Nem só o sertanejo é universitário. A literatura também

25/02/2013

O segredo que Mark McGurl revela em ‘The Program Era: Postwar Fiction and the Rise of Creative Writing’ é o quanto a riqueza da cultura americana do pós-guerra (e aqui me atenho ao romance, por motivos que serão explicados) é produto de um sistema universitário e, o que é pior, do programa de escrita criativa como parte institucional e institucionalizada desse sistema. Não se trata apenas de uma questão de documentação e pesquisa histórica, abundantes no livro, mas de uma questão de vergonha: os escritores americanos modernos sempre gostaram de se imaginar livres do suplemento artificial à vida real que é a universidade e, sobretudo, dos cursos de escrita criativa. Quem sabe faz, quem não sabe ensina. Basta pensar no elogio que intelectuais europeus como Sartre e Simone de Beauvoir fizeram aos grandes escritores americanos que não deram aulas nem frequentaram a universidade, mas trabalharam como motoristas de caminhão, garçons, vigias, estivadores, enfim, em tudo menos como intelectuais, registrando “o fluxo constante de homens por todo o continente, o êxodo de toda uma cidade para os campos da Califórnia” – e por aí vai.

Denso e recheado de provocações, o ensaio “O segredinho inconfessável da América”, do crítico marxista Fredric Jameson, é uma das atrações do número 13 da revista “serrote”, que chega às livrarias na semana que vem. Publicado ano passado na London Review of Books, o texto faz uma análise do livro The program era, de Mark McGurl, ainda sem tradução no Brasil, que trata do domínio exercido pelos cursos universitários de “escrita criativa” sobre a totalidade da literatura americana do pós-guerra. McGurl fez uma rápida aparição aqui no blog quando lançou o livro, em 2011.

Sendo Jameson quem é, seu ensaio não se limita a resumir e comentar brevemente as teses expostas na obra de McGurl, que chama de magistral, mas aponta os aspectos em que a considera limitada. No trecho abaixo, que encerra o ensaio, apresenta William Faulkner como inventor do “realismo mágico” e tenta imaginar de forma sumária quais seriam os reflexos fora das fronteiras dos EUA dos temas que McGurl aborda. Algo que o leitor brasileiro àquela altura já estará fazendo, instigado por uma discussão teórica que de modo algum é estranha às mais candentes conversas literárias travadas hoje por aqui – “modernismo” contra “realismo”, por exemplo. E no fim das contas oficinas literárias também estão em alta entre nós, não estão?

Leitores pouco habituados à crítica acadêmica (principalmente os adeptos do “quem sabe faz, quem não sabe ensina”) podem ter alguma dificuldade em acompanhar os argumentos e conceituações de Jameson, mas vale a pena insistir.

‘The Program Era’ se limita, então, somente aos EUA? É verdade que o autor evoca “A república mundial das letras”, de Pascale Casanova, mas apenas para adaptá-lo à “globalização interna” da multiplicidade de formas e modos literários de distinção pesquisados ao longo de sua complexa história. Contudo, não se deve supor que a literatura americana e a língua inglesa parem em nossas fronteiras: para Casanova, a consagração dada por Paris era um estágio crucial para a recepção mundial de escritores não franceses (à qual devemos somar também a tradução para o inglês, já que o reconhecimento mundial hoje consiste em garantir esse green card em particular). Enquanto isso, algumas de nossas posições literárias também foram terceirizadas; é provável que muito do que ocorre lá fora possa ser associado à sala de espera da classe média baixa e classificado prematuramente como mero “realismo”. É provável que já faça muito tempo que a experimentação reflexiva tenha sido feita no exterior, mas há uma categoria que os americanos começaram a explorar, que é o maximalismo faulkneriano, cujas vozes intermináveis não parecem mais toleráveis fora de seu contexto sulino. Agora, traduzida como algo chamado de “realismo mágico”, essa especialidade americana – seja adotada por Günter Grass ou por Salman Rushdie ou por autores do boom latino-americano – vem sendo promovida como um gênero genuinamente global, e podemos ter um vislumbre, fora dos limites da era dos cursos de criação literária dos EUA, dos contornos de um sistema mundial de letras completamente diferente que toma forma.

5 Comments

  • Flávio 25/02/2013 at 21:44

    Estamos vendo isto acontecer debaixo de nossos olhos e mal comentamos este assunto. A natureza primitiva, vulgar e banal do homem tem sido enaltecida como meio de conquistar público e servindo ao público jamais vemos os autores procurarem elevar a qualidade intelectual da peça, contribuindo para manter ou piorar toda essa situação de barbaridade.

  • Deliar 26/02/2013 at 10:20

    Enfim um assunto interessante.

  • Rosängela Maria 26/02/2013 at 11:51

    De tudo o que li aqui cheguei a algumas conclusões. Primeiro, penso que os escritores do “ofício outro trabalhista do ganha pão”, ao escreverem o realismo que Sartre elogia ( se é que entendi direito), não ganham nada entre os literatos da Academia e precisam mesmo correr atrás do dimdim. Segundo, penso também que estamos vivendo o momento “histórico contemporäneo pré apocaliptico”, e muitos querem saber o que vem aí. Esta literatura corre entre os que creem que a Bíblia entre seus livros poéticos, históricos e proféticos responde e atende a camada ansiosa por saber o seu futuro ( e haja pseudos para enganar)onde o presente é a chave. Bem, terceiro: Literatura de ficção que bomba, está sempre ligada a esse mundo caótico apocaliptico, mesmo sendo romance. Mas a Literatura que “ensina” a verdade ( que todos buscam, mesmo na ficção)está na contramão da Universidade e da Literatura Oficial.

  • Rosängela Maria 26/02/2013 at 12:39

    Pensando bem, se eram “grandes escritores elogiados por Sarte, devem ter deixado os tais ofícios, né não( interrogação). E para quem não está nada habituada a crítica acadêmica, explorar o maximalismo faulkneriano aqui, foi de suar o côco. rsrs

  • Rosängela Maria 26/02/2013 at 14:52

    Esse côco assim, com acento, num blog de um literato, me deixa constrangida. Perdão.

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