Machado: ‘Reescrevam-me à vontade, mas…’

09/05/2014

machado de assis caricatura do jovemA imortalidade das letras é para poucos, escrevi certa vez com a pena prematura dos vivos, mergulhada naquela tinta mista de arrogância e candura a que chamamos sangue. Corrijo-me, leitor. As nuvens que nos servem de leito lembram alojamentos militares, o pé do insigne tribuno baiano no nariz do dramaturgo francês, o ironista irlandês a roncar junto da orelha peluda do romancista russo. É natural que tal aperto desande por vezes em altercações ríspidas e babélicas, afugentando o sono.

Paciência. As condições insatisfatórias de nossa instalação no Olimpo não devem preocupar os vivos, e já constituímos uma comissão para redigir em três mil vias, todas adornadas com excelentes carimbos, um requerimento aos andares superiores da administração celeste. A menção ao relativo desconforto em que padecemos a eternidade tem o fito único de ilustrar a cena da chegada do boato.

Boatos, ninguém ignora, são leves, rápidos, pouco menos que invisíveis, e guardam o condão de medrar no aconchego dos ambientes atarefados. Este me foi trazido por Alencar, um ponto de exclamação a lhe vincar a bela testa, e dava conta de um projeto grandioso ao qual se dedicam os lentes de nosso país: reescrever-nos de cabo a rabo.

Tentei meter o caso à bulha; disse ao colega que há termos delicados num século e grosseiros no século seguinte; não logrei sossegar seu espírito, que é tudo o que resta dele, e resignei-me a ouvir os pormenores de sua aflição: as verbas públicas de vulto a adubar a empreitada, os 600 mil exemplares vertiginosos com os quais pretendem soterrar meus cinquenta, vinte, dez, talvez cinco leitores…

Passei dias embatucado. O diabinho da vaidade enfiava-me rancor num ouvido, o anjo do desprendimento metia benevolência no outro, e nesse embate acabei com enxaqueca. Ventilei o tópico em palestras vadias, nossa atividade principal cá em cima, com amigos e conhecidos de chapéu. Soube que Defoe, Dumas, Stendhal, Melville e Twain são leitores contentes das versões ditas simplificadas de suas obras; chegam a reputá-las a suprema homenagem a qualquer escritor, por demonstrarem que as criações podem ser privadas das mesmas palavras que lhes dão corpo metafórico – como de um corpo literal nos privou a morte –, e ainda pulsar.

Desse ponto de vista arejado não compartilham todos, é certo. Flaubert bufou prodigiosamente por quinze minutos, com gálica perfeição; Nabokov cacarejou um riso escarninho; Dostoievski, aquele doudo, perorou o assassínio de todas as velhinhas que se meterem com seu vocabulário e sintaxe. Deixei os ilustres romancistas às voltas com seus demônios e me abanquei numa beira de cúmulo para meditar.

Um dos defeitos mais gerais entre nós, brasileiros, é achar sério o que é ridículo, e ridículo o que é sério. Sabia-o antes de ser um autor defunto, e mais o sei agora. A nata de nossa crítica literária levou 67 anos para começar a compreender o que penso de Bentinho, e querem que ginasianos de joelhos ralados e álbum da Copa debaixo do braço decifrem tudo antes do bigode: se conto isso a Molière, inspiro-lhe uma comédia em dois atos. Mas vamos à conclusão a que cheguei.

Reescrevam-me à vontade, caros compatriotas; cancelem palavras raras e chistes eruditos; amputem postilhões de Éolo, hidras de Lerna e asas de Ícaro; aplainem sem piedade as ordens inversas, as ousadias sintáticas, todas as cousas grandes ou miúdas. Depois de certa adaptação de Dom Casmurro para aquilo a que chamam TV, e que aqui captamos na parabólica, creio poder afirmar que já nada me fará mossa. Se de resto me agastar algum aspecto dessa faina, pago-lhes com um piparote, e adeus.

Entretanto, será demasiado pedir-lhes que não sejam mais ingênuos que o habitual? Fazer uma versão “simplificada” de meus livros vai muito além de atualizar o vocabulário: há que cortar fundo na carne, na proporção exata, nem mais nem menos, do sólido analfabetismo funcional cultivado com tanto esmero no corpo do povo. Ocorre que o mesmo pensamento nu, cristalino embora, é hermético para quem não aprendeu a pensar. Em caso extremo pode ser de bom alvitre suprimir a obra de todo, deixando o nome do autor na capa e um maço de folhas virgens de entremeio. Teria sua graça.

Mas devo adverti-los de que Alencar não se encontra em disposição tão benigna. Ficou ontem até noite alta bebendo com Dostoievski; hoje de manhã dei com ele a conspirar com uns índios. Cabe lembrar que a prudência é a primeira das virtudes em tempos convulsos.

63 Comments

  • Silvio 09/05/2014 at 17:18

    Sérgio, tentando evitar o assunto principal, pois não gosto de polêmicas, eu queria lembrar um ponto que ainda não vi ser mencionado. Está havendo uma discussão por causa dessas versões e um fato curioso é que uma obra envolvida no caso, ‘O Alienista’, é uma espécie de versão/releitura machadiana de um conto de Edgar Allan Poe (http://en.wikipedia.org/wiki/The_System_of_Doctor_Tarr_and_Professor_Fether). Quer dizer, existem versões e “versões”. Li muito pouco de Machado de Assis, mas acredito que ele era um grande admirador de Allan Poe, e não por acaso foi responsável pela mais célebre tradução entre nós do poema ‘O Corvo’.

  • catão 09/05/2014 at 20:59

    Sérgio, há tempos eu não lia um texto tão saboroso, além, claro, de muito inteligente !

  • shirlei horta 09/05/2014 at 21:06

    Que coisa maravilhosa…. Um texto de que Machado não reclamaria ou que o confortaria depois das tantas agruras recentes. Eu nunca li, não leio e não estou interessada em obras “simplificadas” (!) de quaisquer autores. Só tenho a lamentar o que uma professora (!) quer fazer com o maior de todos os escritores brasileiros.

  • osmildo 10/05/2014 at 00:19

    Por ocasião da fatídica prova aplicada por um professor de Brasília, a então homenageada, Valesca Popozuda, em tom de ironia, afirmara que a título de justificar combatida reverência, passaria ela a ler Machado de Assis. Começo a entender a qual “Machado” a referida volumosa poderia estar se referindo. A pergunta é: Se o objetivo é emburrecer, fica a sugestão para a presidenta bancar um resumo de toda a obra com uma versão mais OTAURIZADA e POGRESSISTA da oobra, incluindo atémesmo os KKKKKs, no lugar dos risos, e LOL substituindo as gargalhadas. kkkkkkkkkkkkkk

  • LUIZ CARLOS TOLEDO 10/05/2014 at 00:50

    Dia desses eu estava chegando em casa, dirigindo, e repentinamente me deu uma vontade imensa de reler trechos de algum Machado de Assis. Qualquer Machado. Ou talvez o início do Dom Casmurro, quando ele explica a origem do apelido. A vontade nada tinha a ver com as histórias, mais do que conhecidas, mas com o estilo machadiano, que conheci aos 14 anos. Quer dizer então que alguém quer privar os novos garotos de 14 anos, mesmo que raros garotos, da oportunidade de se surpreender com a forma, com o estilo, oferecendo um Machado pasteurizado, fraudado?

  • Marcos Vinícius 10/05/2014 at 00:50

    Atestado de burrice para os brasileiros onde não conseguem interpretar os livros de um dos nossos maiores escritores…podiam passar as obras pra gibi que daria mais certo.

  • leandro almeida 10/05/2014 at 06:11

    Eu tenho dificuldades em aceitar uma “atualização de açougue” da escrita de Machado de Assis. Nos tempos de escola, Dom Casmurro foi o único que gostei de ler. Faz 20 anos. Lembro-me das dificuldades de quem apenas tinha 16 anos e nenhum hábito de leitura. Foi precisamente Machado que começou a me puxar de meu mundinho para a companhia das letras. As notas de rodapé, o glossário ao final do livro… minha salvação. Assim, pude começar a entender, ainda que superficialmente, o que era Machado de Assis.

    Correndo riscos, digo que essas atualizações devem mesmo significar um atestado de empobrecimento do Português no Brasil. Não é que nossa linguagem do dia a dia vai ser crivada de termos machadianos, pois que tal situação seria até mesmo ridícula. Mas temo que seja cada vez mais ininteligível, para os próximos brasileiros, o universo dos grandes escritores nacionais.

  • augustocorreadeoliveiraneto 10/05/2014 at 09:19

    Sergio, seu texto acima deve ser reescrito para a professora que vai reescrever o nosso – não o deles – Machado.

  • Ataliba 10/05/2014 at 09:35

    Machado deve está se sentindo estuprado

  • Marco Caetano 10/05/2014 at 09:49

    Caro Sérgio Rodrigues,
    Eu, teu leitor, aqui, num dos únicos em que se faculta ler, obriga-se a voltar e sempre exclamar: “devo começar de novo, pois em minha ignorância, perdi algo mais de bom pelo caminho”. A literatura não se propõe a ser fácil, não é fácil, não aperfeiçoa o indivíduo, não se presta a transformar o mundo (Bloom). Além de não contribuir para tornar as pessoas melhores, e nem para a paz mundial, o ato de ler faz coisas terríveis, porque confronta o indivíduo consigo mesmo e com o mundo. Desse choque, afloram coisas íntimas e inevitáveis. Basta saber que, na resultante das forças, quem nunca perde é o mundo, permanentemente imutável; embora quem sempre ganhe é o indivíduo. A leitura te dá uma arma para você abater todos aqueles “diabinhos” que fervilham dentro da gente. Portanto, a literatura resta sem sentido, e o leitor desarmado, quando a querem transformada em papinha para bebês. Muito obrigado, mas prefiro uma indigestão a alguém mastigando minha comida. Nesse caso específico, a tríade masculina de Machado é para os que já perceberam que a vida é difícil (mas é essa aí, mesmo), já os sobrecarregou com algum tipo de bagagem, criando uma necessidade insuportável de saber: “e agora? Para onde ir?” Não chego ao ridículo de comparar o caso à, por exemplo, uma hipotética restauração da Vênus de Milo (seria uma anomalia com a maior das boas intenções), mas o que fazer se alguém tiver a ideia de mastigar Guimarães Rosa ou Euclides da Cunha. Pobres Mark Twain e Monteiro Lobato. Alguém disse que as palavras sangram. Nesse caso, mais do que sangrar, elas irão se decompor bem na nossa cara. Não quero estar vivo para testemunhar isso. Cordialmente, Marco Antônio Caetano.

  • martina 10/05/2014 at 10:36

    Reescrever textos alheios é um atestado de empobrecimento da nossa cultura.
    Muito bom o artigo. Parabéns!

  • ze gomes 10/05/2014 at 10:37

    Admirável exercício no estilo machadiano, Sérgio. Parabéns! Tive o maior prazer em ler. E sei que esse texto só foi possível porque você sempre deve ter saboreado Machado de Assis no original, sem essa bananada que estão aprontando.
    Li o comentário do Silvio e lembrei de uma coisa: Machado sempre bebeu na fonte dos clássicos, mas não ficou escrevendo “novas versões de Shakespeare para preguiçosos”. Inspirado em “Otelo” fez Dom Casmurro, e outros contos sobre ciúme e intriga – mas, detalhe: escreveu suas próprias histórias, seus próprios textos, sua visão de autor. Pode até ter traduzido obras para o idioma português.
    A obra de Machadoé maravilhosa. Pouca gente sabe, mas o filme “Se eu fosse você”, do Daniel Filho, com certeza deve ter sido inspirado no conto “As Academias de Sião”, de Machado, que naquela época criou este divertida história de um homem e uma mulher que trocavam de alma e corpos por um tempo. Contudo, Daniel Filho apenas se inspirou, escreveu outra história para o filme.
    A tal “revisora que se diz escritora” deveria procurar escrever um livro dela mesma, poderia até ser “inspirado” em Machado (pois Machado tbm se inspirava em outros)
    Novamente, parabéns pelo delicioso texto. abraços!

  • jarbas 10/05/2014 at 10:41

    Meu Deus, que país estamos vivendo! retrógado, nos últimos 10 anos andamos igual a um caranguejo. É triste ver pessoas que não chegam nem aos pés de MACHADO DE ASSIS. Eu sei que não sei nada, perante esse, mas o pouquinho, em tamanho de um átomo que acho que sei, fora de ler Obras de um Mestre como Machado. Eu em vida, ninguém jamais irá tirar isso de mim, graças a meu bom e maravilhoso Deus…

  • antonio 10/05/2014 at 10:51

    ISSO É UM ABSURDO, NEM VALERIA COMENTÁRIO ALGUM. MAS, QUANDO SE TRATA DE PRODUTO DAQUADRILHA pt, TUDO É NECESSÁRIO, POIS TUDO É POSSÍVEL, PERMITIDO, A ELES. EM TODOS OS ASPÉCTOS ESTÃO DESCARACTERIZANDO O BRASIL, ÊTA CAMARILHA DESTRUTIVA. FORA COM ELES OU ELES NÃO MAIS SAIRÃO. pt É PRÓDIGO EM PRODUZIR CRIMES E LAMBANÇAS.

  • Francisco 10/05/2014 at 11:03

    Belo texto. Agora peça para a professora traduzi-lo para que o povão possa lê-lo, também.

  • BRITO 10/05/2014 at 11:20

    Sérgio, num país em que “nós pega os peixe” e “os livro ilustrado mais interessante estão emprestado” são trechos de livro distribuído pelo MEC, por meio do PNLD, ao tempo de Fernando NADDAD à frente do dito ministério, com o meu, com o seu, com o nosso, não é nada estranho. A autora de tal façanha, vale ressaltar, a fim de que não nos apropriemos indevidamente de direitos autorais, é Heloísa Ramos. E não para aqui, não! O livro é parte de uma COLEÇÃO: Coleção Viver, Aprender – Por uma vida melhor. Melhor?! Se é coleção, tem mais, não!?
    Para acompanhar essa infâmia acima citada, nada melhor do que “pasteurizar” Machado.
    Aliás, é parte de uma política de esquerdas que se apoiam no seu guru, Paulo Freire, que segue, insanamente, a retórica marxista: colonizador x colonizado, opressor x oprimido, elite x massa; vale, também, nós x eles, inocentes x culpados, bons x maus, sem categorias intermediárias.
    O guru demonizava a educação bancária! A propósito dessa teoria, confesso que, se assim fosse tão demoníaca a educação em que o professor ensina a quem não sabe, exalto meus professores de primário, ginásio e colégio. Gostaria, portanto, que meu saldo numa conta de educação bancária estivesse em azulzíssimo!
    Conforme “Um minuto com Augusto Nunes”, num ranking sobre a qualidade da educação em 40 países, feito pelo Grupo Economist, o Brasil aparece em 38º lugar. O governo reagiu! Exige a lanterninha!
    Conforme Rui Barbosa, “A degeneração de um povo, de uma nação ou raça começa pelo desvirtuamento da própria língua”.
    Será que a capa da tal reescritura de “O Alienista” não contemplará a autoria com a expressão “ By Patrícia Secco”!?
    Pensando bem, há pessoas que gostam de joias; outras preferem bijuterias . . .

  • lucas chagas reis 10/05/2014 at 11:24

    comecei a ler o bruxo com mais ou menos 15 anos.simplificar na adianta,tem se que educar pra que se abra m as cabeças desses infelizes jovens que estão sendo idiotizados

  • Bruno 10/05/2014 at 11:56

    Sensacional, Sérgio. Parabéns.

  • Jesus Costa Ourives 10/05/2014 at 11:58

    Que texto maravilhoso, Sérgio Rodrigues!!! É Machado redivivo! Mas a advertência final é uma facada no peito dessas pessoas que usam a Lei Rouanet para fazerem bobagens… Tens razão, aqui neste pais o ridículo se torna sério e o sério se torna ridículo.

  • ze gomes 10/05/2014 at 12:07

    Este seu exercício de estilo, Sérgio, revela sua “sagacidade” como escritor, coisa que é bem superior a miserável “esperteza” da Patrícia Secco (que na verdade não tem nada de “enxuta” para ser chamada de seco)
    sagacidade é inteligência + esperteza (e contém “saga”)
    esperteza é só oportunismo de um lance, ou um momento

  • Pedro 10/05/2014 at 12:10

    Aqui no Brasil é bem antigo o costume de se fazer “adaptações” de obras, clássicas, como aquelas que eram editadas pela Ediouro para o público infanto-juvenil, modificando o estilo e resumindo o enredo. P. ex., na versão ediouro de D. Quixote, se não me falha a memória – não o livro e nem quero ter – o primeiro capítulo muda o célebre “Em um lugar de La Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me…” para algo como “não interessa o nome do lugar”. Simplesmente horrível

  • Alex R.F. 10/05/2014 at 12:19

    Muita salada para pouca dieta.

  • Cronos 10/05/2014 at 12:26

    Ou seja:nada de simplificações.Caso contrário o que fazer com a acidez de Machado de Assis que só é compatível com aquele vocabulário escolhido a dedo pelo próprio autor?

    Notas de rodapé nem pensar,não é mesmo?

  • Alex R.F. 10/05/2014 at 12:29

    A propósito, já “apliquei” Dom Casmurro, Memórias Póstumas, Quincas Borba, O Alienista (o último eu não enquadraria na fase realista de Machado…) em amigos desacostumados à literatura. E eles não se estranharam, não. São textos amigáveis.

  • Casca Fina 10/05/2014 at 12:41

    Li, reli e lerei outras vezes. Texto primoroso, vertido no mais lídimo estilo machadiano. A imaginação fértil e a sutileza do humor em conjugação harmoniosa, em casamento perfeito, cousa rara, em sequências deliciosas. Um texto que o bom e velho Machado assinaria, num misto de surpresa e indisfarçável admiração.
    Por um momento, acudiu-me ao bestunto a hipótese espírita de autêntica psicografia, para, ato contínuo, corrigir-me eu próprio: – Que isso rapaz?!, psicografia?, atualize-se moço!, estamos no século XXI, no proscênio do Terceiro Milênio, e você me vem com psicografia? Modernize-se, contemporanize-se: psicografia, não; mas, quem sabe?, psicodigitografia.
    Gostei. Eureka! Psicodigitografia. Eu acabara de descobrir uma explicação atualíssima, arquitetada em conceito hodierno, lastreada pelas vigas da modernidade tecnológica, e ainda criara um neologismo, se não saboroso, pelo menos preciso e exato, um tantinho complexo para os parvos, capaz de retorcer o septo nasal dos apedeutas que as universidades desovam ano a ano no mercado de trabalho das plagas de Pindorama.
    O princípio da realidade, inevitável e cruel, fez-me descer das asas alcandoradas do devaneio, impondo-se altaneiro e demolidor: – Por onde voas, mancebo? Não confunda competência linguística e inspiração com essa tal de ‘psicodigitografia’. Reconheça e aplauda o mérito de quem o possui. Pronto e ponto e parágrafo.
    Encerrado o brevíssimo e delirante preâmbulo, tomo o Machado.
    A lente Patrícia Secco propõe-se a reescrever Machado de Assis. Suspeito – e muito suspeito! – seja ela uma lente de grau baixo. E opaca.
    Envolta nas névoas de sua opacidade, essa senhora não vislumbra que os clássicos são intocáveis. Intangíveis. Machado traçou linhas e fundamentos que, hoje, consolidam regras da gramática da Língua Portuguesa. Seus textos encerram conteúdos psicanalíticos que são objeto de consideração e estudo de parte de freudianos e lacanianos.
    Madama Secco seria mesmo capaz de preservar a integridade desses conteúdos? E a fundamentação gramatical e sintática, como ficaria?
    Ao invés de estender-me em considerações tais, que, aliás, extrapolam o estreito âmbito de meus acanhados saberes, prefiro lançar-lhe um repto:
    SENHORA PROFESSORA, REESCREVA “MONÓLOGO DE UMA SOMBRA”, DE AUGUSTO DOS ANJOS, EM NÍVEL DO ENTENDIMENTO DO LULA, MANTENDO A MESMA METRIA DO ORIGINAL, COM RIMAS CORRETAS.
    Aí está. E desde agora refuto objeções tais como: inviável, impraticável, impossível.
    Muitíssimo mais difícil terá sido a tradução do Bhagavad Gita, feita por Lorenz.
    Se a senhora professora não sabe, Francisco Waldomiro Lorenz, poliglota de altíssima linhagem – dominava à maestria setenta e duas línguas -, traduziu o Gita para o Português diretamente do original sânscrito, língua rigorosamente conceitual e analítica, cuja escrita fazia-se (e se faz) utilizando-se caracteres devanagari, estes aglutinantes em si. E mais: Lorenz respeitou e manteve a metria original dos poemas. Tradução primorosa, executada por um gênio da Linguística.
    Agora, o cometimento de reescrever um clássico com o fito de simplificar a linguagem, reduzindo-a “à baixura” (obrigado, professor Reinaldo Azevedo) do ensino escolar brasileiro, é aviltante. É iconoclastia literária.
    Recomendo-lhe cautela, professora.
    O Machado pode não lhe dar o “piparote” de que se socorreu o professor Sérgio Rodrigues.
    Se não gostar, poderá desferir-lhe uma ‘cepuada’ nas ideias.

  • Olimpio Correia 10/05/2014 at 12:48

    Esses PTralhas não constroem nada, só destroem, a História, a literatura, nossa língua, até as pontes e ruas querem mudar de nomes por outros comunistas ou socialistas, não constroem e se apropriam de tudo, só sabem ROUBAR, se aproveitar, mas nada fazem, só enganam, são embusteiros da pior espécie, Jurássicos!

  • Vaginophagus 10/05/2014 at 13:25

    Não me leve a mal, mas vc pode traduzir o texto, pq eu, sinceramente, não entendi nada? Por esse texto, fiquei certo de que precisamos reescrever urgentemente a obra do Machado de Assis para que ele não seja esquecido, nem que seja por singela incompreensão do seu escrito do século acabado.

  • alexandre 10/05/2014 at 15:17

    Sensacional.

  • J.Arruda 10/05/2014 at 16:00

    “…A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião…” (Machado de Assis, “A igreja do diabo”in Histórias sem data.)

  • Leo Angelo 10/05/2014 at 16:10

    kkkk, maravilhoso, estupendo, um dos poucos escritores brasileiros que leio e ainda vão simplificar???

  • Mariana 10/05/2014 at 17:05

    O que não deixa de ser curioso; é que no século 19(século em que o Machado viveu),praticamente os escritores brasileiros,consagrados, escreviam da mesma maneira de Machado de Assis(por exemplo: José de Alencar)naquele tempo, o analfabetismo era enorme.Consta até, que o escritor Machado de Assis,praticamente se alfabetizou, quase sozinho.Parece que teve ajuda da madrasta.Foi um autêntico autodidata.Portanto querer modificar as palavras escritas na intensa literatura do escritor, parece até algo abominável.Isso é inaceitável! Mas,se essa “moda pega” vão querer escrever só na “giria”, menosprezando esses escritores cuja cultura,incomoda os “intelectuais” da modernidade. Os “poucas-letras” merecem aprender escrever e melhorar seus vocabulários.Ao invés de massacrar,porque não cultuar o idioma que falamos:O português.

  • Jane Araújo 10/05/2014 at 17:49

    Crianças com boa escolaridade são capazes de ler qualquer texto, se não entendem e não conhecem as palavras, vão ao dicionário e aumentam o vocabulário. Fui criança e leitora, releio hoje os livros com mais gusto, porque meu vocabulário é mais rico. Empobrecer a língua é um atentado. Vide Lulla, um sujeito pobre de tudo, menos dos milhóes que roubou dos nossos impostos. Essa senhora deveria ser chamada às falas e quem deu dinheiro publico para ela reescrever Machado deveria ser demitido do service publico. Só isso.

  • marcel 10/05/2014 at 18:06

    Genial! Belíssimo texto – vamos esperar agora pela “tradução” …

  • vilmari stella 10/05/2014 at 18:43

    Texto maravilhoso, só entendido por cabeças pensantes.
    “Eles” não conseguirão inferiorizar a educação e a cultura.

  • J.Paulo 10/05/2014 at 19:04

    Ela vai ter trabalho quando precisar simplificar coisas como ‘olhos de ressaca’. Aliás, que coisa tristíssima ler Machado e não encontrar ali os olhos de ressaca. Os olhos de cigana dissimulada. Melhor seria não lê-lo. E Sérgio, você não tem mérito nenhum, porque Machado é tão bom que a mera imitação de seu estilo há de ficar sempre maravilhosa. :)

  • Rosana 10/05/2014 at 20:04

    Isso! Porque forçar a mente? Vamos ficar todos burros a altamente manipuláveis.
    Aqui no sul há um ditado, “Eu não vou matar meus pais para ficar de bem com os netos”.

  • Lucas 10/05/2014 at 21:19

    O interessante é que o texto machadiano nem é tão rebuscado em comparação aos de outros autores do período. Agora, é importante lembrar que o original continuará disponível e será o texto usado em praticamente todas as reedições. Não estão apagando a obra de Machado de Assis, apenas oferecendo uma opção para leitores ‘mais preguiçosos’. Particularmente, acho uma besteira, uma vez que o enredo nem é tão importante assim na obra machadiana, mas…

  • CerradoemChamas 10/05/2014 at 21:30

    Salvem o nosso único herói e gênio. Ora, esqueci do Santos Dumont. Mas Santos era rico. O Machado era pobre e negro, tem maior apelo nos ditos acadêmicos ideoligizados ou idiotizados de hoje. Bom, Machado é um gênio e é nosso dever superar todas as dificuldades para estudá-lo e entendê-lo. Nem que leve mais 100 anos.

  • alexandre 10/05/2014 at 21:56

    Quem não entendeu nada, aprecie o texto, que lembra o de Machado em detalhes que fazem a gente ler e reler. Quem quer entender, veja a matéria de capa da folha.

  • Rose 10/05/2014 at 23:25

    sou uma das 50 que te apoia! Pior ‘e ter a simplificação com dinheiro público depois de mantida a nivelação por baixo!

  • Passolargo 11/05/2014 at 01:24

    Senhoras e Senhores: se não entenderam, a culpa não é do autor é Vossa!

  • Marília 11/05/2014 at 06:37

    Essa simplificação da obra e Machado é, simplesmente, conspurcação, uma vez que a linguagem dele, única e de grande estilo,faz parte indissolúvel do conteúdo.

  • Cristina Silveira 11/05/2014 at 08:56

    E, mais uma vez, estamos sendo reduzidos a meia dúzia de palavras para explicitar todo pensamento… Numa terra onde popozudas traduzem com esmero os lepos lepos de sua população, nada mais podemos esperar. Ao invés de melhorarmos a capacidade de compreender e se expressar dos nativos desta terra tão maltratada e aviltada em todos os sentidos, estão tirando-lhes, até, a oportunidade de se questionarem o por quê de se contentarem com tão pouco,com um sistemático processo de emburrecimento. Enfim, o que podemos esperar de pessoas públicas que se gabam de não terem estudado e já colecionam ‘títulos’ e mais ‘títulos’ que, com toda certeza, são os representativos de toda sua ignorância e arrogância?

  • CandidaBH 11/05/2014 at 10:08

    Isso aí pessoal! vamos nivelar por baixo! Se nao entendem Machado de Assis, a culpa é dele e nao do pessoal que nao oferece e nao tem educação de qualidade! Assim fica tudo mais facil! Agora so falta exumar os restos mortais do maior escritor do mundo( minha humilde opinião) e leva-lo a julgamento por escrever com tanto preconceito, excluindo os menos letrados! Ops! Acho que dei uma ideia ai hein?!

  • CandidaBH 11/05/2014 at 10:13

    Outra coisa que esqueci: ainda bem que já tenho muitos exemplares em casa, como foram concebidos, escritos e saídos das maos do mestre. Daqui a pouco vao proibir a comercialização dos livros nos originais. Lembram que há pouco tempo boicotaram um livro de Monteiro Lobato por racismo!? É …o Brasil ainda consegue nos surpreender! para pior!!!

  • Sérgio Sá 11/05/2014 at 10:24

    Brilhante!

  • José Figueiredo 11/05/2014 at 11:35

    Meu caro e douto cultor da nobilíssima última flor do Lácio, inculta e bela (que Machado peça as devidas escusas a Bilac por citá-lo), a nossa tão desprezada língua portuguesa nessa Pindorama tropical, senhor Sérgio Rodrigues: vossa pena, inspirada pela alma do Bruxo do Cosme Velho, produziu um texto deveras brilhante. Quem vos escreve é um cultor incansável da obra machadiana. Leio assiduamente a vossa coluna, pois ela me instrui.

  • Manuelzão 11/05/2014 at 11:44

    Vivemos a época da mediocridade. Querem nivelar a população por baixo, o pouco que as gerações passadas conseguiram contribuir para a evolução cultural do nosso povo está sendo demolida por um bando de canalhas encastelados nas escolas e universidades. Voltamos a época das cavernas no plano cultural, moral e social. A mediocridade está por toda parte, nas escolas públicas por ser o ambiente ideal dos militantes partidários na internet e na televisão. A tal popuzuda virou até referência nas escolas de Brasília.

  • Letícia Cunha 11/05/2014 at 12:08

    Quando em meu ensino fundamental cursava a 7? serie, minha professora de Língua Portuguesa, Edna Miriam –bons professores marcam para sempre– nos disse que a partir daquele ano até o ano seguinte leríamos as obras de Machado de Assis. A proposta era vivenciarmos através da leitura as diferença litararias entre “Romantismo” e “Realismo” lendo obras de um mesmo autor, o maior autor brasileiro. Iniciamos com “ A mão e a luva”; “ Helena” e “Iaiá Garcia” romances do gênero dito Romantismo e seguimos com as leituras de: “Memórias Póstumas de Brás Cubas” “Quincas Borba” ; “Dom Casmurro” e “Memorial de Aires” do gênero Realismo. Lembro como a leitura abriu meus horizontes, desenvolveu minha imaginação e vocabulário. Antes que alguém me julgue, essa história se deu durante os meus 13 e 14 anos, numa escola pública, mas cuja professora estava empenhada em oferecer aos seus alunos o de que melhor existia!!!

  • Humberto Tôrres 11/05/2014 at 12:20

    A língua é o que nos une, a nossa “última flor do Lácio, inculta e bela” é linda, melódica, e expressa sentimentos que muitas não conseguem. Nunca tão poucos fizeram tanto mal a tantos.

  • Observador 11/05/2014 at 17:52

    Caríssimos,

    uma das maiores alegrias de leitores dedicados ( não se trata de elites, mas, apenas, de organização e estudo ) é poder ler grandes autores ‘no original’. A eventual necessidade de uma ‘simplificaçao’ de textos de Machado, e outros, só se justifica pela existência de apedeutas que não conseguem sequer ler autores brasileiros ‘no original’, ou seja, na Língua Pátria.
    PS:
    1 – a simplificação só servirá para consolidar e eternizar os ‘nivelados’ ao rés do chão…
    2 – é mais barato incentivar e ajudar pessoas para que tentem se mover para um novo patamar, um degrau mais alto, de onde se descortina a vista dos próximos e atraentes passos de um real desenvolvimento humano.

  • Sherlock 11/05/2014 at 21:55

    Caro Sérgio (ou devo chamá-lo Chico Xavier?! rs),
    Quando li essa história de reescrever Machado, a primeira coisa que me veio à mente foi um trecho do Dom Casmurro que tenho comigo, numa edição de 1987: “Cabral ouvia com gosto a repetição do título. Estava em pé, dava alguns passos, sorria ou tamborilava na tampa da boceta”.
    Imagino as agruras de um professor em ter de ler a palavra outrora inocente, que hoje de inocente não tem nada. Noves fora, tais termos não justificam, para mim, uma “reescritura” do autor. Fico com sua sugestão (enquanto incorporava Machado): coloque-se o nome do autor e o título, e preencha-se com páginas em branco (sem cair na tentação das figurinhas e quadrinhos, por favor!). Afinal, como escreveu o próprio: “há livros que apenas terão isso (o título) dos seus autores; alguns nem tanto”.
    Parabéns pelo excelente post!

  • Phalo em Pé 12/05/2014 at 09:12

    Lindo e extraordinário texto. Vc pode traduzir para mim?

  • Christian Heberth 12/05/2014 at 09:17

    Alencar não precisa ser reescrito, precisa ser entendido. Querem transformar o Brasil num país de medíocres, nivelando todos por baixo. E o problema não está na falta de compreensão dos alunos, mas na má qualidade dos professores, como bem escreveu Gustavo Ioschpe em seu blog na VEJA: http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/professores-acordem

  • carlos viana 12/05/2014 at 10:16

    Em um país que troca nome de escola antes conferido a poetas e escritores por piloto de autommóvel,que aceita a esquerda caviar incutir a baixa cultura nas escolas,onde 38 % dos frequentadores de predios chamados fdaculdades são analfabetos funcionais,é natural que reescrevam Machado de Assis.

  • Bruno D 12/05/2014 at 11:29

    muito bom, aos que pediram a tradução, uma ironia muito decadente, peço que reconsiderem, e vejam na aventura de vislumbrar o significa do texto não uma pedra de tropeço mas um degrau a elevar-se!

  • Claudio Faria 12/05/2014 at 14:33

    Essa iniciativa é reflexo do emburrecimento no qual estamos mergulhados há 12 anos. Também pudera: o ex-presidente orgulhava-se de jamais ter lido qualquer livro na vida! Um absurdo, como bem disse alguém aqui embaixo, um estupro à obra de Machado.

  • Ronaldo Braga 13/05/2014 at 12:30

    Um dialogo possível sobre a razão deste tipo de coisa acontecer.
    O DONO E A MERCADORIA OU militante, é a mesma coisa.

    militante- Alõ é o Lula?
    LULA – Sim é o Lula, o mior presidente do Brasil, quim fala?
    militante – Sou militante do pt, e queria uma grana
    LULA – Tú faiz o que mermo?
    militante- Sou doutora em letras?
    LULA – Então procura o mais medico e diz que faiou comigo
    militante – Não, sou formada em letras
    LULA – Ah sim letras, coisa de rumance. óia tô aqui tentano ler um Tar de Maxado de Asziz e nun tou entedeno nada.
    militante – Eu posso fazer algumas mudanças e tu pode então ler.
    LULA – Oba faça isso.
    militante – vou fazer o projeto e mandar pro ministério
    LULA- Me da teu nome, e nem precisa esse negocio de projeto, me passe seu telefone, amanhã mismo o mistério vai ligar pra tu. Ora eu agora vou puder ler este tar de maxado.

    E assim nasceu esta linda obra da sensacional esquerda brasileira.

    R.B.Santana
    http://www.ronaldobragas.blogspot.com

  • Guida 13/05/2014 at 17:10

    Robert Crumb, ao ilustrar o “Gênesis”, foi fiel a linguagem bíblica. Sabe das coisas, o sujeito.

  • Gerson (PR) 14/05/2014 at 22:13

    Já está saindo a reescritura da reescritura. O público-alvo não estava entendendo nem o título. Agora vai se chamar “O Médico de Loucos”. Outra adaptação está sendo preparada: “Brás Cubas – Uma Psicografia”.

  • Edu Santos 21/05/2014 at 10:46

    Caro Sérgio Rodrigues, o artigo abaixo, baseado numa análise minuciosa da adaptação de Patrícia Secco, mostra os erros graves que foram cometidos por ela ao simplificar “O Alienista”: http://www.jornalopcao.com.br/reportagens/discipula-de-paulo-freire-assassina-machado-de-assis-4399/

  • Sherlock 07/06/2014 at 13:52

    Pois é, Sérgio,
    Como diz o ditado: de onde menos se espera, daí é que não vem nada mesmo!
    Li na coluna do seu vizinho Augusto Nunes o artigo de José Maria e Silva – ao qual o Edu Santos alude abaixo.
    Pobres de nós, que ainda damos algum crédito a pilantras achando que eles chegaram no limite. Infelizmente a canalhice parece não ter limites.
    A simplificação por parte da empresária (com o dinheiro dos outros, é verdade) Patrícia Secco, entregou o que prometia, mas que nos negávamos a acreditar que seria possível: a desfiguração de O Alienista – além da ameaça destruir outras obras.
    Poderíamos dizer que “é o fim!”, mas suspeito que estejamos errados. Afinal, pulhas, cínicos e cafajestes em geral podem saber de muita coisa (principalmente meter a mão grande no dinheiro público) mas não sabem a hora de parar.

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