Leonardo Sciascia: ‘A cada um o seu’

20/07/2007

sciascia.jpgO grande escritor siciliano Leonardo Sciascia (1921-1989) andava negligenciado pelas editoras brasileiras há alguns anos. Terá saído de moda a literatura engajada, sempre às voltas com temas políticos, de um escritor que acabaria mesmo se lançando na política partidária – inicialmente pelo PCI e depois pelo Partido Radical? É possível. Quantos leitores jovens saberão sequer que seu sobrenome é pronunciado Xaxa ? Seja como for, essa ausência temporária torna ainda mais digno de comemoração o lançamento do romance “A cada um o seu” (Alfaguara, tradução de Nilson Moulin, R$ 26,90, 136 páginas).

Na superfície, trata-se de uma história policial de leitura compulsiva, curta e seca, imperdível para os fãs do gênero. Mas basta cavar um palmo para encontrar um estudo penetrante e uma denúncia feroz da lógica mafiosa, com sua rede de silêncios, corrupção e violência – tema em que o autor não tem rival. Lançado na Itália em 1966, “A cada um o seu” traz Sciascia em grande forma e em dose concentrada.

A carta chegou com a entrega da tarde. O carteiro apoiou antes no balcão, como de costume, o maço colorido dos folhetos de propaganda; depois, com cuidado, como se houvesse perigo de vê-la explodir, a carta: envelope amarelo, e colado nele um pequeno retângulo branco com o endereço impresso.

– Não gosto desta carta – disse o carteiro.

O farmacêutico ergueu os olhos do jornal, tirou os óculos; perguntou:

– O que foi? – incomodado e curioso.

– Estou dizendo que não gosto desta carta. – No mármore do balcão, empurrou-a com o indicador, lentamente, para o farmacêutico. Sem tocar nela, o farmacêutico inclinou-se para observá-la; levantou-se, voltou a pôr os óculos, observou-a de novo.

– Por que não gosta?

– Foi postada aqui, ontem à noite ou de manhã cedo; e o endereço foi cortado de um papel timbrado da farmácia.

– É – constatou o farmacêutico, e encarou o carteiro, constrangido e inquieto, como se esperasse uma explicação ou uma decisão.

– É uma carta anônima – disse o carteiro.

– Uma carta anônima – repetiu o farmacêutico. Sequer a tinha tocado, mas a carta já lacerava sua vida doméstica, caía como um raio, reduzindo a cinzas uma mulher não bonita, meio opaca, um tanto desmazelada, que, na cozinha, preparava o cabrito que ia pôr no forno para o jantar.

– Aqui, a mania das cartas anônimas não acaba – disse o carteiro. Tinha deixado a bolsa numa cadeira e se apoiado no balcão: aguardava que o farmacêutico decidisse abrir a carta. Ele a entregara intacta, não a abriu antes (com todas as precauções, é claro), confiando na cordialidade e ingenuidade do destinatário: “Se abrir e for um caso de chifre, não vai me dizer nada; mas se for uma ameaça ou coisa diferente, aí ele me mostra.” De qualquer jeito, não ia embora sem saber. Tinha tempo.

– Uma carta anônima para mim? – indagou o farmacêutico, depois de um longo silêncio, pasmo e indignado no tom, mas aterrorizado na aparência. Pálido, olhar perdido, gotas de suor no lábio. E, mais do que a curiosidade vibrante que o paralisava, o carteiro partilhou o estupor e a indignação daquele bom homem, de coração aberto; alguém que, na farmácia, vendia fiado a todos e, no campo, nas terras que recebera como dote da mulher, deixava os camponeses à vontade. Nunca havia escutado, ele, o carteiro, nenhuma maledicência que envolvesse a senhora.

De estalo, o farmacêutico se decidiu: pegou a carta, abriu-a, desdobrou a folha. O carteiro viu aquilo que esperava: uma carta escrita com palavras recortadas de um jornal.

O farmacêutico bebeu de um só gole o cálice amargo. Duas linhas, só.

– Escute, escute – disse, aliviado, quase contente. O carteiro pensou: “Nada de chifres.” Perguntou:

– E aí, é uma ameaça?

– Uma ameaça – confirmou o farmacêutico. Passou-lhe a carta.

O carteiro pegou-a rapidamente e leu em voz alta:

– “Esta carta é sua sentença de morte, você vai morrer pelo que fez.” – Tornou a fechá-la e colocou-a no balcão. – É uma brincadeira – disse, e acreditava mesmo nisso.

– Acha que é brincadeira, então? – perguntou o farmacêutico, com uma ponta de ansiedade.

– E o que mais pode ser? Uma brincadeira. Há gente que procura sarna para se coçar e começa a fazer coisas como esta. Não é a primeira vez. Até por telefone fazem isso.

– É – disse o farmacêutico –, já me aconteceu. Toca o telefone, de noite, vou atender e é uma mulher perguntando se perdi um cachorro, pois ela havia encontrado um azul-celeste e rosa, e alguém lhe disse que era meu. Trotes. Mas agora é uma ameaça de morte.

– É a mesma coisa – afirmou o carteiro, convicto.

Pegou a bolsa e foi saindo.

– Não fique pensando nisso – disse, se despedindo.

– Não estou pensando – disse o farmacêutico, e o carteiro foi embora. Mas pensava.

21 Comments

  • Tibor Moricz 20/07/2007 at 16:07

    Gosto muito dessas histórias. E o trecho foi bastante instigador. Pre-ci-so ler es-se li-vro…(Tibor torcendo os dedos da mão, sem conseguir conter a ansiedade).

  • Sérgio Karam 20/07/2007 at 16:38

    Há alguns anos li “Majorana desapareceu”, do Sciacia, editado pela Rocco. Uma história espetacular, envolvendo um grande cientista. Na época já tinha saído “Em busca de Klingsor”, do mexicano Jorge Volpi, também uma história envolvendo físicos, bomba atômica e coisas do gênero. Foi bacana ler os dois livros na mesma época. O Sciascia é foda: hiper-econômico, não tem nada sobrando ali.

  • Sérgio Karam 20/07/2007 at 16:40

    Só esqueci de dizer: que bom que saiu outro livro dele no Brasil. Aqueles da Rocco a gente ainda consegue encontrar nos sebos.

  • Valéria 20/07/2007 at 18:41

    Sérgio Karam, vc é o Sérgio do Diário do Sul?

  • Valéria Lamego 20/07/2007 at 19:00

    Nunca li o Leonardo Sciascia (1921-1989)… colocarei na minha estante!

  • Sérgio Karam 20/07/2007 at 20:42

    Sim, Valéria Lamego, sou eu mesmo. Há quanto tempo! Como vai você? Olha, meu e-mail é sbkaram@uol.com.br. Escreva mandando notícias. Beijo, Sérgio.

  • clara lopez 21/07/2007 at 21:36

    Sérgio, eu sei que seu blog é de e sobre literatura, mas não parece estranho que uma tragédia como a que ocorreu na última semana no país não tenha merecido qualquer comentário nessa comunidade de leitores? Será que para falar de literatura precisamos necessariamente nos alienar do entorno, não ver, não ouvir, não lamentar, não nada? Somos todos Mephistos por aqui?

  • Sérgio Rodrigues 21/07/2007 at 22:54

    Clara, não vejo sentido na sua estranheza. Podia ter rolado uma nota (A palavra é… “top-top-top”, quem sabe) ou comentário solto, mas isso não tem nada a ver com alienação. Duvido que falte a qualquer leitor deste blog um monte de canais públicos ou privados para manifestar sua dor com aquela desgraça.

  • Daniel Brazil 21/07/2007 at 23:18

    É isso, Sérgio. Aviões explodem no jornal, na TV, no rádio, nas conversas, no elevador, no táxi. Saturados, lembramos que o mundo não é feito só de desgraças, e lemos também a página de esportes, o canal de filmes, o blog de literatura.
    Clara, porque contaminar tudo com a tristeza? Cada coisa em seu lugar, na sua hora. O mundo não é só uma coisa de cada vez, mas tudo ao mesmo tempo. Aqui, é literatura (quase sempre).

  • clara lopez 22/07/2007 at 12:08

    Certo, aceito as observações de ambos.

  • Bemveja 23/07/2007 at 07:25

    “Terá saído de moda a literatura engajada, sempre às voltas com temas políticos, de um escritor que acabaria mesmo se lançando na política partidária – inicialmente pelo PCI e depois pelo Partido Radical?”

    Quem dera esse horror chamado “literatura engajada”, que ainda assola os rincões intelectuais do mundo feito o Brasil, já tivesse sido superado. Cidade de Deus e Estação Carandiru, embaixo do verniz, são o quê?
    Dito isso, Leonardo Sciascia é um excelente escritor, cuja economia de linguagem pode conter uma ou duas lições importantes aos autores aspirantes.
    Dos que conheço, “Porte Aperte”, na minha opinião, é o mais atual, sobretudo em países onde a justiça não passa de um arremedo.
    Sobre a tragédia da semana passada, seria hora de ler e comentar “Falling Man”, de Don DeLillo, e “No Highway”, de Nevil Shute.

  • C. Soares 23/07/2007 at 11:15

    esse artigo aqui tb é intitulado “the falling man”, sobre a famosa foto de Richard Drew.

  • Rafael 23/07/2007 at 15:44

    Em memória aos que foram na desastre da Tam (e sem negligenciar a literatura), um poema de Carlos Drummond de Andrade:

    Morte no Avião

    Acordo para a morte.
    Barbeio-me, visto-me, calço-me.
    É meu último dia: um dia
    cortado de nenhum pressentimento.
    Tudo funciona como sempre.
    Saio para a rua. Vou morrer.
    Não morrerei agora. Um dia
    inteiro se desata à minha frente.
    Um dia como é longo. Quantos passos
    na rua, que atravesso. E quantas coisas
    no tempo, acumuladas. Sem reparar,
    sigo meu caminho. Muitas faces
    comprimem-se no caderno de notas.
    Visito o banco. Para que
    esse dinheiro azul se algumas horas
    mais, vem a polícia retirá-lo
    do que foi meu peito e está aberto?
    Mas não me vejo cortado e ensangüentado.
    Estou limpo, claro, nítido, estival.
    Não obstante caminho para a morte.
    Passo nos escritórios. Nos espelhos,
    nas mãos que apertam, nos olhos míopes, nas bocas
    que sorriem ou simplesmente falam eu desfilo.
    Não me despeço, de nada sei, não temo:
    a morte dissimula
    seu bafo e sua tática.

    Almoço. Para quê? Almoço um peixe em ouro e creme.
    É meu último peixe em meu último
    garfo. A boca distingue, escolhe, julga,
    absorve. Passa música no doce, um arrepio
    de violino ou vento, não sei. Não é a morte.
    É o sol. Os bondes cheios. O trabalho.
    Estou na cidade grande e sou um homem
    na engrenagem. Tenho pressa. Vou morrer.
    Peço passagem aos lentos. Não olho os cafés
    que retinem xícaras e anedotas,
    como não olho o muro de velho hospital em sombra.
    Nem os cartazes. Tenho pressa. Compro um jornal. É pressa,
    embora vá morrer.

    O dia na sua metade já rota não me avisa
    que começo também a acabar. Estou cansado.
    Queria dormir, mas os preparativos. O telefone.
    A fatura. A carta. Faço mil coisas
    que criarão outras mil, aqui, além, nos Estados Unidos.
    Comprometo-me ao extremo, combino encontros
    a que nunca irei, prununcio palavras vãs,
    minto dizendo: até amanhã. Pois não haverá.
    Declino a tarde, minha cabeça dói, defendo-me,
    a mão estende um comprimido: a água
    afoga a menos que dor, a mosca,
    o zumbido… Disso não morrerei: a morte engana,
    como um jogador de futebol a morte engana,
    como os caixeiros escolhe
    meticulosa, entre doenças e desastres.

    Ainda não é a morte, é a sombra
    sobre edifícios fatigados, pausa
    entre duas corridas. Desfale o comércio de atacado,
    vão repousar os engenheiros, os funcionários, os pedreiros.
    Mas continuam vigilantes os motoristas, os garçons,
    mil outras profissões noturnas. A cidade
    muda de mão, num golpe.

    Volto à casa. De novo me limpo.
    Que os cabelos se apresentem ordenados
    e as unhas não lembrem a antiga criança rebelde.
    A roupa sem pó. A mala sintética.
    Fecho meu quarto. Fecho minha vida.
    O elevador me fecha. Estou sereno.

    Pela última vez miro a cidade.
    Ainda posso decidir, adiar a morte,
    não tomar esse carro. Não seguir para.
    Posso voltar, dizer: amigos,
    esqueci um papel, não há viagem,
    ir ao cassino, ler um livro.

    Mas tomo o carro. Indico o lugar
    onde algo espera. O campo. Refletores.
    Passo entre mármores, vidro, aço cromado.
    Subo uma escada. Curvo-me. Penetro
    no interior da morte.

    A morte dispôs poltronas para o conforto
    da espera. Aqui se encontram
    os que vão morrer e não sabem.
    Jornais, café, chicletes, algodão para o ouvido,
    pequenos serviços cercam de delicadeza
    nossos corpos amarrados.
    Vamos morrer, já não é apenas
    meu fim particular e limitado,
    somos vinte a ser destruídos,
    morreremos vinte,
    vinte nos espatifaremos, é agora.

    Ou quase. Primeiro a morte particular,
    restrita, silenciosa, do indivíduo.
    Morro secretamente e sem dor,
    para viver apenas como pedaço de vinte,
    e me incorporo todos os pedaços
    dos que igualmente vão parecendo calados.
    Somos um em vinte, ramalhete
    dos sopros robustos prestes a desfazer-se.

    E pairamos,
    frigidamente pairamos sobre os negócios
    e os amores da região.
    Ruas de brinquedo se desmancham,
    luzes se abafam; apenas
    colchão de nuvens, morres se dissolvem,
    apenas
    um tubo de frio roça meus ouvidos,
    um tubo que se obtura: e dentro
    da caixa iluminada e tépida vivemos
    em conforto e solidão e calma e nada.

    Vivo
    meu instante final e é como
    se vivesse há muitos anos
    antes e depois de hoje,
    uma contínua vida irrefragável,
    onde não houvesse pausas, sonos,
    tão macia na noite é esta máquina e tão facilmente ela corta
    blocos cade vaz maiores de ar.
    Sou vinte na máquina
    que suavemente respira,
    entre placas estelares e remotos sopros de terra,
    sinto-me natural a milhares de metro de altura,
    nem ave nem mito,
    guardo consciência de meus poderes,
    e sem mistificação eu vôo,
    sou um corpo voante e conservo bolsos, relógios, unhas,
    ligado à terra pela memória e pelo costume dos músculos,
    carne em breve explodindo.

    Ó brancura, serenidade sob a violência
    da morte sem aviso prévio,
    cautelosa, não obstante irreprimível aproximação de um perigo atmosférico
    golpe vibrado no ar, lâmina de vento
    no pescoço, raio
    choque estrondo fulguração
    rolamos pulverizados
    caio verticalmente e me transformo em notícia.

  • clara lopez 23/07/2007 at 19:21

    Rafael, não sei se o poema de Drummond é macabro porque absolutamente profético quanto aos últimos acontecimentos, ou porque, sendo profético, é também exemplar quanto à engenharia poética do autor. Bonito e terrível, o sempre clássico Drummond. Merci.

  • Saint-Clair Stockler 24/07/2007 at 01:04

    Se este poema é mesmo do Drummond, o Drummond devia estar bêbado e com dor no saco quando escreveu ele. Êta poeminha ruim, sô!

  • Bemveja 24/07/2007 at 07:03

    É do Drummond sim. É um poema irregular, Drummond, claro, deitou-se em berço esplêndido por conta da adulação da crítica, mas trechos sublimes do tipo

    “Ainda não é a morte, é a sombra
    sobre edifícios fatigados, pausa
    entre duas corridas.”

    justificam os excessos do texto, que seria muito melhor se tivesse sido mais criteriosamente editado.

  • Rafael 24/07/2007 at 09:35

    É de Drummond, sim, Saint-Clair. Está no livro “A Rosa do Povo”, considerado, pela crítica, um dos melhores publicados por Drummond.

    Repare que há nele, poema, certas constantes da poesia de Drummond: o desleixo formal, a linguagem coloquial e o inventário do banal. Como bem assinalou Bemveja, versos sublimes misturam-se a banais, fazendo com que o resultado final seja irregular. Mas a idéia geral do poema é inspirada: o cidadão vivendo o quotidiano das coisas miúdas sem perceber que a morte, a “indesejada das gentes” (Bandeira), está próxima.

    Por certo, não é o melhor de Drummond, mas longe está de ser o pior (como o insípito “No Meio do Caminho”).

  • Alice 24/07/2007 at 14:48

    Mas o que acontece aqui no Todoprosa? Cadê as brilhantes observações e discussões sobre o assunto em questão LITERATURA?
    Será que com fim do Nomínimo alguns órfãos resolveram fazer parada aqui para chorar as pitangas?
    Sérgio, se continuar assim vai ficar difícil.
    Nomínimo que se siga a educação e a polidez.
    O blog tem um tema. Seria uma boa regra e um respeito ao anfitrião que se falasse sobre os posts sobre os quais ele escreve.
    Grata pela atenção.

  • Alberto Chassot 11/01/2008 at 18:14

    As outras obras de Sciascia editadas no Brasil pela Editora Rocco (“Portas Abertas”, “Majorana Desapareceu”, 1912 + 1″ e “O Dia da Coruja”), além de “O Mar Cor de Vinho” da Editora Berlendis & Vertecchia, ainda podem ser encontradas nos sites de compra Submarino e Livraria Cultura. Boa leitura aos seus fãs, como eu.

  • Rita Laurentino 12/08/2010 at 23:00

    Dá vontade de saber o que aconteceu com esse farmacêutico…..

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