Livro de presente é tiro certo. Se não sair pela culatra

19/12/2012


Será ou não um preconceito pensar que não há exceções à regra segundo a qual nada de bom se pode esperar de quem responde ‘Fernão Capelo Gaivota’ à pergunta ‘Qual é o seu livro preferido?’.

A disposição retrospectiva do fim do ano me leva longe: desencavei aqui o comentário que fiz em 2009 sobre um saboroso artigo (trechinho acima) publicado no jornal espanhol “El País” acerca dos riscos de dar livros de presente. Assinado por Leila Guerriero, o texto satiriza com humor afiado a tendência a um certo esnobismo que costuma atacar em maior ou menor grau todo mundo que se considera bom leitor.

Trata-se de terreno pantanoso: para alguns, o nome desse esnobismo é simplesmente bom gosto, enquanto para outros é preconceito mesmo. De uma forma ou de outra, multiplicam-se as armadilhas no caminho de quem, inocente e bem intencionado, escolhe um título para dar de presente.

Quando acerta na mosca, um livro provavelmente conta mais pontos do que qualquer outro regalo em sua faixa de preço. No entanto, o mesmo exemplar de “Cinquenta tons de cinza” que seria de bom tom dado a cinquenta pessoas pode reduzir seu filme a cinzas nas mãos da quinquagésima primeira.

A verdade é que sem conhecer muito bem o presenteado, seus gostos, seu histórico de leitor (se tiver algum), é mais seguro ficar na caixa de bombons.

*

O ano de 2012 – que, se tudo correr bem, ficará na história da cultura brasileira como o do início do processo de internacionalização de nossa literatura – termina com uma informação curiosa nesse campo: o site PublishNews noticiou que a Romênia é o país em que é maior o interesse espontâneo do mercado editorial por nossa ficção.

Com quinze bolsas de tradução já concedidas pela Biblioteca Nacional, a terra do conde Drácula só perde da Alemanha, mas esta é hors-concours por ser o posto de país homenageado na Feira de Frankfurt 2013 o principal catalisador de atenções para o Brasil.

Como explicar isso? Com um punhado de clichês, segundo Diana Crupenschi, diretora editorial da Univers, a casa romena mais ligada em nossa produção:

Brasileiros e romenos falam línguas de origem latina, muitas palavras são parecidas. E há também o calor humano, a música, o apetite por pratos suculentos, o gosto pelos ritmos e pela dança, que são comuns a ambos os países. Fiquei impressionada com a semelhança entre alguns personagens femininos de Jorge Amado e mulheres da vida real na Romênia.

Atenção, candidatos a Nacib: Gabriela está viva e mora em Bucareste.

2 Comments

  • shirlei horta 19/12/2012 at 21:24

    Esnobismo dos mais pobres, tentativa de autopromoção, como se o prestígio do autor do livro tivesse o condão de transformar o presenteador em presidente de uma fantástica Academia Brasileira de Letras dos Leitores. Há pouco tempo, discutia-se numa roda a qualidade dos livros de Chico Buarque; uma moça tomou-se de dores pelas críticas ouvidas, argumentando inclusive que o verdadeiro sentimento que pautava os debatedores era a inveja. Obviamente, a conversa enveredou para críticas objetivas aos textos que, espantosamente, emudeceram a ardorosa fã: ela, candidamente, admidtiu que jamais lera um livro de seu autor preferido…

  • shirlei horta 19/12/2012 at 22:41

    Meu comentário anterior se apegou a um exemplo negativo, mas é verdade que o presenteador, com alguma sensibilidade, acaba te deixando um regalo que não tem preço! Pouco tempo atrás, ganhei um livro que veio acompanhado do seguinte comentário: “é a sua cara!”. Tratava-se de “A varanda do frangipani”, de Mia Couto – autor que eu ainda não havia lido. Eu nem tenho palavras para descrever o que sinto a respeito do livro, do autor e do presenteador. E isso me leva a incentivar fortemente os livros como presentes. Tenho até uma dica infalível para os que não querem fazer o papel ridículo de esnobes, mas querem marcar pontos: dêem um vale-livro. E se querem ser muito românticos, dêem um vale-livro dentro do envelope que acompanha um buquê de flores.

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