Literatura brasileira com merchandising (II)

09/08/2007

“Das mais surpreendentes
é a vida de tal faca:
faca, ou qualquer metáfora,
pode ser cultivada.

E mais surpreendente
ainda é sua cultura:
medra não do que come
porém do que jejua.

Podes abandoná-la,
essa faca intestina:
jamais a encontrarás
melhor que Tramontina.”

***

“Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Mas um dia hei de ir – nas asas da Air France, ça va sans dire!

***

“Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala. Ao pé deles, degustaram com delícia sua cota de Maxi Goiabinha.”

***

“Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio – belo seio! – da noite a caminho da Barbarella, ali na Viveiros de Castro.”

***

“E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja de Zippo enquanto dure.”

.

Mais Literatura brasileira com merchandising.

22 Comments

  • Anderson 09/08/2007 at 14:35

    Será que dessa vez também vão achar que se comia Maxi Goiabinha no sertão?

  • Rafael 09/08/2007 at 14:42

    O Sérgio está nos despistando. Ficamos imaginando escritores famosos fazendo merchandising e não nos damos conta de que quem está fazendo merchandising é o próprio Sérgio Rodrigues, que esta hora deve estar olhando, admirado, para o extrato da conta bancária, onde constam os gordos depósitos realizados pela Tramontina, Air France, Bauducco (Maxi Goiabinha), Viveiros de Castro e Zippo.

  • joao gomes 09/08/2007 at 14:44


    Quadro é atacado a marteladas em galeria londrina.”
    Um quadro de Joshua Reynolds (1723-1792), presente na National Portrait Gallery de Londres e avaliado em aproximadamente US$ 3,5 milhões, foi atacado ontem (8) com um martelo.

    ALERTA
    acho que o Nareba escapou…

  • Flávio 09/08/2007 at 14:49

    A lua vem da Ásia voando Air France…

  • Sérgio Rodrigues 09/08/2007 at 14:50

    Pô, Rafael, você me desmascarou… Só um reparo: Viveiros de Castro é o nome da rua onde fica a boate Barbarella.

  • F. C. Johns 09/08/2007 at 14:55

    -Mamãe, olhe como este senhor cabeleireiro me penteou; pediu-me para acabar o penteado, e fez isto. Veja que tranças!
    -Que tem? acudiu a mãe, transbordando de benevolência . Está muito bem, ninguém dirá que é de pessoa que não sabe pentear.
    -O que, mamãe? Isto? redargüiu Capitu, desfazendo as tranças. Ora, mamãe! Ao menos tivessem sido feitas com teus maravilhosos pentes Flamengo!

  • Cezar Santos 09/08/2007 at 15:19

    Putzzzzz…putzzzz…..putz….. isso aqui virou o quê?

  • Bemveja 09/08/2007 at 15:33

    Da mesma forma que o texto do Laurentino, lembranças de Umberto Eco no “Diário Mínimo”. Não sei se funcionaria na vida real: eu não passei a gostar mais de Toblerone por causa do Infinite Jest, nem de Mahler por causa do Bukowski.

  • josef mario 09/08/2007 at 15:49

    Companheiro sergio rodrigues
    Eu, josef mario, devo dizer que o nome correto da rua e ministro viveiros de castro e, mais importante que a barbarella, foi nesta rua, na esquina com a prado junior, que existiu o inesquecivel beco da fome. Saudades do companheiro monsueto, expondo seus quadros na entrada do beco da fome – este rio não existe mais.
    Muito obrigado.

  • Clodovil 09/08/2007 at 15:57

    “Eu, josef mario, drogado e prostituído no beco da fod…, ops., da forme”.

    Que coisa cafona. Muito anos 70.

  • Sérgio Rodrigues 10/08/2007 at 10:59

    AVISO IMPORTANTE: acabo de apagar uma série de comentários que, além de homofóbicos, nada tinham a ver com o assunto desta nota. Qual é, moçada? Não faltam por aí espaços dedicados a esse tipo de zoeira. O Todoprosa tem outros propósitos. Conto com sua compreensão. Obrigado.

  • Kleber 10/08/2007 at 12:17

    Já peguei muitos comerciais involuntários em livros… acho normal. De repente dizer a marca preferida de cigarro da personagem – sem politicamente correto, alguns seres fumam ainda (eu não), nada mais justo de terem direito a fazer isso nos livros…rs. – dá mais concretude ao ato do que só falar “cigarro”. Sem contar que hoje não é raro as pessoas se definirem pelas marcas que usam, pelo tipo de carro, pelo modelo mais antigo ou moderno de celular, pelos locais que vão, mais do que pela personalidade… mesmo sem fins lucrativos, não deixa de ter sua função citar.
    Obs.: Lógico que entendi que os trechos citados foram criados de zoeira… antes que alguém pense que estou comentando falando deles.

  • Bemveja 10/08/2007 at 12:43

    Esse tópico por enquanto tem de tudo menos o óbvio, que é

    “Veja, ilustre passageiro,
    O belo tipo faceiro
    Que o senhor tem ao seu lado.
    No entanto, acredite
    Quase morreu de bronquite:
    Salvou-o o Rhum Creosotado.”
    (há controvérsias sobre a real autoria desses versos, que costumam ser atribuídos a Ernesto de Souza, ou a Bastos Tigre, ou ao próprio Olavo Bilac.)

    Bastos Tigres escreveu o epigrama de poesia concreta avant la lettre

    “Se é Bayer
    é bom”

    Monteiro Lobato escreveu sobre o Biotônico Fontoura. Ou seja, a realidade, mais uma vez, supera a ficção.

  • Sérgio Rodrigues 10/08/2007 at 13:18

    O que você cita é a velha publicidade, Bemveja. Feita por escritores, mas publicidade direta, reclame. Merchandising, esse nome “brasileiro” para o que em inglês se chama product placement, é outra coisa. De pouco tempo para cá, vem tentando se infiltrar na literatura, veja aqui.

  • Bemveja 10/08/2007 at 13:52

    Sergio, no caso do Monteiro Lobato, mais ou menos, já que foi uma história inteira do Jeca Tatu (who else?) com inserções comercias do Biotônico. Eu gostaria de ler esse texto, aliás.

    ps: o link não está funcionando.

  • Sérgio Rodrigues 10/08/2007 at 14:37

    O caso do Lobato com o Biotônico Fontoura é bem mais interessante, sem dúvida, mas não pode ser considerado uma antecipação do merchandising. O panfleto que Lobato adaptou para promover o produto (fabricado por um grande amigo seu) já era proselitista antes disso, uma peça de propaganda destinada a incutir noções de higiene na população. O que caracteriza o merchandising – e o torna uma valorizada ferramenta de marketing – é o modo aparentemente fortuito, “natural”, insidioso com que o produto é encaixado numa história de ambições, em tese, puramente artísticas.

    Veja o panfleto aqui.

    ps: Consertei o link do meu comentário anterior.

  • Bemveja 10/08/2007 at 15:33

    Muito bom o texto do Monteiro Lobato, esse nunca escreveu uma linha que não fosse prazerosa e interessante com a maior simplicidade e despretensão. E não é só o Biotônico, tem o Detefon tb! Obrigado Sérgio.

    Sobre o merchandising deliberado em livros etc, mencionado no primeiro link, eu não vejo nada de errado, embora um disclaimer seja necessário. Mas acho que não funcionaria.

  • Daniel Brazil 11/08/2007 at 21:04

    Nos anos 80 a Bruna Lombardi resolveu escrever um “romance”. Segundo a crítica da época, bateu todos os recordes de citação de marcas, grifes e pedigrees até então… Não li de medo, reconheço.

  • Saint-Clair Stockler 12/08/2007 at 11:37

    Ué, Daniel Brazil, não leu por que? O romance da Bruna Lombardi foi elogiadíssimo pelo Rubem Fonseca…

  • Odicleuso 12/08/2007 at 15:20

    Saint-Clair,
    Bem lembrado…
    O Zé Rubem (como dizem os “íntimos” do homem) elogiou mesmo o livro da Bruna…
    Eu li aquilo, acredita? Lembro que vi numa biblioteca publica e peguei de empréstimo. Nem me lembro mais do que se trata. A Bruna tinha essa veleidade de ser escritora, intelectual, sei lá… querer ser reconhecida pleo intelcto e não pela beleza.
    Ela sempre se achou “diferenciada”, né? com esse lance de ir pros EUA tomar aula de interpretação, conquistar Roliúde… que coisa, não?

  • Saint-Clair Stockler 12/08/2007 at 20:43

    Pois é, Odicleuso. Na minha modestíssima opinião, o melhor da Bruna Lombardi é o marido dela! rsrs

  • Claudio Soares 13/08/2007 at 09:57

    Que tal um do Saramago (em As intermitências da morte):

    Se tivesse mandado a ti, com esse teu gosto pelos métodos expeditivos, a questão já estaria resolvida, mas os tempos mudaram muito utimamente, há que actualizar os meios e os sistemas, pôr-se a par das novas tecnologias, por exemplo, utilizar o correio eletrónico, tenho ouvido dizer que é o que há de mais higiénico, que não deixa cair borrões nem mancha os dedos, além disso é rápido, no memso instante em que a pessoa abre o OUTLOOK EXPRESS DA MICROSOFT já está filada.

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