‘Lean back’, moçada, e leia: é a nova moda

09/04/2012

Lean Back 2.0 – updated February 2012

O link acima abre uma apresentação de slides feita há menos de dois meses por Andrew Rashbass, presidente do grupo “The Economist” (em inglês). Para quem tiver paciência de aguentar um certo visgo Powerpointilhista de embromação corporativa, ela traz algumas ideias novas e surpreendentes – numa palavra, revolucionárias – sobre os padrões de leitura online na segunda década do século 21. “O velho é novo de novo”, afirma um dos quadros. O que isso quer dizer?

Resumindo, trata-se da constatação de que, após um período em que a leitura online foi feita basicamente em desktops e laptops, estamos entrando de modo resoluto na era do tablet, que – eis a tese, sustentada por pesquisas e tendências já visíveis de comportamento – muda tudo: daquilo que já se convencionou chamar de Lean forward para Lean back 2.0.

Lean forward, para quem não sabe, faz referência à posição do corpo do internauta diante da máquina, inclinado sobre ela: é uma postura ativa que favorece o compartilhamento de informação, a navegação nervosa de link para link e o vaivém da atenção entre texto e vídeo, por exemplo.

Lean back 2.0 – e agora a inclinação é para trás, em posição de relaxamento – nomeia o modo de ler no tablet. Este, descobre-se, parece inibir o compartilhamento e estimular mais o consumo de textos de fôlego longo que o de vídeos, lembrando o antigo modo de ler jornais e livros. O que explica a tirada de que o velho voltou a ser novo, além de justificar o acréscimo de um já batido “2.0” à expressão Lean back, para garantir que ninguém confundirá uma coisa com a outra.

A tendência se faria acompanhar, segundo os estrategistas da “Economist”, do surgimento de um novo público, interessado em consumir um novo tipo de produto cultural que rompe com o velho esquema bipolar “de prestígio” x “de massa” – uma turma numerosa, mas de gosto exigente, interessada em qualidade e detentora de uma característica inteiramente nova chamada “inteligência de massa”. “O inteligente é o novo cool”, diz outro dos slogans salpicados na apresentação.

Pode ser só uma aposta equivocada, claro. Não seria a primeira desde que o Vale do Silício transformou todo mundo em futurologista. No entanto, se as expectativas que vão se agrupando no pacote Lean back 2.0 tiverem um fundo de verdade (e a “Economist” é tudo menos boba), poucas vezes teremos visto uma notícia tão boa para a literatura, que sempre foi o território por excelência da inteligência de massa – ou, pelo menos, a sementeira que nunca deixou essa ideia morrer.

Seria lindo ver a tecnologia – logo ela, quem diria – reduzir finalmente a pó a ideia arcaica, mas ainda influente em certos círculos acadêmicos, de que a literatura se divide entre uma elite experimentalista ilegível e uma massa anencefálica de produtores de entretenimento.

Qualquer mudança nesse campo vai chegar ao Brasil com dez anos de atraso, é verdade. Mas vale a pena ficar de olho.

17 Comments

  • Regiane 09/04/2012 at 17:24

    Bem que tento ler em meu iPad,mas logo me canso, me da dor de cabeça,sono etc…..Nao sei se acontece somente comigo, mas ainda prefiro o modo antigo, folhear pagina por pagina por enquanto. Sorry

  • zok 09/04/2012 at 18:57

    o tablet tem-se mostrado excelente para textos curtos – e-mails, notícias, blogs, redes sociais, áudios, u-tube, etc.
    para enfrentar um livro o e-reader parece a melhor solução. até, ou sobretudo, por sua extrema singeleza – francamente monacal.
    não bastasse a tela e a leveza (um kindle 4 pesa menos da metade de um ipad 4G), deve-se considerar sua capacidade de proteger e auxiliar o leitor na concentração, já que não conta com as facilidades do tablet para o continuado diversionismo.

  • André Alvarez 09/04/2012 at 19:32

    Interessante, Sérgio. Mas me parece muito mais torcida que diagnóstico. O tipo de análise que se constrói de trás pra frente para justificar uma conclusão desejada a priori.

    • sergiorodrigues 09/04/2012 at 19:44

      André, eu concordaria com você – mesmo porque parece bom demais para ser verdade – se fosse só o pitaco de um analista acadêmico. Mas uma empresa de comunicação da competência da Economist está redefinindo seu posicionamento estratégico em cima disso, esses caras não brincam em serviço, então acho que convém ir com calma. No mínimo. Um abraço!

  • Jacques 09/04/2012 at 20:10

    O que é um texto longo? um livro de 600 páginas ou os artigos de fundo do Economist? Alguém ai abaixo disse tudo: o tablet é pra coisa curta, é pesado e carissimo para a finalidade. Viva o Kindle e seus primos. Tenho um dos primeiros e estou querendo um novo por causa do zoom nos pdf’s, que no meu não existe.

  • santanowiski-SP 10/04/2012 at 05:12

    O que significa o seguinte trecho do primeiro parágrafo dessa prosa toda: “(…) um certo visgo Powerpointilhista de embromação corporativa (…)?

  • Carlos Chyla Neto 10/04/2012 at 07:27

    Eu voltei a ler mais após adquirir um iPad.
    Concordo com o autor que os tabletes favorecem a leitura.

  • Felipe 10/04/2012 at 08:29

    ” – uma turma numerosa, mas de gosto exigente, interessada em qualidade e detentora de uma característica inteiramente nova chamada ‘inteligência de massa’”.

    Não sei se numerosa a ponto de chegar às “massas”, mas aguardemos.

  • Samanta 10/04/2012 at 09:56

    Concordo com zok – tablet e e-reader são coisas muito diferentes. Ler ‘A Guerra dos Tronos’ em papel foi difícil por causa do peso do volume, acreditem! Por isso estou lendo o segundo no Kindle e posso dizer que é muito prazeroso! Tablet é um ‘computador de barriga’, pra ler emails e passear no Facebook e YouTube sem precisar esquentar as coxas com o laptop ou ir pra mesa do computador. Não vejo a hora em que as editoras brasileiras se acertem com a Amazon para eu ter livros em português no meu e-reader!

  • Ricardo 10/04/2012 at 11:40

    O que eu sei é que quando eu to lendo uma revista no IPAD fico irritado com as paginas indo para baixo, com textinho rolando e infograficos escondidos, prefiro as que são PDF que se assemelhão com a impressa, onde eu viro a pagina para continuar lendo. Eu desisti da veja no ipad por conta dessa frescurada que eles fazem.

  • Eliane Parnagua 10/04/2012 at 17:58

    Nem precisei abrir o “powerchatopoint” excelente matéria. Com duas ressalvas: vai chegar rapidamente ao Brasil, e sairá mais rápido ainda, como qualquer uma das 1200 tendências “webanas”…

  • Antonio Villas 11/04/2012 at 10:05

    Poxa! Os comentaristas, aqui desta matéria, estão de parabéns. Linguagem correta, polida e opiniões ponderadas. O tema (naturalmente) atraiu gente pensante e reflexiva. Fiquei profundamente satisfeito. Esperemos que a tecnologia sirva para levantar ainda mais uma cultura consistente.

  • Ataliba 11/04/2012 at 13:18

    Devo está ficando velho, pois estou achando que isto tudo não passa de modismo, eu, sequer, algum dia pensei em deixar de lado o velho e bom cheiro de papel(velho ou novo tanto faz).

  • patricia m. 11/04/2012 at 21:46

    Concordo com alguns comentaristas abaixo, o tablet eh bom mas para leitura de livros o Kindle eh superior. Um e-reader eh um e-reader, um dispositivo especifico para a leitura como diz o nome. Portanto bem melhor que os tablets. Eu tenho os 2: uso o Kindle para leitura e o tablet para Facebook e internet. O laptop foi praticamente aposentado.

  • Francisco Ivantes 13/04/2012 at 14:19

    Exatamente o que esta acontecendo comigo. Virei tabletaholic.

  • mameluco 15/04/2012 at 08:32

    Bacana a tecnologia, mas não há nada como folhear um livro novo, e poder marca-lo para alguns mais tarde reavalia-las. Talvez com a tecnologia a literatura possa enfim libertar os “homens massa”.

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