Literatura: quanto mais inútil, melhor

09/11/2013

O Quixote de Picasso: vitima da literatura

O Quixote de Picasso: vitima da literatura

Depois que escrevi aqui sobre o que chamo de literatura de autoatrapalhação – aquela que se opõe à autoajuda –, a questão do enfoque utilitarista da leitura não parou de atravessar meu caminho sob as mais variadas formas. Fez isso tantas vezes que me induziu à conclusão de que o tema está boiando no ar do nosso tempo.

Primeiro foi uma pergunta do mediador Rosel Soares na Festa Literária Internacional de Cachoeira (BA), há duas semanas, sobre a capacidade que a literatura teria ou não teria de nos transformar em pessoas melhores. Em seguida, devido a uma série de viagens ligadas ao lançamento do meu novo livro, vieram os repetidos encontros com livrarias de aeroporto, essas lojas peculiares – e no meu caso praticamente inúteis – que tendem a concentrar seu estoque em autoajuda, elevação espiritual, gerenciamento, picaretagem explícita e outros gêneros com títulos imperativos: “Faça”, “Seja”, “Não faça”, “Não seja”…

Finalmente, esta semana, dois golpes de misericórdia: dei uma entrevista por telefone a um programa da ótima TV universitária de Caxias do Sul (RS), sobre os prós e contras da autoajuda na formação de leitores, e tropecei num artigo imperdível da revista “New Yorker” chamado “Deve a literatura ser útil?” (em inglês), no qual Lee Siegel – o mesmo crítico que já andou levando aqui uns cascudos por apregoar a “morte do romance” – questiona com lucidez o quase onipresente discurso da “empatia” como justificação para a literatura.

Faz alguns anos que, assediados por críticos e não-leitores (categorias, curiosamente, muitas vezes superpostas) que lhes esfregam na cara sua crescente irrelevância cultural, muitos escritores vêm adotando uma defesa baseada no estímulo que a ficção daria às faculdades empáticas do leitor. Alegam que as narrativas inventadas aguçariam em quem as lê a capacidade de imaginar o outro, conceber o diferente e, portanto, ser mais compreensivo, democrático, compassivo, humano.

O argumento, além de bonito, é daqueles que parecem fazer sentido – acho provável que, em algum nível, faça mesmo. O escritor israelense Amós Oz formulou-o assim numa entrevista que me concedeu há dois anos no Rio:

Considero a curiosidade uma virtude moral. Uma pessoa curiosa é melhor do que uma pessoa não curiosa, porque a curiosidade implica certa empatia, a capacidade de sentir como o outro sente. É por isso que a literatura é um dos antídotos contra o fanatismo.

O problema começa, segundo Siegel, quando se toma o discurso da empatia como razão de ser da literatura. Citando dois estudos “científicos” recentes que alegam ter comprovado com estatísticas que a leitura de ficção traz mais benefícios sociais do que a de não-ficção – porque, justamente, capacitaria melhor as pessoas para a compreensão do que vai na cabeça e na alma do próximo –, o crítico inverte sabiamente o raciocínio para expor como derrota da ficção o que parece uma vitória:

Em vez de proclamar a superioridade da ficção sobre as habilidades práticas que seriam conferidas pela leitura de não-ficção, os estudos sugerem que os efeitos práticos são um parâmetro indispensável pelo qual as virtudes da ficção devem ser julgadas. Ler ficção é bom, segundo esses estudos, porque transforma você num agente social melhor. (…) Os americanos sempre se sentiram desconfortáveis com qualquer atividade cultural que não conduza a resultados palpáveis.

Bingo. Siegel vai ainda mais longe e faz uma provocação brilhante, embora questionável: separa de forma radical empatia de compaixão ao dizer que algumas das pessoas com maior capacidade de compreender emoções e pensamentos alheios que ele conhece são executivos e advogados – que, como se sabe, não necessariamente usam tais habilidades para o bem do próximo.

Seja como for, o ponto fundamental me parece ser um só: a melhor literatura, como toda arte, não será nada se não nascer absolutamente inútil e livre. Depois disso, tudo bem, pode ganhar um milhão de aplicações práticas ao gosto do freguês. Inclusive, vá lá, a de aprimorar moralmente o leitor.

No entanto, como lembra Siegel, a própria literatura sabe que não nasceu para boa samaritana. Sabe tão bem que levou alguns de seus mais célebres personagens a se perder para sempre nos labirintos da leitura: D. Quixote e Emma Bovary comprovam que ler é muito, muito perigoso. Mas só um leitor tacanho diria que todo o seu propósito no mundo é nos fazer tal alerta.

10 Comments

  • carlos cezar 09/11/2013 at 09:55

    Ler é muito, muito, muito instigante. Mas pode ser também perigoso: muito perigoso pra burrice – a leitura pode matar a burrice! Um dia li na VEJA: quem lê por prazer entende melhor o mundo e a si mesmo. Pura realidade. Se tivéssemos aprendido a ler seriamente no século XVIII, se os brasileiros daquela época tivessem se preocupado verdadeiramente com todo tipo de leitura, o Brasil hoje seria um país diferente, mais próspero.

  • jumentinha 09/11/2013 at 13:56

    Entre a ficção e a não-ficção, vejo que as “Escrituras” cai direitinho na polêmica. Por quê? Porque as Escrituras são consideradas como ficção e não ficção. Servem como parãmetro para os de lá e os de cá. Tem de tudo ali, e quando escolhidas para uma literatura de romance ou poesia, a ficção poderä virar não ficção. Ou a não ficção poderá virar uma ficção. Se vai ou não ajudar ou tornar melhor a quem lê, vai depender muito, pois sendo as Escrituras, pode dar raiva no leitor, que dependendo vai até queimar os escritos.

  • jumentinha 09/11/2013 at 13:58

    Mas quem disse que as Literescrituras são para ajudar? Elas são para abrir os olhos…e an passant, os ouvidos…

  • Ewerton Martins 10/11/2013 at 22:55

    Para “agregar valor” à conversa, rs, uma citaçãozinha do Barthes que tem (um pouco) a ver: “Nada mais deprimente do que imaginar o Texto como um objeto intelectual (de reflexão, de análise, de comparação, de reflexo etc.). O texto é um objeto de prazer”. Penso que se tomarmos prazer de forma ampla (incluindo nele o (des)prazer do incômodo, do susto, do nojo etc), e se tomarmos texto por texto-literário (sei, é subversão após subversão)… mas enfim: acho que temos alguma coisa aí.

    • sergiorodrigues 11/11/2013 at 17:06

      Temos sim, Ewerton. Um abraço.

  • Carol 12/11/2013 at 15:17

    A “compreensão do que vai na cabeça e na alma do próximo” é, como corretamente explanado, o cerne da empatia, e não da compaixão, que, a meu ver, é o sentimento nascido a partir desse conhecimento. Assim, nem toda empatia gera compaixão, porque se colocar no lugar do outro não é se compadecer do outro. Assim, concordo com o fato de que a literatura deve nascer livre de amarras e objetivos pre-estabelecidos e que ter um objetivo não é o objetivo da literatura. Porém. como leitora que sou, não fico inerte ao que leio, sou transformada, pela leitura, e essa transformação engloba sim a empatia, assim como engloba julgamentos morais dos comportamentos dos personagens e questionamento de como eu agiria naquela determinada situação, concordâncias, discordâncias, tudo inerente a condição de ser pensante.

  • J.Paulo 13/11/2013 at 04:20

    Penso que a Literatura não deve ter nenhum fim específico. Aliás, Literatura, como a Filosofia, a princípio, são inúteis. O que o receptor faz com elas é o que importa. Além disso, não acho que a literatura seja algo intrinsecamente bom. Os maiores genocidas do século passado, Stalin, Hitler, Mao Tsé-Tung, eram ávidos leitores. É bom ter isso em mente.

  • Alex R.F. 14/11/2013 at 10:47

    Agora só falta desvendarmos a utilidade da arte contemporânea.

  • Pedro Teles 02/12/2013 at 19:48

    Dúvida “tostines”: as pessoas desenvolvem maior capacidade de empatia porque leem literatura ou leem literatura porque têm maior capacidade de empatia? Abraço.

  • Saul Neto 23/10/2014 at 14:56

    “Qualquer fim moral, quer dizer, de interesse por parte do artista, mata todas as obras de arte.” Stendhal

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