Kafka + Kafka

28/11/2006

O acaso promove uma espécie de festival Franz Kafka (1883-1924) nas livrarias brasileiras: chegam ao mercado ao mesmo tempo dois lançamentos que trazem abordagens opostas, embora igualmente apaixonadas, do escritor tcheco. Uma é pop-cabeça e se destina a iniciantes em sua obra. A outra, papo-cabeça, só será devidamente apreciada por quem já leu tudo ou quase tudo escrito por esse atormentado judeu de Praga, um dos maiores escritores do século XX.

“Kafka de Crumb” (Relume Dumará, tradução José Gradel, 176 páginas, R$ 34,90) é uma parceria do famoso desenhista de Fritz the Cat com o escritor David Zane Mairowitz. O título original do livro, Introducing Kafka, deixa clara sua intenção: apresentar ao leitor em linhas gerais o universo do autor, um mundo entendido aqui como mistura de vida, contexto histórico-cultural e obra. Assim, a pequena biografia ilustrada de Franz é entremeada de breves adaptações simplificadas de seus principais livros.

Apontar o dedo em riste para o que tem de superficial um livro desse tipo seria fácil, mas tolo. “Kafka de Crumb” é saboroso até para kafkianos cascudos. Parte de seu mérito funda-se no texto de Mairowitz, que consegue ser sucinto e didático sem subestimar a inteligência do leitor. Mas o trunfo maior está mesmo no traço sujo de Crumb, que é fiel a Kafka, com seu desespero entre o sombrio e o cômico, e ao mesmo tempo o trai, enchendo de detalhes cênicos uma narrativa que, como poucas, é feita do essencial. Mesmo esse descompasso, porém, acaba por ser adequado ao seu modo: não é o estranhamento o principal efeito que se abate sobre o leitor de Kafka, afinal?

No outro extremo do arco da ambição intelectual situa-se o livro “K.”, do editor e crítico italiano Roberto Calasso (Companhia das Letras, tradução de Samuel Titan Jr., 296 páginas, R$ 46,00). Belamente escrito mas seco, sem o conforto dos vôos de especulação e das imagens de apoio que colorem os ensaios sobre literatura de autores como Umberto Eco e Alberto Manguel, o livro de Calasso pega Kafka pelo pé (da letra) e não larga mais, buscando o sentido profundo, vírgula por vírgula, daquilo que o autor escreveu. Detém-se sobretudo em “O processo” e “O castelo”, narrativas protagonizadas pelo K. do título (no caso do primeiro, Josef K.), mas não desdenha outros livros, cartas ou diário.

Calasso segue à risca a recomendação de Elias Canetti reproduzida no quinto capítulo de seu livro: “Há escritores, bem poucos na verdade, que são tão inteiramente eles mesmos que qualquer declaração que se arrisque a seu respeito deve soar como uma verdadeira barbárie. Kafka foi um autor desse tipo, e, correndo o risco de parecermos pouco independentes, não podemos deixar de ater-nos com máximo rigor às suas próprias declarações”. Pois “K.” é isso: Kafka comentando Kafka, com Calasso em papel semelhante ao de médium. Um belo livro.

15 Comments

  • Renato 28/11/2006 at 00:09

    não seria o gato Fritz ao invés de Félix?

  • Romeu Martins 28/11/2006 at 00:18

    Por favor, por favor, corrija o nome do gato, de Félix para Fritz.

  • Sérgio Rodrigues 28/11/2006 at 08:30

    Caramba, essa foi espetacular. Está consertado, senhores, e desculpem o cochilo. Só faltou convidar a Betty Boop para a era do sexo, drogas e rock’n’roll – ela iria correndo, claro. Espero que a Suípa não me processe por arrastar o ingênuo Felix para esse mundo.

  • Mr. Ghost Writer 28/11/2006 at 12:22

    Kafka é sempre bem vindo… que hajam duas, três, quatro, mil publicações sobre Kafka…

  • Almanaque Abril 28/11/2006 at 12:31

    Os últimos três posts tiveram 11 comentários.

  • fat james 28/11/2006 at 16:04

    Crumb é genial. Vou ter

  • fat james 28/11/2006 at 16:04

    continuando: vou ter que conferir esse livro. Valeu a dica!

  • Francisco Campos 28/11/2006 at 18:52

    Crumb & Kafka? Só pode dar coisa boa…

  • Paulo 29/11/2006 at 11:05

    “kafkianos cascudos” :-)

  • Marco Polli 29/11/2006 at 12:33

    Escrever sobre Kafka já é quase um subgênero. De cabeça, lembro-me de:

    “Um amigo de Kafka”, conto de Isaac Singer.

    “Os leopardos de Kafka” de Moacyr Scliar

    “Kafka vai ao cinema” de Hanns Zischler

    e “Kafka on the shore” de Haruki Murakami,

    além, é claro, da banda Inimigos do Rei cantando “Vem Kafka comigo”.

  • Maurício 29/11/2006 at 16:27

    Vamos ao 11º comentário.

  • Daniel Brazil 30/11/2006 at 00:09

    Kafka é um barato!
    (Essa é do arco da velha…)

  • Daniel Brazil 30/11/2006 at 00:10

    Falando nisso:
    Ô Sérgio, de onde vem o arco da velha?

  • Denny Yang 30/11/2006 at 10:13

    Coloquei uma citação de memória que Kafka escreveu em seu diário no meu blog recentemente… interessante, ele diz:

    “A Alemanha invadiu a Polônia.
    Jogo de tênis as 15 horas”

  • Angela Moss 30/11/2006 at 10:37

    Caro Sérgio e leitores deste blog,
    existe um blog muito interessante chamado “opinião popular”. Leiam os posts e os comentários. Não deixem de ler os comentários. É hilário!!!!
    Kafkaniano perde….

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