Massacre da Noruega: literatura e trauma nacional

01/08/2011

“Como reagirão os escritores policiais da Noruega ao massacre de Utoya?”, perguntava ontem um tweet do jornal inglês “Observer”, dando um endereço que conduzia a um artigo de Brian Oliver, intitulado “Quando escritores são confrontados por um trauma nacional” (em inglês, acesso gratuito).

Resposta possível: “Não reagirão. Escritores policiais não têm que reagir a tal coisa. Basta que reajam os policiais”.

Mas o artigo não é tolo, embora também não seja profundo. Faz um rápido apanhado do bom momento vivido pela literatura policial nos países escandinavos e sustenta a tese de que, na cultura nórdica, a ficção retém um lugar privilegiado de arena de debates públicos que está praticamente esquecido no resto do Ocidente.

Ao contrário do que sugere o tom ligeiramente ridículo do tweet que gerou, o texto de Oliver não força a barra de uma ligação direta entre o que explode nas manchetes e o que vai parar nas páginas dos romances. Ainda bem. A não ser em casos de subliteratura, essa ligação não costuma ter nada de direta, simples ou urgente.

Uma excelente reflexão sobre o tema, a partir de um “trauma nacional” incomparavelmente mais devastador que o da Noruega, encontra-se no livro “Guerra aérea e literatura”, de W.G. Sebald, recém-lançado pela Companhia das Letras. Trata-se da recriação de uma série de conferências proferidas em 1997 na Universidade de Zurique pelo autor de “Austerlitz”.

Sebald está interessado em investigar como a literatura alemã tratou as chuvas de bombas aliadas que, nos últimos anos da Segunda Guerra, provocaram a morte de 600 mil civis e a destruição de cidades inteiras. Num ensaio corajoso, o que ele flagra é um olhar que é sempre, simultaneamente, “um desviar de olhos”.

“Até a tão propalada Literatura dos Escombros, Trümmerliteratur”, escreve Sebald, “que se impunha programaticamente um senso de realidade incorruptível (…), mostra-se, numa análise mais cuidadosa, um instrumento previamente sintonizado com a amnésia individual e coletiva, e guiado, talvez, por processos pré-conscientes de autocensura para o encobrimento de um mundo que se tornara incompreensível.”

E se não houver autocensura alguma? Pode ser ainda pior. A disposição de enfrentar os traumas de peito aberto, observa Sebald, resvala facilmente para o sensacionalismo. “A produção de efeitos estéticos e pseudoestéticos com base nas ruínas de um mundo arrasado é, ao revés, um procedimento que rouba da literatura a sua legitimação”, sentencia, partindo então para estraçalhar sem piedade o “kitsch racista genuinamente alemão” do escritor Peter de Mendelssohn, autor de “A catedral”.

Boa sorte então aos escritores policiais da Noruega. Que sua reação ao massacre de Utoya, se reação houver, amadureça com sábia lentidão.

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