Maquiagem

07/02/2009

“Governo maquia PAC com inclusão de obras antigas”, anunciava a manchete principal do jornal “O Globo” de quinta-feira, 5 de fevereiro. Ilustrando a notícia, uma foto gigante de Dilma Rousseff com maquiagem pesada, penteado de cabeleireiro e colar de pérolas – uma imagem de glamour até então inédito da ministra da Casa Civil, talvez o ponto culminante do processo de “suavização” de sua estampa que, com mira na eleição presidencial de 2010, teve início no fim do ano passado.

A graça dessa primeira página está na forma como texto e fotografia dialogam em torno do verbo maquiar, um francesismo que tem tanto a acepção positiva de cobrir de maquiagem com propósitos de embelezamento (sentido ilustrado pelo retrato de Dilma) quanto a negativa de mascarar, falsear (como o jornal afirma que o governo fez com o PAC).

Os dois sentidos estão ligados: embelezar e fraudar são ações fronteiriças, separadas pela linha nem sempre muito nítida entre a boa e a má-fé. O curioso é observar que, no idioma em que a palavra nasceu, o primeiro registro do verbo maquiller com o significado de falsificar é de 1815, cerca de um quarto de século antes de surgir, no jargão do teatro, a acepção de pintar o rosto. A fraude veio antes da vaidade.

Maquiller e maquillage derivaram do holandês maken, “fazer” (a mesma palavra que deu no verbo to make em inglês, língua em que maquiagem é make-up). Em seus primeiros séculos de existência em francês, as duas palavras queriam dizer apenas, respectivamente, “trabalhar” e “trabalho”. Mas foi seu sentido moderno que o português importou, aclimatando a grafia, em meados do século 20. No Brasil, embora o Houaiss insista em citar “maquilar” e “maquilagem” como formas preferenciais (existem ainda “maquilhar” e “maquilhagem”), a opção preferida pelo Aurélio e usada pelo “Globo” está além da consagração.

Publicado na “Revista da Semana”.

11 Comments

  • Lombardi. 07/02/2009 at 13:24

    Nada se cria tudo se copia.

    Cleópatra seduziu e dominou por sua beleza e também por sua “máscara falsa” atraiu com cosméticos, loções e banhos em leite de jumenta.

    E muitos lamberam seus pés e provavelmente outra ‘cositas’ mais.

    O trono deve ser ocupado e o povo clama pelo continuísmo e as migalhas ofertadas a doses homeopáticas bem controladas.

    Como o sábio Joãozinho Trinta já dizia: pobre gosta de luxo, quem gosta de pobreza é intelectual.

    Viva a plástica, viva o silicone, viva a maquiagem, viva o luxo, viva o carnaval!

    Viva a falsidade, viva a sedução!

    Viva o sistema!

  • isaac 07/02/2009 at 14:39

    esse texto eu achei chato, sérgio. prefiro os outros.

  • Noga Lubicz Sklar 07/02/2009 at 17:03

    rsrs, Sérgio, dessa vez quase empatamos. Do Noga Bloga: “Já vinha se formando aos poucos na minha mente o paralelo irônico entre a manchete do dia sobre as distorções do PAC e o falso rosto sorridente de Dilma Rousseff logo abaixo, em dose pra calar na capa d’O Globo, exemplar perfeito de publicidade engajada: ambos, mãe e filho, repaginados e cuidadosamente maquiados para adaptar-se ao crucial momento político e às conveniências eleitorais do partido, pô, meio chata hoje, irritada, não estou me encontrando no tom, aí, foi mal. Deve ser por medo do diabo, mais feio até quando se pinta. ”
    E mais: “No mais, já que a coisa toda se resume, no fundo no fundo, à melhor imagem, é esperar com o coração na mão que os outros candidatos quaisquer em 2010 vençam Dilma no vamovê, o que, vamos combinar, com tanto botox, pancake e laquê, nem deve ser tão duro assim. Argh. “

  • Daniel Brazil 07/02/2009 at 20:38

    Pô, Noga, “outros candidatos quaisquer” é demais, não ? Que tal “um candidato melhor”?

  • Pedro Curiango 07/02/2009 at 21:49

    Ligar a maquiagem feminina à fraude é uma idéia antiquíssima. Um dos grandes padres da Igreja, Tertuliano, escreveu um longo livro sobre a moda feminina [“De cultu feminarum”], no qual defende a idéia de que qualquer tipo de maquiagem (modificação física, por vaidade) é equiparado à mais consistente ação demoníaca, a interpolação (vista com o sentido de falsa “correção” da realidade). No capítulo sobre a tintura dos cabelos, para parecer mais jovem, chega mesmo a usar a palavra “interpolar” para descrever o que acontece: “occasio grauitatis interpolatur”” – em português: “interpola a oportunidade de ser sóbrio,” ou mais diretamente: “perde-se a oportunidade de ser sério [pela interpolação do desejo de ser jovem].” Mutatis mutandis: às vezes a leitura de Tertuliano faz a gente entender o que acontece no governo do Lula…

  • Noga Lubicz Sklar 09/02/2009 at 07:37

    Daniel, um candidato melhor seria bem melhor, né? Tomara. Mas sabe como é (eu nem sei bem por que) Dilma do PT me dá nos nervos. Deve ser trauma.

  • andre 09/02/2009 at 12:57

    Achei o texto do globo bem tendencioso.
    Considero a ministra dilma uma pessoa bem competente e todos os candidatos que temos ate agora a melhor. O jose serra acho falso, obscuro. me dá medo…

  • Inútil 10/02/2009 at 16:27

    O globo fede.

  • Inútil 10/02/2009 at 16:28

    O globo é uma maquiagem de jornal.

  • Pedro de Oliveira 10/02/2009 at 20:05

    Faltou colocar a foto de Serra e fazer a comparação com Pink e o Cerébro – já que o problema é de ordem estética. A manchete seria assim: Ele quer conquistar o mundo.

  • paula cajaty 17/02/2009 at 07:02

    Sérgio, um detalhe na questão do corte das verbas. Lula falou: “Cortaremos até o batom da Dilma, mas as obras continuam” (ou algo semelhante). A pergunta ficou incomodando: ‘o batom da Dilma tá dentro das verbas do PAC?’. Será que eles consideram a pintura dela uma mega-reforma do patrimônio brasileiro? Será que eles incluíram a Dilma no pacote de reformas federais e é por isso que ela vem ficando menos esquisita a cada dia, com batons, maquiagens, cabelos produzidos e até intervenções cirúrgicas mais invasivas? Mas fui para o trabalho e deixei esses questionamentos de lado…
    beijos

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