Livros do ano? E por que não da década?

15/12/2010

Livro do ano é pouco, vamos falar do livro da década! A sanha das listas de fim de ano levou o programa “Espaço Aberto Literatura”, da Globonews, a promover em seu site uma interessante enquete com a intenção de fechar uma lista dos melhores títulos literários nacionais e estrangeiros (predominantemente de ficção e poesia, embora apareçam algumas obras de outros gêneros) nesses primeiros dez anos do século 21.

Tem graça? Claro que tem. Listas são bobagens, mas isso não as condena à inutilidade. Tentar recapitular uma década inteira é ainda melhor – porque envolve uma luta mais difícil com a memória fugidia – do que escolher os destaques de um único ano. Naturalmente, o grau de risco da tarefa também é maior.

O “Espaço Aberto” tomou como ponto de partida para sua enquete as listas pessoais de dez profissionais ligados de formas variadas à literatura: André Seffrin, Claufe Rodrigues, Edney Silvestre, Flávio Carneiro, Heloisa Buarque de Hollanda, Humberto Werneck, Livia Garcia-Roza, Lucia Riff, Luciana Savaget e Ricardo Costa. No site, é possível consultar os dez títulos de cada um, embora, de forma meio confusa, apenas três de cada relação tenham se classificado para a votação final, que fica a cargo do público.

Na pior das hipóteses, um passeio por lá funciona como uma poderosa ilustração da frase de André Maurois: “Na literatura, como no amor, nós nos espantamos com as escolhas que os outros fazem”. Há inclusões realmente assombrosas, cuja identificação deixo a cargo de cada um. É mais saudável citar aqui as lembranças bem-vindas – “O filho eterno”, “O voo da madrugada” e “Reparação”, por exemplo – e as tantas omissões lamentáveis: “Bartleby e companhia”, “As correções”, “As benevolentes” etc.

Esse etc. é um convite a quem quiser entrar na brincadeira. Sei que sou tão sujeito quanto qualquer um ao espanto do próximo diante das minhas escolhas “na literatura, como no amor”. Mas não é justamente essa a graça da coisa?

*

A propósito, lembro que a enquete do Todoprosa sobre os livros de 2010 continua rolando aqui. Parece difícil que Roberto Bolaño deixe a vitória escapar em sua categoria, mas, em compensação, a memorável disputa nacional entre Elvira Vigna e João Paulo Cuenca promete se decidir no último minuto. Se você ainda não votou, tem até esta sexta-feira para ajudar a eleger os melhores títulos de ficção do ano.

7 Comments

  • Thiago Maia 15/12/2010 at 22:37

    Contabilizei que li 18 livros publicados (no original e pela primeira vez) de 2001 para cá. Voto em Jerusalém, de Gonçalo Tavares, como o que mais gostei. Ah, e voto em Diário do farol, de João Ubaldo Ribeiro, como “O livro de que mais gostei, e gostei absolutamente, dentre aqueles dos quais ninguém gostou.” : )
    Um abração a todos.

  • Guilherme Resstom 16/12/2010 at 13:28

    Vamos lá. Duas listas, uma para ficção estrangeira, outra pra ficção nacional.

    Às Cegas – Claudio Magris
    Os Anéis de Saturno – W.G. Sebald
    Austerlitz – W.G. Sebald
    As Benevolentes – Jonathan Littell
    Breves Entrevistas com Homens Hediondos – David F. Wallace
    Os Detetives Selvagens – Roberto Bolaño
    A Marca Humana – Philip Roth
    Meu Nome é Legião – António Lobo Antunes
    Nem Santos Nem Anjos – Ivan Klíma
    A Perda da Imagem – Peter Handke

    Amar-te a ti nem sei se com carícias – Wilson Bueno
    Barco a Seco – Rubens Figueiredo
    A Gaiola de Faraday – Bernardo Ajzenberg
    Galiléia – Ronaldo Correia de Brito
    História Natural da Ditadura – Teixeira Coelho
    Investigação Sobre Ariel – Sílvio Fiorani
    Minha Mãe se Matou Sem Dizer Adeus – Evandro Affonso Ferreira
    Não Falei – Beatriz Bracher
    Nove Noites – Bernardo Carvalho
    Voo da Madrugada – Sérgio Sant’Anna

  • Rogerio Moraes 16/12/2010 at 14:40

    Votei no Reparação como livro da década na GloboNews. Gosto muito dos livros que o Sérgio e o Guilherme citaram. Dos não citados, ainda vejo espaço para Não Me Abandone Jamais (Kazuo Ishiguro), A Elegância do Ouriço (Muriel Barbery), Sobre Meninos e Lobos (Dennis Lehane), Dois Irmãos (Milton Hatoum), Complô Contra a América (Philip Roth), Amphitryon (Ignacio Padilla), Arthur & George (Julian Barnes), Tudo Está Iluminado (Jonathan Safran Foer), Soldados de Salamina (Javier Cercas), A Fugitiva (Alice Munro), As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay (Michael Chabon), Vida Vadia (Richard Price), O Passado (Alan Pauls) e Jardins de Kensington (Rodrigo Fresán).

  • Thiago Maia 17/12/2010 at 15:22

    Caro Rogerio, peço desculpa pelo preciosismo, estou viciado nessas buscas inclusive desde que SR alertou sobre “A passagem tensa dos corpos” ser de 2009 e não desse ano, e informo que o muito bom livro “Amphitryon”, de Ignacio Padilla, é de 2000. Mas considero que serve muito bem, vicariamente, o “Espiral de artilharia”, de 2003.
    Um abraço.
    http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=1396407&sid=00128811012118777918058532&k5=19FB97E4&uid=

  • Clelio T. Jr 17/12/2010 at 15:48

    Sérgio, abre a brincadeira aqui pra nós. Uma semana para os leitores fazerem sua lista. Que tal? Aquela lá tá braba!

  • Maicon Paim 30/12/2010 at 20:44

    Realmente lamentável as ausências de “As correções” e “As Benevolentes” na lista da Globo news. Esse pessoal não deve ter lido os livros. Só pode ser isso.

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