Mais Gonçalo: ‘Não aceito a separação entre literatura e vida’

05/09/2011

No sábado, publiquei aqui no blog vizinho VEJA Meus Livros o resultado de uma ótima conversa, entre expressos e capuccinos, com o escritor português (nascido em Angola) Gonçalo M. Tavares, que veio ao Rio para participar da Bienal do Livro. O festejado escritor de 41 anos, para quem José Saramago vaticinou o Prêmio Nobel, discorre sobre seu peculiar método de trabalho e sua produtividade quase insultuosa, além de falar com simpatia sobre a literatura brasileira contemporânea e o uso que aqui fazemos do português – língua que acredita fadada a brilhar internacionalmente no futuro próximo. A quem ainda não leu a entrevista, recomendo dar um pulo lá.

De bônus, seguem três respostas que ficaram fora da edição final:

Você começou a escrever copiosamente – “obsessivamente”, como diz – muito cedo. Drummond tem uma frase boa sobre o que a escrita tem de renúncia: “Escrever impede a conjugação de tantos outros verbos”. Essa renúncia o incomoda?

– A frase é boa, mas a escrita não é uma coisa fora da vida. Nós não saímos da vida para escrever e depois voltamos. Alguns dos momentos mais extraordinários que eu tive têm a ver com a escrita. Não aceito a separação entre o mundo da literatura e o mundo da vida. Subir o Himalaia é uma experiência de vida, mas escrever um livro e ler “Crime e castigo” também são. Há muitas vezes uma espécie de obsessão por uma espécie de colecionismo de experiências exteriores, como se isso lhe pudesse dar material sobre o qual escrever. É uma visão que eu acho deturpada. Há pessoas que estiveram na guerra e tiraram disso uma pequeníssima experiência interior. Clarice Lispector tirou de uma barata no armário uma grande experiência interior. Não há regras. Há escritores extraordinários que viajaram muito e há escritores extraordinários, como Fernando Pessoa, que quase não saíam de casa.

É comum os críticos dizerem que seus romances são kafkianos. No entanto, você nunca cita Kafka entre suas influências. Mal-entendido da crítica ou uma espécie de ponto cego autoral?

– Kafka é um autor, penso eu, importante para qualquer pessoa sensata. Mas, falando objetivamente, em todas as narrativas de Kafka nunca se sabe exatamente o que está a acontecer, e em todos os romances do Reino nós sabemos exatamente o que está a acontecer. Há autores que são como indicadores geográficos para a recensão (avaliação crítica): Kafka é o Norte, digamos, e Proust é o Sul. Na França, já disseram que eu lembro Victor Hugo.

O que você achou do acordo ortográfico?

– Minha posição sobre o acordo ortográfico, como quem escreve, é sentir que não é este o problema. Nunca senti o p ou o trema como um obstáculo. Muitas vezes o não entendimento tem a ver com a história da palavra. Por exemplo, a palavra “cadastro”: a primeira vez que ouvi “cadastre-se aqui”, estranhei, pois em Portugal esta palavra tem um sentido criminal. Isso pode ser uma barreira para o entendimento, pois como saber se você está interpretando corretamente um texto? O acordo ortográfico, ao pé disso, não pode fazer nada, embora talvez seja útil em termos de institucionalização da língua.

4 Comments

  • marcelo ac 05/09/2011 at 20:10

    O primeiro livro que li de Gonçalo M.Tavares foi “Um homem: Klaus Klump”, uma pedreira dura de roer. O estilo demasiadamente seco do livro, quase me fizeram desistir da experiência. Mas levado por “Jerusalém”, que aguardava na estante, com direito a tarja do Prêmio Portugal Telecom e tudo, fui criando coragem para ir em frente e terminar a leitura. Se não conseguisse ler Jerusalém, por sua vez, então encerraria a minha carreira de leitor com Gonçalo M.Tavares – se afinal aquilo era moderno e era candidato a um futuro Nobel, como disse Saramago sobre o autor, então preferia ficar mesmo com os Jabutis daqui.
    Felizmente consegui terminar Klaus Klump, e Jerusalém foi bem melhor, bem mais digerível. Acho que Saramago não estava errado, um dia vai dar mesmo Gonçalo na Suécia!

  • Heliete Vaitsman 21/09/2011 at 12:28

    Excelente entrevista! daquelas que faz a gente pensar “sim, vou ler de novo”, depois de uma experiência difícil (como a de marcelo ac).

  • Rosängela Maria 31/01/2013 at 19:58

    Gostaria de ler Biblioteca. Pelo pouquinho que vi aqui: http://www.fflch.usp.br/dlm/criacaoecritica/dmdocuments/CC_N6_TMSilva.pdf

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