Lúcio Cardoso: ‘Dias perdidos’

10/06/2006

Se, como disse o poeta W.H. Auden, alguns escritores são injustamente esquecidos mas nenhum é injustamente lembrado, o mineiro Lúcio Cardoso (1913-1968) está no primeiro caso. A crítica, mesmo acometida de alguma miopia e oscilando ao sabor dos modismos acadêmicos, acabou, de modo geral, por lhe reconhecer um lugar original na literatura brasileira do século 20. A falta de apetite do público, porém, não faz justiça às suas qualidades. E Lúcio Cardoso não é propriamente um escritor “difícil”. Sombrio, torturado, doentio, por vezes aterrador, sim – mas desde quando esses adjetivos, apregoados orgulhosamente em edições de terror, afugentam leitores? A boa notícia é que as obras de Lúcio vêm sendo relançadas com método nos últimos anos. Depois de “Crônica da casa assassinada”, “O desconhecido e mãos vazias”, “Inácio, o enfeitiçado e Baltazar”, “Luz no subsolo” e “Maleita”, é a vez de “Dias perdidos” (Civilização Brasileira, 406 páginas, R$ 60,90), lançado em 1943, que chega às livrarias no próximo dia 20. Há muitos anos esse romance triste e algo convencional sobre duas gerações de amor infeliz – entre Clara e Jaques e entre Sílvio e Diana – andava sumido. Visto pela última vez no catálogo da Nova Fronteira, precisava ser caçado em sebos. Não chega perto da grandeza de “Crônica da casa assassinada” (1959), mas isso não é novidade: nenhum livro de Lúcio e poucos de outros autores ousariam tanto. Se o trecho abaixo servir para conquistar leitores para o autor mineiro, convém lembrar que “Crônica…” vem primeiro. Sempre. Depois, vale conferir “Dias perdidos” também.

Quando Áurea lhe entregou aquele pequeno ser que respirava dentro de um amontoado de flanelas, sentiu o coração confranger-se numa súbita piedade.

– Não está passando muito bem – avisou a amiga, justificando as pesadas roupas em que enrolara o pequeno. Durante alguns segundos Clara sondou as pequenas pupilas onde nenhuma emoção se refletia, sentindo um vago receio aflorar-lhe à consciência. Não devia ter abandonado o filho, ainda estava muito pequeno para ser confiado a estranhos. Era verdade que Áurea… Mas uma criatura daquela idade pertence exclusivamente à mãe. Talvez acontecesse alguma coisa grave, para castigo da sua imprudência. E de repente, com aquele frágil ser entre as mãos, percebeu como era fácil perdê-lo, como a sua respiração parecia leve, como era franzino e delicado! Era visível que não chegaria a crescer, que nunca passaria daquilo. E depois? Lembrou-se da sua solidão, das noites que teria de passar sozinha, das janelas que teria de fechar, uma a uma, antes de se recolher ao leito. Então apertou a criança contra o peito, num transporte, exclamando baixinho: “Meu filho, meu filho!” Quis saber como tinham aparecido os primeiros sintomas, se chorava à noite, se Áurea tomara todas as providências. E, aos detalhes da amiga, impacientava-se, achava que ela devia ter feito exatamente o contrário, que nada daquilo teria acontecido se estivesse perto. A outra, tímida, apertava a bolsa entre as mãos, sem saber o que alegar, sentindo que realmente devia ser culpada nalguma coisa. Mas no íntimo admirava-se daquele ardor, ela, que até agora só tinha visto Clara indiferente ao que se relacionava com o filho.

Logo que chegaram, Clara mandou preparar um banho quente, fazendo questão de despir a criança, de ministrar-lhe ela própria todos os cuidados. Fazia tudo de um modo um pouco febril, como se estivesse reparando uma falta cometida. Depois do banho aconchegou de novo a criança sob as flanelas, acalentou-a, passeando de um lado para outro, procurando rememorar as canções que sabia. O pequeno custava a adormecer, choramingando sob as cobertas abafadas. A um canto, muda, Áurea seguia atentamente os movimentos da companheira. Não ousava interromper, não ousava falar, convicta de que Clara jamais poderia errar. Sempre tinha sido assim, nada mais era do que uma sombra da outra, uma espécie de criada, atenta, obscura, quase ansiosa em torno dos seus movimentos. E isto começara no tempo em que eram meninas, quando Áurea, para agradar a Clara, sacrificava os seus brinquedos, oferecendo-os à companheira. Muitas vezes Clara fazia-se cruel, atravessava dias inteiros sem lhe dirigir a palavra, enquanto Áurea, silenciosamente, aguardava que todo aquele mau humor passasse. Não tinha vontade própria, a amiga fazia dela o que bem entendia. E tinham crescido assim. Áurea era feia, sem graça, despida de toda vaidade. E Clara repartia com ela suas próprias preocupações, transferindo para a existência vazia da outra, onde não surgira nenhum amor de homem, um pouco da sua própria desordem.

No momento em que Clara colocou o pequeno na cama, verificou que ele tinha febre. Uma nuvem passou pelos seus olhos. Afinal, era bem possível que desta vez os pressentimentos não a enganassem. Reteve a respiração, debruçou-se de novo, procurando verificar se não se tinha enganado. Mas não, Sílvio estava extraordinariamente vermelho, seu sono era agitado. Clara pôs-se a passear pelo quarto, imaginando algum recurso, tentando se acalmar, procurando agir sem precipitação. Não seria melhor telegrafar a Jaques? E semelhante idéia causou-lhe de repente uma intensa, dolorosa alegria. Chegou a estudar a forma em que redigiria o telegrama: “Venha. Sílvio passando mal.” Entretanto, voltando para junto do filho, teve vergonha dos próprios pensamentos. Até aquele instante, inconscientemente, nada fizera senão armar nova cilada para atrair o marido. E que loucura, como ainda podia pensar em Jaques, com o filho ardendo em febre? Mais uma vez teve vergonha daquele amor que teimava em viver no fundo da sua alma, inabalável, doentio como uma chaga. Resolveu então que fecharia inteiramente os olhos ao passado, que se entregaria de corpo e alma ao filho doente. Mas de novo a dúvida surgia na sua consciência: talvez estivesse exagerando, talvez fosse um mal passageiro, uma simples irritação. Voltou a se debruçar sobre o filho e reparou que a respiração do pequeno era difícil como a de uma pessoa cujos pulmões estivessem gravemente comprometidos. Não hesitou mais: pediu a Áurea que ficasse junto do filho enquanto ela ia chamar um médico. O diagnóstico foi rápido: pneumonia. Naquele momento ela compreendeu que na realidade todas as outras coisas recuavam, desapareciam como se tivessem sido tragadas por um vento sobrenatural. Nada existia senão aquele pequeno ente que sofria por sua culpa. E as acusações, até aquele minuto indistintas na sua consciência, cresceram de vulto, ganharam formas, fixaram-se com indestrutível realidade: com certeza Áurea não o agasalhara direito, era possível que tivesse esquecido uma janela aberta ou que o tivesse deixado com as roupas molhadas. E às recomendações que o médico lhe fizera, prestou uma tão angustiada atenção que este acabou por lhe aconselhar que não se preocupasse muito, pois o caso parecia não apresentar gravidade. Concluíra dizendo que era bom não emprestar aos fatos maior importância do que realmente possuíam.

Mas Sílvio piorou desde aquele instante, e Clara sentiu-se inteiramente desnorteada. Aquilo pareceu-lhe de repente não um simples castigo por leviandade cometida, mas obscura e terrível advertência. Na verdade, sua vida até agora nada tinha sido senão um longo mergulho no esquecimento e no pecado.

11 Comments

  • Writing Ghosts 10/06/2006 at 05:15

    nossa… tocante. ainda não li “Casa Assassinada”, gostei da indicação – será minha próxima aquisição (no momento me entrego, desavisado das tantas comemorações a respeito, a uma das obras máximas da nossa literatura: o Sertão de Rosa).

    …e porque não comentar? então: seria altamente improvável que a escritora inglesa citada no artigo anterior alcançasse destreza minimamente similar (guardadas as diferenças de gênero, mesmo assim). então louvá-la tendo por base apenas o espectro de ‘retorno’ de público fica mesmo muito forçado…

  • sonho bom 10/06/2006 at 19:23

    Meio triste. Não sei se consigo.
    Estou curiosa para saber :
    Sérgio Rodrigues, vc. consegue ler o que não o atrai? Vc. já levou muito tempo, mais que o normal, para terminar de ler um livro?
    Perguntar não ofende, não é mesmo?

  • Sérgio Rodrigues 10/06/2006 at 21:23

    Já levei muito tempo para ler um livro, sonho. Já abandonei um monte pelo meio também, depois que perdi (há muito tempo) o pudor de fazê-lo. Os bons livros são numerosos demais, e nosso tempo muito curto, para que a gente perca horas e horas com quem não vale a pena. O que às vezes faço é dar uma segunda chance a certos livros que abandonei um dia, por levar em conta que muitas coisas podem prejudicar a leitura, e às vezes o problema pode estar mais em que lê, em sua impaciência, num mau dia, sei lá, do que no texto. Mas admito: contam-se nos polegares os livros que melhoraram nessa repescagem. Hoje, leitura pouco atraente, só se for profissionalmente inevitável. Respondi sua pergunta?

  • Peter Blake 10/06/2006 at 22:01

    Sérgio, não diz respeito à esta nota especificamente, mas é um abuso tão grande e eu não sei quem procurar. Aqui vai:

    Motivado pela sua nota anterior foi buscar Ian McEwan no site da Cultura. O incrível é que em inglês (livro importado, por suposto) é mais barato que a edição brasileira. Em alguns casos bem mais barato.

    Aqui vai uma campanha pra quem acha que literatura serve pra alguma coisa prática: LIVRO É CARO PRA CARACO! LIVRO NO BRASIL E´AINDA MAIS CARO!

  • Antônio Augusto 11/06/2006 at 09:31

    Gostaria de ver reeditada uma novela de Lúcio Cardoso, “A professora Hilda”.
    Quando era criança, na primeira metade dos anos 60, o livro já estava esgotado há muito. Existia um exemplar na biblioteca de meu pai. Ele me recomendou que não o lesse. Compreensível, entre outras coisas, o final é capaz de impactar fortemente uma criança. Após algumas hesitações, li a novela na primeira oportunidade.
    Sem precisar ir à Biblioteca Nacional, gostaria desse reencontro com Lúcio e emoções da minha infância.

  • sonho bom 11/06/2006 at 18:41

    Oi, Sérgio. Agradeço sua delicadeza, ao responder minha pergunta. A minha leitura é um pouco aleatória, altamente indisciplinada e nervosa (qto. ao desenrolar e à finalização). Daí a curiosidade de saber como acontece com leitores, como vc, tão conhecedor do assunto. Meus agradecimentos por sua resposta, tão completa e paciente.
    Um grande ab. fraterno.

  • Carlos 11/06/2006 at 19:57

    Faço uma confusão aqui nesta parte do site, com ocomeço de texto sempre em itálico (o texto é seu, certo?)… e embaixo, é um trecho do livro? (Eu, burro.) Ou estou totalmente errado?

  • Writing Ghosts 13/06/2006 at 03:28

    Carlos:

    …o texto em itálico é do Sérgio; o seguinte, em caracteres ‘normais’, é a transcrição de excerto do livro.

    geralmente vejo o contrário, mas o itálico, se ajuda a distinguir o autor das linhas (neste caso), ao mesmo tempo traz legibilidade inferior ao caracter normal. O Sérgio então optou (creio) por privilegiar o texto do livro, em detrimento de seu comentário.

  • Sérgio Rodrigues 13/06/2006 at 09:46

    Carlos, o Peter Blake já havia estranhado o mesmo que você. Talvez eu deva repensar. A idéia foi exatamente essa, Writing Ghosts. O Primeira Mão é a única seção em que o autor é o convidado, não eu; ele escreve muito e eu pouco – por isso vou em itálico. Mas parece que não está funcionando muito bem, não é?

  • Valeria 15/06/2006 at 10:56

    Grande Lúcio! Recomendo a todos a leitura de Maleita, seu primeiro livro, escrito aos 24 anos e com grande firmeza, talento e paixão.

  • jorge goya 26/01/2007 at 20:02

    seria bom que dispusessem o trecho do livro maleita

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