Lendas etimológicas: Sincero

18/07/2009

Recebo o seguinte texto “inspirador”, que circula como corrente na internet:

A palavra SINCERO foi inventada pelos romanos. Eles fabricavam certos vasos de uma cera especial. Essa cera era, às vezes, tão pura e perfeita que os vasos se tornavam transparentes.

Em alguns casos, chegava-se a se distinguir um objeto – um colar, uma pulseira ou um dado –, que estivesse colocado no interior do vaso.

Para o vaso assim, fino e límpido, dizia o romano vaidoso:

– Como é lindo!!! Parece até que não tem cera!!!

“Sine cera” queria dizer “sem cera”, uma qualidade de vaso perfeito, finíssimo, delicado, que deixava ver através de suas paredes e da antiga cerâmica romana. O vocábulo passou a ter um significado muito mais elevado. Sincero é aquele que é franco, leal, verdadeiro, que não oculta, que não usa disfarces, malícias ou dissimulações.

O sincero, à semelhança do vaso, deixa ver através de suas palavras os verdadeiros sentimentos de seu coração.

Estilo açucarado à parte, essa história de vaso fino tem lá sua beleza, não tem? Infelizmente, tudo indica ser uma daquelas lendas muito comuns na etimologia, baseadas em semelhanças fortuitas de som e sentido. Muitas vezes (embora não seja o caso aqui), os mal-entendidos se incorporam à história da palavra e mudam seu curso – dá-se ao fênomeno o nome de etimologia popular. “Floresta”, por exemplo, veio do francês antigo forest (hoje forêt) e só não virou “foresta” porque o pessoal achava que a palavra tinha alguma coisa a ver com “flor”. Não tinha. Agora tem.

A verdadeira origem de “sincero”? Provavelmente, a junção dos elementos latinos sim (um só) + cerus (que cresce, se desenvolve): aquilo que tem desenvolvimento único, sem bifurcações, sem surpresas; reto, íntegro.

Tem muito menos graça, pois é.

Texto publicado no NoMínimo em 21/1/2005.

5 Comments

  • Ricardo Casaca 18/07/2009 at 11:15

    Caro Sérgio, por vezes, a vida precisa de um pouco de poesia… Mesmo que essa venha de alguma galhofa.

    Um abraço e bons ventos na vida.

    Ricardo Casaca

  • JH 19/07/2009 at 02:00

    Eis tudo: o falso étimo quase sempre tem mais charme. Por isso prospera.

    Como os vigaristas, talvez (uma idéia rodrigueana, embora ele falasse de canalhas fascinantes, mas creio que seja o mesmo)…

  • Carlos Saraiva 19/07/2009 at 11:27

    Vasos de cera?? Os romanos eram um povo, antes de tudo, prático. Um vaso de cera- e segundo o texto, finíssimo-não serviria para guardar absolutamente nada, pois um líquido ou um sólido o deformariam. e nem como decoração, pois o calor o deformaria ou derreteria.Tão ridículo quanto o laptop grátis da Nokia ou o cheque do Bill Gates.

  • gilvas 20/07/2009 at 13:34

    lembrei do humberto gessinger, que cunhou aquela letra que começava com “prá ser sincero não espero de você mais do que educação…” não que ele tenha algo a ver com cera ou spam, mas ele era melífluo de um jeito que a adolescência merece.

  • Nilton 29/07/2009 at 20:45

    Caro Sergio,

    E a historia da origem do nome Montevideo (Monte VI de Este a Oeste), será que é verdade? Ou é lenda?

    Abraço

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