Machado na cabeça

02/07/2008

A Flip começou cabeçuda, densa, talvez um pouco fria, com a conferência do crítico Roberto Schwarz sobre “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, o homenageado da festa este ano. Schwarz é um analista brilhante da obra machadiana, ponto. A leitura que faz do velho Joaquim Maria como o mais ácido crítico das relações de dominação de um país patriarcal e escravocrata é tão luminosa que, para mim, mais do que jogar novas luzes sobre o autor, ajuda a espantar as próprias sombras de irrelevância que costumam rondar a literatura. Mas quem já leu seus dois livros essenciais sobre o tema, “Ao vencedor as batatas” e “Um mestre na periferia do capitalismo”, não encontrou muita novidade na mesa terminada agora há pouco.

A não ser, talvez, quando Schwarz terminou a leitura de seu ensaio e passou a responder perguntas da platéia. O clima de improvisação fez bem à noite. É interessante sua tese de que a virada ocorrida no conceito de Machado, de jóia do conservadorismo brasileiro a autor subversivo, coincidiu com o golpe militar de 1964, quando, na opinião dele, os últimos resquícios do otimismo modernista foram soterrados e “todo mundo perdeu a ilusão com a elite brasileira”. De repente, aquela “filosofiazinha pessimista antipática” do homem (palavras de Manuel Bandeira) era nossa melhor tradução. Só faltava aprender a ler direito seus narradores detestáveis, como Brás Cubas e Bento Santiago, não tomando suas palavras pelo valor de face. E para isso, além dos críticos Helen Caldwell (americana) e John Gledson (inglês), ninguém contribuiu tanto quanto Roberto Schwarz.

O show de Luiz Melodia começa daqui a pouco. A temperatura deve subir.

7 Comments

  • Tibor Moricz 02/07/2008 at 21:40

    Luiz Melodia? Cruzes, a Flip esse ano anda meio esquisita…

  • Tibor Moricz 02/07/2008 at 22:02

    Completamente off topic.

    Assistam ao vídeo abaixo. É muito engraçado e… inteligente. SC Soares vai adorar. Ah? Que? Estão
    assistindo o jogo? Tá, eu saio da frente. Não, não sou filho de vidraceiro…(ahhhh…1×0 pra LDU, bem feito!).
    Volto depois. Não precisa? Volto assim mesmo!

  • Thiago 02/07/2008 at 22:07

    Concordo que para quem leu os livros do homem nada de novo foi dito na explanação. Mas como é bom ver um intelectual de primeira grandeza (talvez tão grande, na sua área, quanto Machado), sem os maneirismos da “celebrintelectuais” do nosso tempo.

  • Maria Claudia 03/07/2008 at 10:42

    Machado está para a literatura brasileira asssim como Shakespeare está para a literatura de língua inglesa, mas a gente não se dá conta.
    Infelizmente o primeiro contato que temos com seus textos é na escola regular, onde a ótica obtusa subtrai o prazer de ler em geral e o prazer de ler Machado em particular.

  • Clelio Toffoli Jr 03/07/2008 at 14:02

    Grande Maria Cláudia, disse quase tudo! Sem contar que as edições escolares das obras de Machado são absurdamente toscas e sem charme, o que contribui para subtrair um pouco o prazer da leitura. E ainda têm comentários… ui.

  • C. S. Soares 03/07/2008 at 15:13

    Caldwell (falecida, salvo alguma informações mais acurada), Gledson, Schwarz. Acrescento Bosi, Proença Filho, Secchin. Enfim, ainda é pouco para um autor da estirpe de Machado, que merecia que muitos mais se debruçassem sobre a sua obra. Sempre, algo de novo parece surgir daquelas páginas centenárias e, como agora se repete ad infinitum, oblíquas.

    Eu, particularmente, gosto do “enxadrista” nítido em sua obra.

    Publiquei na Revista Brasileira n.55 da ABL, “especial Machado de Assis”, um modesto artigo intitulado “Machado de Assis, o enxadrista”, onde, além de relacionar historicamente o aficcionado pelo “jogo eterno” (Machado foi solucionista e problemista) e passagens de sua obra em que o xadrez é citado, apresento, entre outras correlações, uma lista de autores “enxadristas” (Nabokov, Rushidie, Amis, Cervantes, Ibsen etc), o que mostra que literatura e xadrez andam de mãos dadas.

    Surpreende-me a falta de análises do xadrez em sua obra. Exceção digna de ser comentada é o texto do professor Romano de Sant’Anna, na mesta Revista Brasileira 55, em que, analisando o romance “Esaú e Jacó”, aborda o tema.

  • Neua Ladeira 06/07/2008 at 16:09

    Como pude viajar por tanto tempo?Como pude esquecer as noites de São João?
    Biscuit dos versos de um português ali plantado antes sem viço sem cor sem madrugada…Machado sempre com Assis assiste como pena levada o destino de imortal ser…Neuza Ladeira

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