‘Memórias póstumas de Brás Cubas’ é um livro espírita?

19/03/2009

Algumas das melhores perguntas que me fizeram até agora sobre meu romance “Elza, a garota” partiram do jornalista e escritor Luciano Trigo, que acaba de publicar a entrevista em sua coluna no G1. Não pretendia voltar ao assunto agora, mas o quebra-pau político que se esboçou aqui na caixa de comentários esta semana me convenceu da pertinência de abusar mais um pouco da autopromoção e publicar esta amostra do papo:

G1: Você não teme que seu livro seja “apropriado” pela direita? Acredita que haverá reações negativas por parte da esquerda? Isso causa preocupação?

SÉRGIO: Qualquer pessoa que leia o livro vai perceber logo nas primeiras páginas que ele não pode ser apropriado pela direita. A direita brasileira sai muito mal disso tudo. Isso não quer dizer que a esquerda saia bem. Acredito mesmo que essas categorias, pelo menos em termos tão absolutos, estejam virando relíquias da Guerra Fria, o papo hoje é um pouco diferente. Mas, mesmo quando elas faziam todo o sentido, julgar uma obra de literatura por esses parâmetros sempre foi má idéia. E espero que o “Elza” seja julgado como literatura, porque é o que ele é. Dito isso, claro que me preocupa um pouco o uso político que possam tentar fazer do livro. Principalmente porque muita gente, claro, não vai se dar ao trabalho de ler nem a orelha do Zuenir Ventura antes de formar uma opinião acachapante. A irresponsabilidade intelectual é grande, e as paixões que o tema desperta são intensas. Mas considerar meu romance um livro “de direita” é como dizer que “Memórias póstumas de Brás Cubas” é um livro espírita, isto é, coisa de gente muito desinformada. De todo modo, seria ingenuidade mexer num vespeiro desse tamanho e esperar unanimidade. A quem se sentir incomodado só de ouvir falar do livro, faço um único pedido: leia-o primeiro.

28 Comments

  • Tibor Moricz 19/03/2009 at 12:31

    Mas Memórias Póstumas de Brás Cubas não é um livro espírita???? Oo

  • Silvio... SIlva 19/03/2009 at 13:27

    Haha, Tibor como sempre cutucando o vespeiro.

    Realmente uma entrevista muito boa, Sérgio. As patrulhas de várias tendências estão aí, Fato. Orai e vigiai, como diria um velho conhecido nosso.

    A grande sacada sobre Brás Cubas livro espírita me lembra de uma história do jornalista JP Coutinho. Certa vez, numa livraria de Portugal, ele falou a um vendedor: “Eu gostaria de um exemplar de ‘O retrato de Dorian Gray’, por favor”, no que o sujeito respondeu: “Pois não, senhor, dirija-se ali à estante de literatura gay…”

    Diante de tamanha indigência mental – eu gostaria de crer que é uma exceção – em um ambiente onde, reza a lenda urbana, habitaria a “parcela esclarecida da população”, o que esperar a seguir? “Homero: o maior poeta portador de necessidades especiais de todos os tempos” e “Elza: um livro direitoba”?

  • L. 19/03/2009 at 14:33

    Nossa, que época a nossa, para alguém escrever algo que possa eventualmente ferir os sentimentos da esquerda – e estamos falando de stalinistas nessa história – o sujeito precisa embutir vários ataques à direita, da época e atual, inclusive a sites. E ainda tem que repetir no blog e e em entrevistas. Uma boa história não fica pedindo desculpas.

  • Sérgio Rodrigues 19/03/2009 at 14:50

    L.: pedindo desculpas? Essa é ótima. Mas se você esperava que o autor deste livro elogiasse extremistas de direita, lamento, bateu em porta muito errada.

  • L. 19/03/2009 at 16:06

    Sérgio, não gosto de extremismo. Só estou apontando uma situação. Se alguém escrever um livro negativo sobre o Médici – e eu escreveria um, porque o sujeito foi um filho da mãe – dificilmente vai sair dizendo que não quer que a sua obra seja coptada pela esquerda. Não vai precisar colocar críticas a blogs de esquerda no próprio texto, nem vai ficar reforçando isso em entrevistas. O Médici foi péssimo e é isso, sem desculpas ou salvaguardas. E está certo.

  • Sérgio Rodrigues 19/03/2009 at 16:20

    L., desculpe, mas tenho a impressão de que lhe faltam elementos para afirmar o que afirma. Os sites de direita a que você se refere entram no romance porque são parte dos tabus que cercam a memória da Elza. O livro não conta só uma historinha passada nos anos 30, fala de oito décadas de história do Brasil. Se sua biografia imaginária do Médici tivesse uma ambição desse tamanho, eu acharia louvável – e não um pedido de desculpas – que seu autor tentasse pôr as coisas em perspectiva para além do “péssimo”. Como dar conta do elogio que o Lula fez ao mais truculento dos nossos ditadores, por exemplo (isso também está no meu livro). Se você acha que tentar enxergar além do velho preto ou branco, bom ou mau, feio ou bonito, é criar salvaguardas e desculpas, então é isso mesmo que eu estou fazendo.

  • Daniel Brazil 19/03/2009 at 16:30

    Raízes do Brasil é um livro sobre botânica?

  • Rafael 19/03/2009 at 16:33

    Sim, é um livro sobre botânica. E “Visão do Paraíso” é um livro sobre oftalmologia na perspectiva cristão.

  • Tibor Moricz 19/03/2009 at 17:48

    Sérgio, cria uma postagem aí mais polêmica, que o IG dê link na página principal. Tô meio aborrecido sem nada pra fazer e dar uma pirada com a multidão ignara é divertidíssimo.

  • L. 19/03/2009 at 18:47

    Ok, Sérgio, você tem razão. Vou ler o seu livro primeiro para comentar propriamente. Estava falando das minhas impressões aqui pelo blog, seus posts e a entrevista. Pareceu-me exagerada e sintomática essa preocupação toda em não ser tomado como “direita”, quando se está falando de algo tão chocante como caso Elza. É preciso ter apenas humanidade para achar essa história importante e inadmissível.

    Até onde sei, Olga ainda estava com Prestes quando este mandou executar Elza. É sim significativo como a esquerda conseguiu basicamente a canonização de Olga. Mas como ser humano, fico enojado com o que aconteceu com ambas. Elza foi vítima da mentalidade stalinista, que tentou se fazer valer no Brasil com patética Intentona e ainda dá sinais na China e em Cuba. Olga foi vítima do populismo ditatorial de Vargas, do fascismo e do antisemitismo. Foram enfim vítimas do século XX.

  • Jonas 19/03/2009 at 19:27

    Grande Sertão: Veredas também está na prateleira de literatura gay?

  • Felipe 19/03/2009 at 22:45

    É, pelo que parece o Sérgio escreveu o livro meio que “sem querer querendo” chegar a esse ponto e os reaças fizeram o resto.

    Dá muita vontade de ler, mas é difícil ler alguma coisa que a Veja elogia, não é?É difícil concordar com quem acha que Daniel Galera é literatura boa e Saramago é só um velho com óculos grandes…

    Eu procuraria um médico se gostasse de algo que eles recomendam

  • Felipe 19/03/2009 at 22:47

    E Silvio, O retrato de Dorian Gray é literatura gay sim.

    Do autor à última palavra.

  • Joca 20/03/2009 at 09:29

    O livro é sobre um assunto explosivo a respeito dos comunistas brasileiros, e a melhor pergunta que um jornalista lhe fez até agora foi

    “Você não teme que seu livro seja “apropriado” pela direita? Acredita que haverá reações negativas por parte da esquerda? Isso causa preocupação?”

    O jornalismo tá nas últimas mesmo…

  • Fernando Torres 20/03/2009 at 09:41

    Paraísos Artificiais não é um livro sobre cibernética. Aliás, que raio é cibernética afinal?

    Brincadeiras à parte, dizer que Dorian Gray é um livro gay, é a mesma coisa que dizer que “ensaio sobre a cegueira” é um documento que prega a intolerância contra os cegos. É uma leitura reducionista e tacanha.

    Aliás, livros não tem orientação sexual, mas sim as pessoas. Alguem, em sã consciêcia, tacharia o “A sangue frio” de um livro gay? Ou Macunaíma? E o que seria literatura hetero? Já sei! Ernest Hemmingway! Por favor, quando falamos de literatura, existe a boa, a ruim, a que diverte e a que chateia. Não necessariamente a boa diverte e a ruim te chateia.

    Sérgio, independente da orientação política (ou sexual) sua ou do seu livro (e eu não estou de maneira alguma insinuando que você tenha uma ou outra orientação política ou sexual), aguardo o lançamento, para, quem sabe, ter uma discussão sobre literatura, e não sobre orientações sexuais e políticas.

  • Lya Tapajós 20/03/2009 at 13:24

    Joca, leia direito: “algumas das melhores perguntas”, escreveu o Sérgio Rodrigues, e não “a melhor pergunta”. Faz diferença, não?

  • Thiago Maia 20/03/2009 at 15:39

    O homem que via o trem passar, de Simenon, não só é literatura gay, como é também um libelo pela liberdade de costumes em Minas : )

  • shirlei horta 20/03/2009 at 15:53

    Eu ainda não li! Nunca me senti tão “enterrada” quanto agora!

  • Joca 20/03/2009 at 19:09

    É, Lya. Você tem razão.
    Que seja a pior entre as melhores, então.

  • Lya Tapajós 20/03/2009 at 20:56

    Joca, a questão é que achar a pergunta boa ou ruim, melhor ou pior, muda a sua opinião sobre o jornalismo – suponho eu. E cá pra nós: a pergunta é boa, deixe de ser implicante. Meu avô, João, que era chamado de Joca, era, dá licença, um doce de pessoa. Mas, tudo bem, você parece meio azedo. Em todo caso, leia Elza, a garota primeiro. Não comprei ainda, mas faço a maior fé. Um abraço, Lya

  • Cássia 21/03/2009 at 17:14

    Ideologizar teu livro é de uma estupidez atroz. O que estou lendo é um belo livro que conta muito bem uma boa história.

  • Persegonha 21/03/2009 at 21:52

    A pergunta de Trigo é típica de um país que não tem… direita. O Brasil não a tem. Não sabemos o que é uma direita de verdade. Uma direita como a que existe na Alemanha, na Espanha, em Portugal, em países civilizados onde ser de direita não é um crime, não é uma coisa hedionda. Falta muito para este país ser uma democracia mesmo. O primeiro passo é deixar de querer dar satisfação pros esquerdistas a cada coisa que se fala e faz por aqui. Se não pagar o pedágio pra esquerda, não vale!

    Vamos falar sério, gente!

    Ser de direita não é crime. Ser de esquerda também não é.

    A direita, em sua história produziu ditaduras e tentou acabar com o banho de sangue na Revolução Francesa (pesquisar!!!). E produziu democracia!!! A esquerda, onde assumiu, produziu 100 milhões de mortes. Por que este maldito pedágio pra eaquerda? Covardia!

  • Felipe 21/03/2009 at 21:59

    A quem se sentir incomodado só de ouvir falar do livro, faço um único pedido: leia-o primeiro.

    Palavras do autor.

    Estão todos preocupados com a “direita” (!!!), mas na verdade , temerosos de como a esquerda receberá o livro.

    Impostura intelectual.

  • Renato 21/03/2009 at 22:01

    Lembro de um artigo de Boris Fausto no caderno Mais!, ele falava de um massacre que ocorreu na Polônia a mando dos soviéticos. Contudo, a principal preocupação do artigo é que tal acontecimento é usado pela direita, que os historiadores precisam ter cuidado. Quanto humanismo!

  • Felipe 21/03/2009 at 22:11

    Boa lembrança, Renato!

    “Elza, a garota” fala de um crime da esquerda. Um crime frio, em nome do novo porvir. Um crime autorizado por Prestes! Que depois de ter a mulher entregue aos campos de concentração alemães, subiu no palanque para defender Getúlio Vargas – o homem que a entregou. Prestes não te moral!

    Sergio, não precisa ficar se desculpando com a esquerda, é quase como: “Foi mal, meu próximo livro é sobre o Pinochet….”

  • claudio 23/03/2009 at 15:14

    ” A publicação de “Elza, a Garota” constrói um diagrama que estava incompleto com a publicação de “Olga”. … dois pontos superiores separados, … dois regimes para os quais as pessoas humanas (sic) específicas não tinham qualquer valor…”

    Toda biografia de uma “pessoa humana” morta é praticamente uma psicografia. De onde vem as ideias afinal?

    Nesse sentido, “Memórias Póstumas” afasta-se do “espiritismo”, já que Brás Cubas, sendo ficional, não era uma “pessoa humana”, nem pessoa animal, vegetal ou mineral.

    Esse releases ….

  • Joca 24/03/2009 at 09:52

    Lya, a pergunta é muito boa mesmo. Repensei minha opinião com base nos seus argumentos e concordo, agora, com você: que momento vive o nosso jornalismo cultural! Obrigado.

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