais (o Berinjela, aqui no Centro do Rio, é um exemplo disso). Também tem de ficar de olho: as Lojas Americanas e as Sendas estão vendendo livros novos encalhados por 9,90. Outro dia consegui achar, novinho, o “A vida breve”, do Onetti, por 9,90. Nas livrarias, tá quase 50 pratas. É uma questão de hábito, uma questão cultural. Crescemos achando que não há problema nenhum em gastar 30 ou 40 reais numa rodada de cerveja, mas é um escândalo se gastar 10 reais num livro. Minha mãe é uma das que ficam escandalizadas quando eu chego com um livro em casa. Quando digo que custou 50 reais, a casa quase cai. Pra ela, isso é um absurdo. Ela é filha do seu país, da sua época, da sua situação social. A maioria das pessoas pensa assim. Acham incrível eu dizer que já cheguei a ter uma biblioteca com 4000 livros. Mas ninguém estranha quando alguém diz que tem 50 pares de calçados ou 15 calças. Por tudo isso, acho que o problema do livro no Brasil é econômico e educacional, mas é sobretudo uma questão cultural.

  • alvaro 05/12/2006 at 19:06

    Se não me engano — não estou com a revista à mão — o Mandrake faz parte da lista, ao lado do delegado Espinosa.

  • 05/12/2006 at 21:50

    Faltou, na lista dos contemporâneos, o Zé Pequeno (ou Zé Miúdo na nova edição), talvez o personagem mais conhecido da nova narrativa brasileira contemporânea.

  • Malu 05/12/2006 at 22:35

    “Minha mãe é uma das que ficam escandalizadas quando eu chego com um livro em casa. Quando digo que custou 50 reais, a casa quase cai. Pra ela, isso é um absurdo”.

    Mas Saint Clair, R$ 50,00 ou mais por um livro é caro mesmo, se levarmos em conta o poder aquisitivo do brasileiro. E principalmente se levarmos em conta que as editoras tiveram uma gorda redução de impostos. Nos países desenvolvidos, em que o poder aquisitivo da pupulação é maior,os livros são proporcionalmente mais baratos. Aqui existe a opção de bolso, que passou a ser exclusiva de algumas editoras como a L& PM. Você encontra esses livrinhos em todos os lugares, banca de jornal, supermercado, papelaria. Ou seja, eles têm uma estratégia inteligente. Enquanto isso, outras editoras fazem livros com capa dura e papel de altíssima qualidade, que encarece os custos e produz baixas tiragens. Essas editoras querem vender livros para uma elite?
    Quanto a mim, troco a rodada de chope por um livro numa boa. E compro muito em sebo, camelô, pela internet, Bienal do Livro, Primavera dos Livros etc. Tudo por um bom preço.

  • Gregório Dantas 06/12/2006 at 08:26

    Só para responder a dúvida acima: O Mandrake está mesmo na lista.

  • Gregório Dantas 06/12/2006 at 08:27

    Quer dizer, não na lista, mas na revista.

  • Casmurro 06/12/2006 at 09:17

    Senti falta do Bentinho nessa lista.

  • Saint-Clair Stockler 06/12/2006 at 09:56

    Mas o Bentinho não é conhecido do povão, não tá no inconsciente coletivo brasileiro. A gente bem que podia incluir a Turma da Mônica nessa lista, né não? Da vovó ao netinho, todo mundo conhece. E NÃO venham me dizer que a Turma da Mônica não é literatura infanto-juvenil…

  • BCK 06/12/2006 at 10:00

    Quadrinho não é literatura. É outra arte.

  • Saint-Clair Stockler 06/12/2006 at 10:03

    Pois é, Malu: eu também sou fã da coleção de bolso da L&PM, feita com papel bom, cola de primeira, etc. Eu acho que algumas editoras, tipo a Cosac & Naify fazem, sim, livros pra elite. São livros ótimos, não dá pra discordar (dois exemplos: os livros do Bioy Casares e os do Bábel), mas são feitos pra gente rica. Eu, por exemplo, até hoje não consegui comprar nenhum livro desta editora. Estou juntando as moedinhas (acho que vou ter de fazer malabarismo no sinal ou então assassinar o porquinho) pra ver se consigo comprar o “Histórias fantásticas” do Bioy Casares.

    Aliás, eu achava que a Cosac & Naify era uma empresa de lavagem de dinheiro, porque jamais acreditei que ela desse lucros, dado o altíssimo nível das suas edições (convenhamos: quem quer ler Bábel? Ainda se fosse Sidney Sheldon…) e o preço igualmente nas alturas. Mas aí uma amiga minha escritora me esclareceu a coisa: um dos donos – não sei se o Cosac ou se o Naify – é de uma família dona de minas de diamante na África do Sul. Ele NÃO tem lucro com a editora (como eu suspeitava), mas está cagando pra isso. Ele é um apaixonado por belas edições. Torra quanto dinheiro for, sem esperar retorno, pra brincar de editora (putz, e como o cara brinca bem! Vou te contar…) Isso eu até posso entender e respeitar, mas lavagem de dinheiro com editora era uma coisa que não tava entrando direito na minha cabeça… Tipo, uma operação muito sofisticada, sabe? Não temos know how pra isso, hahaha.

  • Saint-Clair Stockler 06/12/2006 at 10:05

    Ah, não, BCK: por favor! Quadrinhos são TAMBÉM literatura. Basta ver as graphic novels. Ou então – se você estiver aqui no Rio – dar um pulo na Biblioteca da Maison de France, e dar uma folheada nas centenas de bandes déssinées que eles têm lá. Você vai sair convencido de que quadrinhos são, apesar de suas diferenças, TAMBÉM literatura.

  • Sérgio Rodrigues 06/12/2006 at 10:53

    Como ficou confuso nas mensagens aí em cima, vamos lá outra vez: o Mandrake NÃO está na lista.

  • Gregório Dantas 06/12/2006 at 11:08

    Caro Sérgio, desculpe se não fui claro: de fato, o Mandrake não está na lista do site, mas aparece na edição impressa, assim como o Espinosa do Garcia-Roza.
    Abraço.

  • Jonas 06/12/2006 at 11:11

    Acho que não tem como fugir muito dessa lista aí. Sempre rolam umas gafes – José Costa? E afinal, Mandrake está ou não? Vou comprar a revista e conferir. Senti a falta do amanuense Belmiro.

    Mas fiquei feliz de terem lembrado do Naziazeno e do Nelsinho.

  • Tamara 06/12/2006 at 11:12

    Livro caro ou é pra rico ou é pra quem compra dois livros por ano. Quem lê muito e ganha pouco é obrigado a recorrer a sebos e edições mais baratas. Sempre é possível conseguir coisas legais, exceto quando se trata de lançamentos. Eu me orgulho das bagatelas que consigo. Recentemente, por exemplo, comprei “Este lado do paraíso”, do Fitzgerald, por menos de 15 reais, numa edição bem razoável da Superinteressante. A edição da Cosac Naify, em contrapartida, sai por 55 reais. Detalhe: a tradução é rigorosamente a mesma.

  • Jonas 06/12/2006 at 11:13

    E Saint-Clair, a Cosac saiu do vermelho justamente quando começou a publicar literatura, com aquela coleção Prosa do Mundo. Até então, só publicavam livros sobre artes plásticas e arquitetura, e aí sim dava muito prejuízo.

  • Tamara 06/12/2006 at 11:14

    Adorei a menção a Eduardo Marciano nessa lista da “Entre Livros”…

  • Da Janela 06/12/2006 at 11:17

    É bom não esquecer que, sendo o Brasil um país de dimensões continentais, há que se levar em conta também a questão do regionalismo. Dependendo da região há este ou aquele personagem impregnado no imaginário popular, por exemplo: eu nunca tinha ouvido falar dos “Papangús”, da região nordeste. Como a nossa literatura é riquíssima nesses personagens…

  • Felipe 06/12/2006 at 12:23

    Legal, Sérgio! Boa discussão. Eu pedi a tua opinião sobre o conteúdo da lista, mesmo. Mas refletir sobre os motivos da pequena “penetração social” dos personagens, como disseste, é ainda mais instigante. Penso que outras formas de arte (ou suportes, como queiram chamar) ajudam bastante a popularizar os personagens da literatura. No áudio-visual, nos quadrinhos, no teatro… Menino Maluquinho, Sítio do Pica-pau Amarelo, o Capitão Rodrigo, Hoje é dia de Maria – que acaba de sair em DVD… O Sherlock Holmes não tem aquela cara que todo mundo conhece porque alguém o desenhou daquele jeito, seguindo as características descritas por Conan Doyle? Creio que, para além do preço e do letramento geral – fatores importantíssimos, sem dúvida -, a pujança e o “engajamento” do conjunto da cultura brasileira fariam com que mais personagens fossem conhecidos por todos… Mas sobre a lista… Poderiam ter aberto, assim como para a Turma da Mônica, um espaçinho pro Amigo da Onça, hein? Um abraço

  • Bernardo Brayner 06/12/2006 at 13:14

    Mandrake ESTÁ na revista, minha gente.

  • Sérgio Rodrigues 06/12/2006 at 15:57

    Caros, para esclarecer de uma vez por todas a confusão: Mandrake está na lista da “Entrelivros” impressa, mas por alguma razão desapareceu, junto com o Espinosa de Garcia-Roza, na lista publicada no site. Lamento ter dado corda pra confusão, mas só hoje pus as mãos na edição de papel. Abraços.

  • Sérgio Rodrigues 06/12/2006 at 16:05

    Ah, sim, Jonas: o amanuense Belmiro também está lá. Mas vai aí mais uma ausência notável: nem sinal da escrava Isaura.

  • BCK 06/12/2006 at 20:33

    Quadrinhos certamente têm seu valor artístico, mas acho um graphic novel bem diferente de um romance. Muitas vezes as pessoas chamam de literatura num esforço de valorizar o gênero (que sem dúvida merece valorização), mas acaba por ser uma espécie de falseamento, porque a riqueza dos quadrinhos (enquanto meio para se contar uma história) está justamente em suas diferenças quanto a outros meios.

    Eu não acho que só porque é narrativa que é literatura: cinema não é literatura, é? E também é arte, ué.

  • Flapper 06/12/2006 at 21:22

    O Fitzgerald da Cosac é bonito demais.

  • Jonas 06/12/2006 at 23:48

    Verdade, passei reto no Belmiro. Mas uai, gente do Norte? Mas o personagem é mineiro!

  • Henry Shinasky 07/12/2006 at 08:31

    Sergio, a escrava Isaura só passou para o inconsciente coletivo depois que virou novela. Neste caso, ainda vale?

    Como não consigo abrir a lista, gostaria de saber se Ana Terra está na lista.

    Caro SCS, tambem sou partidário de compra em sebos, sempre comprando uns 5 livros por ano. Tambem costumo comprar livros novos mas só pela internet, pelo Submarino, Saraiva, FNAC ou qualquer outra que esteja com preço bom.
    Como voce mora no Rio, talvez voce não conheça a Gibiteca de São Paulo. Lá encontraremos verdadeiras obras primas dos quadrinhos europeus que, duvido, alguem diga que não seja literatura.

  • Voltairine 07/12/2006 at 16:44

    Malu querida Eu tenho de concordar com o Saint-Clair Stockler, nao eh exatamente o preco que afasta as pessoas dos livros, Gente mal equilibrada sobre a linha de pobresa gasta horrores em CDs e DVDs sem dor, mas tem um chilique se tiver de pagar a mesma coisa por um livro paradidatico e xinga a escola e a professora de tudo que ha no mundo.
    Sou vaidosa e ganho muito bem, tenho montes de sapatos.Mas tambem sou leitora compulsiva e tenho um outro monte de livro. Ninguem nunca me perguntou se ja usei todos os meus sapatos mas sempre me perguntam se eu li “mesmo ” todos os meus livros
    Li os meus e os de muitas outra pessoas, nao lembro de ter usado sapatos de mais ninguem.
    Eh tudo uma questao de valores.

  • João Marcos 07/12/2006 at 20:01

    Faltou a GH, e nunca tinha ouvido falar de Heládio. Vou ler nas férias.

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial