Machado e Rosa (não os que você está pensando)

28/04/2008

No “Rascunho” de março, o bom escritor Rubem Mauro Machado, autor, entre outros livros, do premiado mas pouco conhecido romance “A idade da paixão”, investia contra a mistura de despreparo e descaso do jornalismo cultural brasileiro para lidar com o crescente volume de livros de autores nacionais:

Vamos ser bem sinceros: a grande mídia (embora ela não possa ou não ouse confessar isso abertamente) está se lixando para a cultura brasileira e, dentro dela, especialmente para a literatura brasileira. (…) E no entanto é importante que se proclame: avaliar a obra de um autor brasileiro não é um favor que se faz a ele – é um direito legítimo que ele tem, do mesmo modo que o público tem todo o direito de saber que existe essa obra na qual ele poderá se refletir, ou não; o leitor deve ter acesso à informação, embasada e isenta, para decidir. Como os suplementos se transformaram em larga medida numa ação entre amigos (“você me elogia, depois retribuo”) ou numa extensão dos departamentos de mídia das editoras, a reproduzir releases, quase toda crítica que trazem vem hoje eivada de suspeição.

Pode ser verdade, mas, como costuma ocorrer, não toda a verdade. Quem se encarrega de nos lembrar disso, elevando o drama dos escribas muito acima do lodaçal das “mazelas nacionais”, é a boa escritora espanhola Rosa Montero, autora do conhecidíssimo “A louca da casa”, no último “Babelia” (em espanhol, acesso livre):

Por isso eu digo que escrever romances é resistir. É suportar o desdém dos editores, os adiantamentos freqüentemente miseráveis, as cifras de venda muitas vezes ridículas, as críticas que podem ser ferozes, a destruição da edição porque não vende, a falta total de eco na imprensa, o desinteresse geral engolindo e sepultando seu livro como uma camada de lava estorricante. Os fogos de artifício do mercado e os olhos caídos de Paul Auster fizeram o pessoal acreditar que esse negócio de ser romancista é um ofício glamouroso, mas na vida real a imensa maioria dos escritores precisa suportar uma infinidade de humilhações. E quando são autores de raça, quando o que os move é realmente a paixão pela literatura, com que impavidez se deixam maltratar pelo bem de sua obra!

Depois da visão quase religiosa de Rosa Montero, com seus autores carregando cruzes sob as cusparadas de críticos e leitores na esperança de subirem aos céus ao terceiro dia (ou terceiro livro), será que devemos lançar a descompostura que Rubem Mauro passa em nossa frágil imprensa na conta de puro mau humor, uma vez que escrever é um ofício ingrato mesmo?

De jeito nenhum. Escritores são mais chorões que certas torcidas bicolores, verdade, mas a descompostura tem razão de ser. Bastaria o fato de não termos na imprensa brasileira um suplemento literário digno de engraxar as botas madrilenhas do “Babelia” para indicar que não faltam motivos a Rubem Mauro para fechar seu foco na cena nacional. Mas também é verdade que a “resistência” de que fala Rosa Montero fica mais nobre e fácil de encarar quando se sabe que é feita contra a entropia universal, e não apenas contra aquele editor moderninho de barbicha que pensa que Cervantes é o inventor do sanduíche de lombinho com abacaxi.

38 Comments

  • Jonas 28/04/2008 at 14:08

    O Paul Auster, por sinal, é um autor que vê a escrita como um enorme sofrimento. Diz que escreve como se rezasse.

    Para um autor brasileiro, ser resenhado não é nem um favor e nem um direito. Não tenho amigos escritores para fazer um favor; estou me lixando para os direitos deles. Se o livro me parece bom, leio e escrevo sobre. Se algum editor me pautar, escrevo sobre. E se eu vir esse autor choramingando, já é um motivo para ganhar minha antipatia.

  • Rafael 28/04/2008 at 14:11

    Os jornais não fazem senão atender à demanda do público (vide o caso da pobre Isabela). A falta de um suplemento literário digno é apenas reflexo do acanhado ambiente cultural brasileiro. Aqui, poucos lêem; os que lêem, em sua maioria, não buscam mais que o puro entretenimento; a minoria dos que levam a literatura a sério é constituída de um punhado de pessoas, que se conta nos dedos. Por que é que os jornais, atendendo às lamúrias deste minúsculo universo de leitores, iriam investir dinheiro e tempo na confecção de um suplemento que não contribuirá com a elevação das vendas e que, em regra, será ignorado pelo público leitor, que o utilizará apenas como forro da toilette do seu pet?

    Ô vaidade! Todo escritor profissional esconde dentro de si esse sentimento de superioridade: eu escrevo porque tenho algo a dizer; enfeixo frases que canalizam as grandes verdades dos Séculos, do meu tempo, da contemporaneidade (êta palavra medonha); minha voz é a da Grande Consciência do Mundo. Depois de deixar-se enfeitiçar por esse tipo de ilusão ególatra, o indivíduo sai por aí proclamando urbi et orbi ser titular de um direito (sim, de um direito!) de ser lido, apreciado e ovacionado. Seria um crime de lesa-cultura, quiçá, um crime de lesa-pátria omitir seu nome das manchetes.

    Não é a grande mídia que está se lixando para a cultura brasileira; é o público que está se lixando para a literatura brasileira.

    O mesmo se pode dizer desses que se acreditam investidos da missão de “resistir”. “Escrever é resistir”, eis um desses lemas fáceis que ludibriam os espíritos entregues a idolatria de si mesmos. Dependendo do conteúdo de sua escrita, o autor estará realizando um ato de resistência. O ato de escrever, por si só, não significa nada.

  • joao gomes 28/04/2008 at 15:02

    diante de tudo isso quem quer ser respeitado, vendido deve procurar o caminho da preparacao de novelas televisivas e roteiros de filmes.

    As livrarias fecharao paulatinamente, bibliotecas se tornarao museus. Gráficas e editoras serao tombadas pelo patrimonio histórico “casas de cultura” onde fankeiras, e tribos modernas dançarao sobre prelos.

    Assim caminha a humanidade rumo…
    as cavernas de 30.000 A.C.

  • Mindingo 28/04/2008 at 16:36

    Para que haja crítica, é preciso que haja críticos. E onde estão os novos Otto Maria Carpeaux? Até onde vejo, eles simplesmente não existem mais, e possivelmente não existirão, porque o caldo de cultura livresca que antes existia foi substituído por uma “cultura pop” eletrônica, em que os nossos “críticos” atuais são formados mais pela cultura de massa (especialmente audiovisual) do que pelo tedioso método antigo que consistia em ler tudo o que a humanidade produziu antes.

    Mas com ou sem críticos dignos de figurar no mesmo panteão do Otto, fato é que há muitos casos de obras “abaixo da crítica”. Ou seja: pode haver certos escritores que foram sim lidos (e porntanto a grita é infundada), mas não foram signos sequer de serem desancados no caro espaço da crítica especializada, em que pese seja verdade que ela desde sempre esteve permeável ao favorecimento dos amigos. E talvez nem seja este o problema, mas a baixa qualidade dos amigos em questão: antes os amigos que se apupavam era gente como Nelson Rodrigues, Otto Lara Rezende, Fernando Sabino, Rubem Braga etc. Hoje quem são os amigos críticos e escritores?

  • Mindingo 28/04/2008 at 16:38

    Ops, leia-se “dignos” e não “signos”.

  • O Cínico 28/04/2008 at 17:18

    Pois é.

    No mundo já houve melhores machados e rosas…

  • ale staut 28/04/2008 at 18:33

    a postagem fala muito sobre meu momento. obrigado!

  • C. S. Soares 28/04/2008 at 18:36

    Pois é Sérgio. Falta mesmo esse suplemento literário no Brasil. Quem sabe uma união interdisciplinar de forças na internet acabe suprindo a lacuna? Aguardemos… Forte abraço!

  • Guilherme Massari 28/04/2008 at 22:37

    Curiosa invenção, esse direito de ser resenhado. Parece mais certo que os críticos ou quem seja tenham o direito de não comentar os livros de Rubem Mauro Machado, particularmente se não os acharem merecedores de atenção – impressão que as ‘proclamações’ carregadas de clichês e ressentimento provavelmente ajudam a disseminar. Como já se sugeriu acima, dizer apenas que nossos suplementos são minguados é usar um foco muito, muito estreito para apresentar da cena nacional. A cultura letrada é relativamente mirrada entre nós em todas suas manifestações. Raros momentos de boa crítica, raríssimos momentos de boa literatura. Se vamos utilizar a metáfora dos proto-engraxates, digamos logo que as botas espanholas estão um tanto além do nosso alcance em quase todos campos da cultura, e não apenas no dos suplementos literários. Mas, afinal, é de se questionar a relevância dos suspiros pela Europa, quase oito décadas depois de Drummond ter descrito tão precisamente o que há de limitado, e estéril, nesse velho vício nacional.

  • Felipe 28/04/2008 at 22:45

    Off-tópico: Sérgio, você viu que a C&N lançou uma nova tradução de Moby Dick? A matéria da Folha abordou a tradução da primeira frase do livro. Lembrei do seu post, em janeiro. Creio que acertaram: “Trate-me de Ismael”. Um abraço

  • Yguassu Paraguaraná 29/04/2008 at 00:40

    Esta é boa… Direito de ser resenhado! Só podia ser texto publicado naquele jornaleco paranaense mesmo. Ou seria paraguaio?

  • Anderson 29/04/2008 at 10:45

    Num dos comentários aí em cima, alguém torceu o que o Machado disse e todo mundo alucinou o sentido do texto junto… Eu, hein?! O cara está falando é algo até batido: a crítica literária na imprensa funciona como uma troca de favores; e ele não concorda com isso. Ele tem, afinal, o direito de ser resenhado sem precisar ficar puxando saco de jornalista.

  • Cezar Santos 29/04/2008 at 11:44

    Escrever livro é ato de resistência, mas não só… é também vaidade, egolatria, autoengano e um punhado de qualificativos que podem ser enfileirados.
    Quem quiser escrever livros que escreva, só não vale usar dinheiro público para isso. Sem subvenção o cara pode escrever o que queira, sabendo que as regras do jogo são pesadas num país iletrado. Pode até ficar choramingando falta de divulgação, de resenha etc. O choro é livre.
    Agora, quando a gente descobre um autor novo de qualidade (ou redescobre num autor consagrado um título pouco conhecido), cara, que dádiva, que maravilha. Mas o que tem essa última frase com o raciocinio anterior que eu vinha desenvolvendo? Acho que nada… Acho que divaguei, perdi a noção, como dizem…

  • Cezar Santos 29/04/2008 at 11:46

    Mas que é nojento esse joguinho de eu te elogio e tu me alogia, isso é. Aquelas resenhas da Veja, enchendo a bola de seus jornalistas quando escrevem umas besteirinhas, são tristes, não são? Acho que já vi essas coisas na Folha e no Globo também….sinceramente..

  • Eric Novello 29/04/2008 at 13:00

    Sérgio, bom mesmo o tópico. Me assusto um pouco (me permitam o me iniciando) quando vejo releases espalhados por aí como se de autoria do jornalista/jornal. Deviam pagar direito autoral para quem os escreveu originalmente.
    Outra, o número de leitores de jornais e revistas está diminuindo. Entonces, também está o número de leitores dos “suplementos culturais”. Na hora de enxugar o orçamento quem será que sofre mais? O caderno de economia ou de “menina na janela” é que não. Mas há espaços, há soluções internéticas. Se tem uma coisa que a internet cria é isso: espaço. Mesmo que para enfiar a cabeça dentro e apagar a luz.
    No site Aguarrás resenho o que me chega em mãos e uma coisa ou outra que compro. Análise crítica, parcial como todas são, área em que engatinho com prazer, como já dise ao Saint uma vez… ainda não perdi nenhum amigo, mas também não fiz nenhum novo com minhas opiniões :)

  • Marcelo Moutinho 29/04/2008 at 15:13

    Presumo que, mais do que críticos, o que falta mesmo é leitor…

  • Harpia 29/04/2008 at 17:21

    Escritores são mais chorões que certas torcidas bicolores” – “aquele editor moderninho de barbicha que pensa que Cervantes é o inventor do sanduíche de lombinho com abacaxi
    Caramba, chegou a corroer a tela do micro … :-)
    Mas me parece que o protesto do Machado é bem válido. Se são poucos os espaços para divulgação, e os critérios de escolha são baseados em relações de cumpadrio e jogos de interesses, não só os autores que estão “fora da panela” são prejudicados, mas os leitores também.

  • Harpia 29/04/2008 at 17:21

    Escritores são mais chorões que certas torcidas bicolores” – “aquele editor moderninho de barbicha que pensa que Cervantes é o inventor do sanduíche de lombinho com abacaxi
    Caramba, chegou a corroer a tela do micro … :-)
    Mas me parece que o protesto do Machado é bem válido. Se são poucos os espaços para divulgação, e os critérios de escolha são baseados em relações de cumpadrio e jogos de interesses, não só os autores que estão “fora da panela” são prejudicados, mas os leitores também.

  • Harpia 29/04/2008 at 17:24

    Desculpem o comentário duplicado.

  • Tomás 29/04/2008 at 18:56

    Que a imprensa dedica pouco espaço para literatura não há dúvida. Agora, quanto a resenhar apenas os amigos, oras, isso depende da qualidade da publicação.
    Quem lê a revista Veja não pode esperar por pluralismo, imparcialidade e ética, né não?

  • Sérgio Rodrigues 29/04/2008 at 19:33

    Obrigado pelo bom fora-de-tópico, Felipe. Não sabia. Deixei um comentário no seu blog sobre isso.

    Harpia, quer dizer que você achou ácido demais? Vou conferir a receita de novo, posso ter errado alguma coisa…

    No mais: caramba, moçada, escrever com o fígado é isso aí. Talvez o “direito à resenha” seja uma figura pouco feliz do Rubem Mauro, mas com certeza não é ele o vilão dessa história.

    E teve uma coisa que não entendi direito, Guilherme Massari: para você, tomar um suplemento literário espanhol de qualidade como referência, meta, alvo de admiração, o que seja, é sintoma de deslumbramento diante da cultura européia, certo? Isso significa que nenhuma referência estrangeira nos serve, somos radicalmente indígenas? Ou um suplemento de Moçambique, por exemplo, seria um modelo aceitável?

    Abraços a todos.

  • Nazarethe Fonseca 29/04/2008 at 22:28

    Literatura não deveria ter fronteira e muito menos pátria, já que quando os escritores morrem esquecidos somente o país de sua naturalidade leva a fama, quando nunca lhe deu nada a não ser desprezo. O escritor como disse bem o texto agüenta, resiste sem glamour.
    O Brasil a muito já tem sua própria literatura, seus estilos. Se um escritor brasileiro for resenhado lá fora, ótimo. A literatura merece mais falação que os crimes, desgraças e escândalos. Suplementos escritos são lidos por uma parcela da população, a grande maioria esta diante da TV assistindo a novela. Programas voltados à literatura são raros e “considerados pelo grande publico” “enfadonhos, ou melhor, chatos”.
    Nós evoluímos e já basta à primeira resenha que Pero Vaz de Caminha fez do país, ele só pensava em batizar e vestir os índios, em ouro e prata. O Brasil foi visto como um paraíso a ser explorado pelo colonizador. Ninguém perguntou ao índio, mas ele já possuía sua literatura e identidade, a questão é que ele a falava e não escrevia. Basta aqui uma lenda indígena e teremos uma boa resenha e bem brasileirinha.

  • Guilherme Massari 29/04/2008 at 23:53

    Sérgio, quis apenas sugerir que os termos do post, tanto no foco fechado nos suplementos, quanto na comparação com um país um tanto diferente do nosso, tendem a levar a conversa por uma via pouco produtiva – a de um lamento simplificador, que dificulta a compreensão de nós mesmos, em vez de fazê-la avançar. Claro que ter modelos é importante, mas transformá-los em ‘meta’ já me parece um rebaixamento voluntário dos próprios horizontes. Mas talvez os nossos estejam mesmo muito arriados.

  • Sérgio Rodrigues 30/04/2008 at 00:58

    Massari: tem razão, o lamento é sempre simplificador. O que não significa que não possa ser cabível e até necessário. Não se trata de meta, eu só mencionei a palavra no meio de uma enumeração querendo dizer “o que se quiser”. O Babelia não é nem de longe o melhor caderno do mundo. É, talvez, o mais parecido com o nosso jeito de fazer suplemento literário, até pelas fragilidades, por isso o vejo como referência. Sei que temos massa crítica para fazer bem melhor nesse campo. Já fizemos, e o Brasil não era menos iletrado na época. Onde você pareceu ver servilismo, o que há é justamente o contrário.

  • C. S. Soares 30/04/2008 at 07:47

    É elucidativa a frase de Naipaul que Rosa cita em seu artigo: “No puedo interesarme por la gente a la que no le gusta lo que escribo, porque al no gustarte lo que escribo me estás despreciando”.

    À primeira vista, egocêntrica (portanto entrópica), mas elucidativa.

    Nos dias de hoje (ainda mais nos dias de hoje) é ingrata a luta do autor pela atenção do leitor (espécie em extinção).

    Torna-se então, creio, uma obrigação do escritor, que queira de fato comunicar uma idéia, além de escolher eficientemente as palavras, direcionar sua mensagem a um público-alvo apropriado.

    Se serão 6 leitores, ou menos, não importa, é um problema que se ajusta.

    Em resumo, o escritor quer se comunicar mas a comunicação efetiva depende do interesse do receptor na mensagem comunicada.

    O escritor escreve para si? Sim e não. Se a resposta é sim, por que reclamar-se da falta de espaço de divulgação? Não faz sentido. Se a resposta é não, uma postura humilde é necessária: não se agrada a gregos e troianos, é necessário escrever, mas este ato em si (não vejo como ser diferente) é um ato de doação.

    Em resumo: escreva, escreva e escreva. Mas não achemos que basta escrever (para que como em O Campo dos Sonhos) que eles, os leitores, virão.

    Tenhamos curiosidade de descobrir quem eles são e seus anseios.

    Aproveitando o ensejo, algum dos amigos do TP, saberia onde eu posso comprar, aqui no Rio, o romance “A menina morta”, de Cornélio Penna?

    Vejam que curioso: o romance foi considerado um dos melhores da literatura nacional. O autor, morto há exatos 50 anos, pelo mesmo período, jamais voltou a ser publicado. Nem no site Estante Virtual se encontra tal livro. Enigmático.

  • Rubem Mauro Machado 30/04/2008 at 08:26

    Alô galera, aqui é Rubem Mauro Machado entrando na área. O Sérgio me chamou para a dança mas não quis me manifestar de imediato; preferi antes ver que tipo de comentários seriam suscitados, sabendo que a clientela dele é saudavelmente iconoclasta e aguerrida. Dispostos a uma boa briga parecem quase todos, o que é ótimo; só que boa parte parece não saber bem no quê ou em quem mirar. Algumas intervenções são muito engraçadas. Como a do Cínico. Começo por ele, por se reportar logo ao título da coluna. Diz ele que no mundo já houve melhores Machados e Rosas. Na parte que me toca, Cínico, devo dizer que concordo com você, eu também prefiro o Grande Machado, meu trisavô (espiritual, é claro). Isso só mostra que eu e você temos bom gosto (embora, como provavelmente você nunca me leu, falte uma perna a seu comentário, ele é uma simples boutade vazia). Mas dizer isso, agora que o primeiro Machado é uma unanimidade, um mito, é muito fácil para nós dois. Diria até que é uma covardia. Se você, num acesso de desvario crítico, tivesse afirmado o contrário, aí seu comentário, embora equivocado, teria pelo menos a grandeza de ir contra a corrente, contra o senso comum. Brandir ironias fáceis, como um Napoleão de araque montado no cavalo branco do cânone? Francamente, Cínico, não é possível que você não seja capaz de proezas maiores.
    Aproveito o mote para dizer que a grandeza de alguns antepassados não deve ser impedimento para que, com nossas limitadas forças, deixemos o nosso testemunho sobre o nosso tempo. Acredito que meu romance “A idade da paixão”, ao contar a história de um ano decisivo na vida de um jovem de 18 anos dos chamados “anos dourados” (dourados? Só se for “ouro de tolo”) tem potencial para falar ao coração não só dos meus contemporâneos mas também aos dos jovens de hoje, tão diferentes e ao mesmo tão parecidos com os do meu tempo – e me sinto contente e realizado por tê-lo escrito.
    Jonas, depois de dizer que “está se lixando” para os direitos dos escritores, acrescenta que autor “choramingando” ganha a sua antipatia. Mais uma vez, concordo com ele. Choramingar é coisa de boiola, não é Jonas? Mas é bom fazer uma ressalva: denunciar o comodismo, o compadrio, a indiferença de veículos que supostamente teriam o dever de divulgar a produção cultural do país não é o mesmo que choramingar. Reconheço, eu tenho um defeito grave, eu pertenço a uma geração (sou um garotão, lamento dizer, já em plena metade dos seus sessenta) que foi forjada na luta por seus direitos, que aprendeu a não ser conformista, que aprendeu a não engolir tudo sem espernear, que encarou uma ditadura (não sei sua idade, Jonas, mas se você quiser saber o que para mim significou viver sob uma ditadura, recomendo que leia meu romance “Lobos”, da Record). Tivesse eu ficado falando mal dos editores numa mesa de bar, estaria choramingando. Quando consubstanciei minha denúncia num artigo, expus idéias de maneira estruturada, dei a cara a tapa e contribuí para um debate, abri uma instância pública, tive uma atitude política, fui além do comodismo e covardia dos que nunca reagem.
    Já o Paraguaraná, no seu aguado comentário, acha engraçado escritor querer ser resenhado e ainda esculhamba o Rascunho por ter publicado meu artigo. A Harpia brilhantemente respondeu por mim: o direito não é só do escritor, também é do leitor, que deve ter um mínimo de informação isenta para escolher suas leituras e decidir o que lhe serve ou não.
    Por fim o Guilherme Massari (esse pelo menos não se esconde atrás de pseudônimos) diz que “os críticos têm o direito de não comentar os livros de Rubem Mauro Machado, se não os acharem dignos de atenção.” É óbvio, meu caro. Certas coisas estão implícitas e num determinado nível cultural não precisam ser ditas. Quando afirmo que os escritores brasileiros têm o direito a ser resenhados, estou pensando em escritores de verdade, estou me referindo a obras que tenham um nível mínimo de qualidade. Quando escrevi meu artigo que gerou este debate, tive o cuidado de não me colocar em questão, para não parecer que só falava em causa própria, contei histórias ocorridas com outras pessoas. Mas o meu caso é exemplar. “A idade …”, lançado no final de 1985, teve excelentes críticas em veículos de peso e ganhou o Jabuti de melhor romance de 1986. Esgotada a primeira edição, ficou vinte anos esquecido. Relançado ano passado pela Bertrand, reescrito de cabo a rabo pelo autor, não foi sequer mencionado, que dirá resenhado, por nenhum grande órgão da imprensa brasileira, com exceção do hoje apagado Jornal do Brasil. Será que um livro com essas credenciais não é digno de ser apresentado à nova geração de leitores? Tudo bem, prêmios não são garantia de nada, conheço péssimos escritores que ostentam vários no currículo. Mas se o prêmio foi imerecido, não será o caso de desmascará-lo?
    Para encerrar, e peço desculpas por ter sido tão longo, já que me chamaram para o centro da arena, lanço um desafio público: desafio qualquer leitor deste blog, se quiser a arriscar os trinta e poucos caraminguás que ele deve estar custando, a dizer que meu romance não é bom. Não vale dizer que não é nenhum “Vermelho e o negro”, “Guerra e paz”, “Memórias Póstumas…” ou “São Bernardo”, aí é sacanagem. Meu desafio é para que digam que não é bom, no mínimo, bom. Fazer um romance é uma tarefa tão difícil, que se ele for no mínimo bom, já terá sido para mim um êxito colossal. E que tem o direito, por seus méritos, de chegar, sim senhor, ao conhecimento do público.
    Abraços para todos do
    RMM

  • C. S. Soares 30/04/2008 at 09:01

    Rubem, não penso que o JB esteja assim “apagado”. É preciso que redescubramos o JB. O caderno Idéias & Livros, por exemplo, parte que mais diretamente nos toca, é um valoroso trabalho.

  • joao gomes 30/04/2008 at 09:49

    WALLLLLLLLL!

    RMM já me convenceu a ler seu livro para fazer a resenha. Sabe, RMM tenho um blog onde, amiúde, arrisco fazer minhas “Resenhas Livres”. Verificarei se encontro teu livro e depois farei a resenha.

    Teu artigo estava muito bom lá no Rascunho e, agora esse adendo, me provocou a buscar conhecer teus escritos. Meu blog é um Laboratório Alquímico onde faço minhas esperimentações. (Link supra).

    Desejo Sucesso & Paz!

  • joao gomes 30/04/2008 at 09:52

    digo, (Link infra.)

    …na fila está “A cidade inteira Dorme” de R.Bradbury; e “O Caçador de Andróides” de F.K. Dick. Estou na fase de F.C.

  • Tibor Moricz 30/04/2008 at 12:04

    Que legal, João Gomes (Tibor, na platéia, vendo os gladiadores se enfrentar na arena e morrendo de rir).

  • Tibor Moricz 30/04/2008 at 12:05

    Ah, putz… não é FKD, João. É PKD.

  • joao gomes 30/04/2008 at 12:41

    …é vero Tibor.

    Escuse me baby!

  • O Cínico 30/04/2008 at 13:23

    Como fui citado, esclareço que falava de Machado, o crítico, e não Machado, o romancista. O crítico Machado disse certa vez: “Não se fazem aqui (falo sempre genericamente) livros de filosofia, de lingüística, de crítica histórica, de alta política, e outros assim, que em alheios países acham fácil acolhimento e boa extração; raras são aqui essas obras e escasso o mercado delas. O romance pode-se dizer que domina quase exclusivamente. Não há nisto motivo de admiração nem de censura, tratando-se de um país que apenas entra na primeira mocidade, e esta ainda não nutrida de sólidos estudos.”

    Os “sólidos estudos” continuam em falta. É, pois, um despropósito culpar a imprensa.

  • Sérgio Rodrigues 30/04/2008 at 19:36

    Obrigado pela visita, Rubem. Espero que muitos leitores topem o desafio.

    Ah, e Cínico: assim você não justifica o seu nome, rapaz. Demonstrar insatisfação e cobrar sempre mais da imprensa nunca será um despropósito. Pelo contrário, é o que a move. Quem garante é um jornalista com 26 anos de carreira.

  • Harpia 30/04/2008 at 23:05

    Sérgio,
    Ácido, sim, mas não demais, de modo algum. Era para ser um elogio …
    Rubem,
    Obrigado pelo brilhantemente, mas é bondade de sua parte, eu apenas citei um detalhe óbvio, sem informação adequada, o consumidor é prejudicado.
    Ah, mas é o Harpia, camarada! :-) (também, quem mandou eu escolher um nick desses …)
    E, como admiro um profissional que confia no seu taco, já botei o seu livro como o próximo da lista, assim que acabar o Putas Assassinas (Bolaño é mais uma descoberta que devo ao dono deste espaço) vou encarar este “desafio”!
    Abraços,

  • Guilherme Massari 01/05/2008 at 00:19

    Pois é, Sérgio, sem dúvida que o lamento é cabível e necessário, mas, como você deixou claro, indispensável mesmo é entender onde estamos, e ter um mínimo de criatividade e ambição para pensar o que se pode fazer nessas circunstâncias. Impressionante como nos últimos anos o pensar pequeno se tornou, mais do que uma forma coletiva de apaziguamento das consciências, sinal mesmo de ‘maturidade’ e ‘realismo’. Isso é sim muito verdadeiro da imprensa, mas é algo perceptível para além desses limites, como está implícito no comentário do Marcelo Moutinho. Rubem, não tenho como discutir se você é ou não bom escritor, mas seu comentário é tão evidentemente motivado pelo silêncio em torno da reedição do seu livro que isso enfraquece um bocado o seu caso. Não duvido que o romance seja bom e a imprensa tenha errado em ignorá-lo, mas atribuir o erro a conchavos e compadrios me parece uma leviandade lamentável, para não dizer desrespeitosa. Não estou dizendo que eles não existem, mas que presumir que eles sejam a regra, não apenas em um mas todos grandes veículos, é um enorme salto especulativo que você deveria tomar mais cuidado antes de executar. Abraços,

  • Rubem Mauro Machado 01/05/2008 at 11:01

    Oi turma, obrigado a todos que se manifestaram. Só o fato de haver alguém falando de livros, e de literatura em geral, neste país em que o rasteiro consumismo destes vazios tempos neoliberais busca fazer de todos nós meros consumidores e não agentes conscientes, já é muito estimulante. A literatura é uma das armas mais poderosas que conheço contra a alienação, contra a reificação do ser. Ela nos faz mais inteiros, nos restitui à nossa humanidade. Ela é um antídoto contra o vazio que nos ameaça. Por isso, parabéns a todos nós.
    Só queria dizer a você Guilherme que não sou tão paranóico para achar que existe uma conspiração de silêncio armada contra mim – e tento não falar só por mim. Sempre deixei claro que a indiferença sobretudo dos grandes jornais e revistas é estrutural. As editoras também têm culpa, pois são muito amadoras. Mas me concentrei no papel da mídia, senão abriria demais o leque, teria de escrever um livro ao invés de um artigo para abranger todos os aspectos da questão. Depois que saiu o meu artigo no Rascunho, fiquei um pouco preocupado: fui soterrado por e-mails de jovens escritores lamentando a sua própria situação. Mas quando comecei a escrever nunca achei que seria fácil. E a verdade é que publicar está cada vez mais difícil; e não é só no Brasil, lá fora também. E conseguir algum espaço crítico é um luxo e um acidente. Mas acredito que isso não deve e não vai paralisar quem estiver possuído dessa terrível, mas também maravilhosa, compulsão de converter vida em linguagem. Já que não respondi aos que me escreveram: lamento se involuntariamente semeei alguma tristeza ou desânimo. A realidade não é fácil. Mas só haver descoberto o ato de escrever como uma das coisas que justificam a nossa vida já é uma fonte inesgotável de alegria. E quem é valente não deserta da batalha.
    Abraços

  • Ellen 29/10/2008 at 03:33

    Interesting to know.

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