No gabinete de Sua Gloriosíssima

14/11/2011

– O Poeta Municipal de primeira classe 738-B33 mandou um requerimento.

– O que ele quer?

– Ser promovido a Poeta Estadual de segunda classe.

– Ah, de segunda direto? Terceira não serve?

– É o que está no requerimento, senhor: “…vem solicitar de Vossa Gloriosíssima a promoção deste humilde artista a Poeta Estadual de segunda classe por notório saber, blábláblá”. Anexa um livrinho.

– Não me digas que é o Descertezas

Descertezas convexas, isso.

– Rá, mas é cara de pau esse 738-B33! O que tens na mão, 156-T040, é um opúsculo fraquíssimo, quase todo plagiado, uma vergonha.

– Aqui na orelha diz que é sampling.

– Sampling, tá bom. Quer dizer que o 738-B33 acha que pode ser promovido a Estadual depois de lançar um troço desses? Precisa aprender uma lição, o mané. Vamos rebaixá-lo.

– A Municipal de segunda?

– Não, vamos rebaixá-lo de categoria.

– O senhor diz tornar 738-B33 um…

– Poeta Invisível, exato.

– Hã, sem querer soar impertinente, senhor, julgo ser meu dever, no papel de Conselheiro Crítico de primeira classe, lembrar que a última vez que rebaixamos alguém a Poeta Invisível foi há mais de dez anos, e o episódio não acabou bem.

– Sim, mas até que ponto é justo incriminar uma pessoa pelo suicídio de outra? E talvez seja por isso, 156-T040, que a minha administração vem sendo acusada de frouxa. O Partido da Não Hierarquização Universal nunca teve tanto topete. A gente precisa rebaixar mais.

– Devo lembrar ainda, Vossa Gloriosíssima…

– Não me chames assim, já te pedi. Na tua boca eu sempre suspeito de ironia.

– Imagine, senhor, eu não ousaria. Mas é meu papel lembrar também que a dificuldade técnica de manter um poeta invisível nos dias de hoje é enorme. Os blogs…

– Eu conheço os protocolos, 156. Não há mistério em impedir que as páginas se abram, failure em todos os browsers do mundo.

– É, mas agora tem aquelas outras ferramentas, as redes sociais…

– Mobilizaremos os recursos que forem necessários, não te preocupes com isso. Próximo item da pauta?

Foi assim que o Poeta Municipal de primeira classe 738-B33 viu-se rebaixado de repente a Poeta Invisível, categoria em que ficou até morrer. Não se matou, afinal. A mulher dele, sim, décadas depois, com três potes de comprimidos, mas desse desenlace Sua Gloriosíssima não chegou a ficar sabendo.

2 Comments

  • Allan Amorin 14/11/2011 at 15:36

    Muito interessante… é realmente assim mesmo na literatura, nos espantamos com as escolhas que outros fazem.

  • Hildebrando 14/11/2011 at 22:29

    Bom, muito bom.

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