Merchandising literário, uma modesta proposta

24/01/2015

livro com dinheiro– Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Mas só comecei a acertar mesmo quando troquei o velho trabuco por esta Taurus aqui, arma de grande maravilha. O senhor espie. Hem? Hem?

*

Até hoje permanece certa confusão em torno da morte de Quincas Berro Dágua. Dúvidas por explicar, detalhes absurdos, contradições no depoimento das testemunhas, lacunas diversas. Nada que a agência de detetives Labanca & Irmãos não resolva em uma semana, com resultados comprovados e sigilo garantido.

*

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu
Viu outra lua no mar.

O doutor que a atendeu
Não tardou a receitar
Óc’los da Ótica Fiel
Pra vista dupla acabar.

*

Levantai-vos, heróis do Novo Mundo…
Andrada! arranca este pendão dos ares!
Colombo! que chás espetaculares!

*

Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. Se os tivesse, não hesitaria em escolher o conforto e a segurança da Maternidade Nossa Senhora do Bom Parto, que tem convênio com todos os planos de saúde.

*

Das mais surpreendentes
é a vida de tal faca:
faca, ou qualquer metáfora,
pode ser cultivada.

E mais surpreendente
ainda é sua cultura:
medra não do que come
porém do que jejua.

Podes abandoná-la,
essa faca intestina:
jamais a encontrarás
melhor que Tramontina.

*

Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Mas um dia hei de ir – nas asas da Air France, ça va sans dire!

*

Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala. Ao pé deles, degustariam com delícia sua cota de Maxi Goiabinha.

*

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja de Zippo enquanto dure.

2 Comments

  • Zulmira 24/01/2015 at 23:29

    Oh! Estou chocada! É como desenhar bigodes na Monaliza! Espero que nenhum publicitário espertinha queira aproveitar a ideia! 😉

  • Sérgio Carvalho 28/01/2015 at 21:37

    Xará, tudo bem? Gosto muito do seu blog e de seus livros.

    Posso estar sendo pretensioso, mas – como escritor amador- eu gostaria de ler um texto sobre os softwares/aplicativos usados por profissionais como você. Já ouvi falar no Scrivener, no Ywriter e outros. Você usa algum? Se não, conhece algum que pode recomendar?

    Enfim… Apenas uma sugestão. Forte abraço e mais sucesso ainda.
    Obrigado pela leitura, Sérgio. A pauta é boa, mas não sou a pessoa indicada para satisfazer sua curiodidade. Prefiro escrever à “moda antiga” – o que não quer dizer que use lápis ou caneta, estou falando do velho Word mesmo. Um abraço.

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