Literatura e carnaval

13/02/2007

Um dos chavões preferidos da imprensa literária brasileira é discutir a discreta presença do futebol em nossa ficção. E o carnaval, clichê da “nacionalidade” tão forte quanto o velho ludopédio, será que está bem representado?

À primeira vista, não. “O país do carnaval”, romance de estréia de Jorge Amado, de carnavalesco mesmo tem pouco mais que o nome. Os contos “Antes do baile verde”, de Lygia Fagundes Telles, e “A morte da porta-estandarte”, de Aníbal Machado, chegam mais perto da festa, mas mantendo um pé na vida e outro na morte. Também sombrio, “O bebê da tarlatana rosa”, de João do Rio, outra história curta, talvez entre mais um pouco no espírito da gandaia. Mas cabe à crônica “Batalha no Largo do Machado”, de Rubem Braga, ser, esta sim, uma brilhante tradução em prosa da ofegante epidemia. É claro que o gênero crônica, por sua natureza, oferece uma fartura de textos de carnaval, mas não acredito que algum deles chegue perto desse do Braga.

Devo estar esquecendo títulos importantíssimos, com certeza. Infelizmente, nunca tive nas mãos a (esgotadíssima) “Antologia do carnaval”, de Wilson Louzada. Sendo este post uma obra aberta, espero que me corrijam. Mas mesmo assim o saldo tende a ser magro. Na poesia, Manuel Bandeira e Mario de Andrade abrem alas para um bloco ativo, ainda que meio melancólico, ali na fronteira da Quarta de Cinzas. A prosa fica devendo ou é impressão minha?

28 Comments

  • Olga Maria 13/02/2007 at 18:34

    Com certeza a prosa fica devendo!Não conheço este texto de Rubem Braga e, como sou filha de capixaba, peço se você pode publicar, prá meu deleite e da minha mãe

  • Pedro David 13/02/2007 at 19:41

    Que eu me lembre, no livro Lucia Maccartney, onde está o conto de Rubem Fonseca no qual Mandrake aparece pela primeira vez, tem-se um baile de carnaval. O mesmo ambiente é caracterizado com muito bom humor em Budapeste, de Chico Buarque. Há poucos anos, o jornalista Arthur Dapieve lançou um livro, De cada amor tu herdarás só o cinismo, no qual há um bom trecho sobre o atual carnaval do Rio de Janeiro. Dapieve fala de maneira bastante acertada sobre os novos foliões cariocas, que sofrem de um certo saudosismo daquilo que não se viveu.

  • Saint-Clair Stockler 13/02/2007 at 20:52

    Renard Perez tem um conto (não me lembro agora o título) sobre o assunto no seu livro “Trio”, que ganhou uma das bienais da Nestlé, acho que a primeira.

    Hélio Pólvora tem um conto (também não sei o título) sobre Carnaval no seu “Xerazade”.

    Assim, de cara, me lembro desses dois.

  • alvaro 13/02/2007 at 21:43

    Caprichosos da Tijuca, conto de Marques Rabelo, que também descreve impressionantes cenas do carnaval carioca na trilogia O espelho partido.
    No segundo romance de Carlos Heitor Cony, A verdade de cada dia, tem uma cena de baile muito boa.
    Fevereiro ou março, de Rubem Fonseca, é uma obra-prima sobre o tema carnaval, em especial o carioca.

  • Marcelo Moutinho 13/02/2007 at 21:50

    Concordo: a prosa fica devendo, sim. De minha parte, escrevi dois contos ambientados no carnaval. Ambos estão no meu mais recente livro.

  • Rodrigo Levino 13/02/2007 at 23:11

    Nossa! Viajei no tempo agora, revirando a memória lembrei de “O fantástico homem do metrô”, de Stella Car. O livro é de alguma série tipo “Para gostar de ler” e mistura seitas secretas, maçonaria, rosacruz, enfim, um emboloado de coisas que se passam no carnaval de São Paulo. Um romance policialesco no meio de barracões, cuícas e tamborins. Para ser sincero não faço nem idéia se é bom, ao menos na época, lá pelos 12 anos, eu curti.

  • Saint-Clair Stockler 14/02/2007 at 00:19

    “O sétimo punhal”, do Victor Giudice, também tem algumas cenas em flashback passadas em um baile de Carnaval, em São Cristóvão.

  • Sérgio Rodrigues 14/02/2007 at 00:41

    Ops, e tem, claro, o recente romance “Carnaval”, do João Gabriel de Lima.

  • 14/02/2007 at 01:59

    Tem o primoroso Restos de carnaval, da Clarice Lispector.

  • Rodrigo Levino 14/02/2007 at 08:28

    Bem lembrado Zé, o Restos de Carnaval, da Lispector. Um trecho bem interessante:

    “E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.”

  • Antônio Augusto 14/02/2007 at 08:46

    Ia falar de Marques Rebelo, já citado pelo alvaro.
    O grande escritor e carioca Marques Rebelo.
    Reli recentemente dele “O simples coronel Madureira” – 1ª edição: BUP, Civilização Brasileira, 1967; 2ª edição: Salamandra, 1980.
    Que novelinha maravilhosa!

  • Antônio Augusto 14/02/2007 at 08:47

    A 2ª edição, cotejada com os manuscritos do autor, possui acréscimos em relação à 1ª.

  • firpo 14/02/2007 at 10:16

    Um grande livro que aborda o carnaval, mas não é brasileiro: O Sonho dos Heróis, de Bioy Casares.

    Primeira frase:

    “A lo largo de tres días y de tres noches del carnaval de 1927 la vida de Emilio Gauna logró su primera y misteriosa culminación.”

  • Cezar Santos 14/02/2007 at 11:22

    Sérgio,
    Essa tese de que falta futebol na literatura brasileira é furada, já virou clichê. Assim como a da falta de carnaval, que também é besteira, só pelas amostras que os leitores estão deixando nos posts ai em cima. Tem carnaval pra caramba na literatura brasileira e se for fazer um levantamento, putz… o que vai aparecer!!
    O que os caras queriam? Que todos os livros, todos os textos, abordassem o futebol? Ou o carnaval? Esses temas são abordados de vez em quando, por um ou outro autor. Ou seja, normal…
    Claro que outros temas ganham mais espaço, como a violência (será?) e aqueles perenes como o amor e a morte, que são o pano de fundo de praticamente todos os livros, não é verdade?

  • Iarcher 14/02/2007 at 12:24

    A Fúria do corpo do Noll tem cenas de carnaval no Rio de grande impacto!Mas concordo com o Sérgio, devido à importância do evento na sociedade brasileira, o tema deveria ser mais freqüente em nossa literatura!

  • Tibor Moricz 14/02/2007 at 12:30

    Carnaval? O que é isso mesmo?

  • Saint-Clair Stockler 14/02/2007 at 12:38

    Snif…snif… que merda: a Clarice sumiu mesmo, que nem ela disse que ia fazer. Êta mulher de palavra, sô!

    ***saudades***

  • Tibor Moricz 14/02/2007 at 12:41

    Agora ela volta…

  • Mozzambani 14/02/2007 at 16:22

    Se está faltando carnaval ou futebol na literatura, talvez, seja porque esteja faltando futebolistas e carnavalescos nas livrarias. Será que estou falando besteiras?

  • Marcos 15/02/2007 at 12:39

    Evoé
    Protetora do Carnaval em Botafogo
    Mãe do rancho vitorioso
    Nas pugnas de Momo
    Auxiliadora dos artísticos trabalhos
    Do barracão
    Patrona do livro de ouro
    Proteje nosso querido artista Pedrinho
    Como o chamamos na intimidade
    Para que o brilhante cortejo
    Que vamos sobremeter à apreciação
    Do culto povo carioca
    E da Imprensa Brasileira
    Acérrima defensora da Verdade e da Razão
    Seja o mais luxuoso novo e original
    E tenha o veredictum unânime
    No grande prélio
    Que dentro de poucas horas
    Se travará entre as hostes aguerridas
    Do Riso e da Loucura

    Oswald, “Nossa Senhora dos Cordões”,

  • Marcos 15/02/2007 at 12:43

    A banda de clarins
    Anuncia com os seus clangorosos sons
    A aproximação do impetuoso cortejo
    A comissão de frente
    Composta
    De distintos cavaleiros da boa sociedade
    Rigorosamente trajados
    E montando fogosos corcéis
    Pede licença de chapéu na mão
    20 crianças representando de vespas
    Constituem a guarda de honra
    Da Porta-Estandarte
    Que é precedida de 20 damas
    Fantasiadas de pavão
    Quando 40 homens do coro
    Conduzindo palmas
    E artisticamente fantasiados de papoulas
    Abrem a Alegoria
    Do Palácio Floral
    Entre luzes elétricas

    Oswald, “Na avenida”.

  • Carlos André Moreira 15/02/2007 at 13:18

    Eu ia citar o “Carnaval”, do João Gabriel de Lima, citado no ano passado.
    O argumento de que falta futebol na nossa literatura é realmente furado – não faltam livros em que o futebol é pano de fundo. Muitas vezes faltam é livros BONS.
    Uma das exceções mais recentes é “O Segundo Tempo”, de Michel Laub.
    E aqui no Rio Grande do Sul, no ano 2001, por aí, o cronista Ruy Carlos Ostermann lançou uma coletânea de histórias sobre futebol que ele havia compilado para uma série publicada originalmente na Zero Hora – provavelmente não teve grande distribuição. Juntava “Meia Encarnada, Dura de Sangue”, do Lourenço Cazarré, “Não havia de culpar a vida”, de Edilberto Coutinho, “Abril, no Rio, 1970”, de Rubem Fonseca e “Domingo de Gre-Nal”, de Sergio Faraco, entre outros que a memória não me socorre no momento.
    Já de Carnaval, só lembrei desses aí já citados, mesmo.

  • Carlos André Moreira 15/02/2007 at 14:22

    Ops, não era “citado no ano passado”, era “Publicado noano passado”.

  • Helion 16/02/2007 at 10:08

    Oi Sergio, voce tem razao, a Batalha do Largo do Machado, do Braga, talvez seja mesmo a melhor traduçao da folia momesca. Mas, falando em João do Rio, voce esqueceu da maravilhosa cronica “Cordões”. Segue o link para quem quiser ler. Um abraço.
    http://www.jangadabrasil.com.br/fevereiro42/fe42020b.htm

  • Helion 16/02/2007 at 10:14

    Saint Clair, tambem do Victor Giudice há o conto “O dia em que nossa vizinha enlouqueceu”, no qual uma saida para o Baile dos Letrados é interrompida pelo surto da vizinha que acaba levando o protagonista a… bem, o melhor é ler o conto. Fica no livro “Os banheiros”, primoroso. Inesquecivel o Victor Giudice.

  • Clarice 19/02/2007 at 18:31

    Pô Saint-Clair, assim eu fico envergonhada. buáááááááá´… sniff… sniff…
    Tô dando uma olhadinha.
    Por coinscidência esta semana passou, não sei em que canal pois zapeio muito e só paro em canais que gosto, umas entrevistas com escritores sobre… futebol como tema.
    Confesso que vi uns três e fui embora. Os de sempre, se vocês estão entendendo…

  • João Marcos Cantarino 20/02/2007 at 02:23

    Ok. Mas agora chega, né?

  • Cezar Santos 21/02/2007 at 00:01

    Ainda sobre futebol, e o “Maracanã, adeus!, do Edilberto Coutinho, um livraço de contos “todo” sobre o tema…

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