Nobel para Vargas Llosa: ganham os dois, ele e o prêmio

07/10/2010

O escritor peruano Mario Vargas Llosa, anunciado agora há pouco pela Academia Sueca como vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 2010, é um dos nomes mais incontestáveis a receber a honraria em muitos anos. Um dos mais destacados representantes da geração do chamado “boom latino-americano” dos anos 1960-70, Vargas Llosa, 74 anos, nascido em Arequipa, mora hoje em Nova York e leciona na Universidade de Princeton, em Nova Jersey. É autor de diversos romances que combinam sucesso de público com o respeito da crítica, como “A cidade e os cachorros”, “Conversa na catedral”, “A guerra do fim do mundo” (sobre Canudos), “Tia Julia e o escrevinhador”, “Pantaleão e as visitadoras” e “Travessuras da menina má”. Seu próximo romance, “O sonho do celta”, será lançado em breve. A obra de Vargas Llosa vem sendo relançada no Brasil pela Alfaguara e uma coletânea de artigos e ensaios, “Sabres e utopias”, acaba de sair por aqui aqui pela editora Objetiva, do mesmo grupo.

Nos ensaios literários deste livro, Vargas Llosa enfoca nomes como Jorge Luis Borges, Cabrera Infante e Jorge Amado, classificado por ele como o único escritor a merecer ir para o céu. Sua militância latino-americanista fica evidente, mas a literatura ocupa espaço subalterno no volume diante da atenção dispensada às memórias e reflexões sobre sua visão de mundo e carreira política: entusiasta de primeira hora da Revolução Cubana, Vargas Llosa caminhou nos anos 1980 para o liberalismo – o que contribuiu para indispô-lo de forma definitiva com um grande amigo de juventude e também escritor premiado com o Nobel, o colombiano Gabriel García Márquez. Em 1990, disputou a presidência do Peru e foi derrotado por Alberto Fujimori, o que o levou a abandonar a política partidária.

No texto em que fundamenta a escolha de Vargas Llosa, a Academia Sueca destacou “sua cartografia das estruturas de poder e suas vigorosas imagens de resistência, revolta e derrota do indivíduo”. Isso não quer dizer muita coisa, mas o que veio em seguida sim: “Ele é um contador de histórias divinamente dotado”. De todo modo, se pode haver algum potencial de polêmica no anúncio, ele é apenas político. Não faltarão especulações sobre que tipo de sinal a Academia Sueca – que parece nunca deixar de levar tais aspectos em consideração, é verdade – quer enviar ao mundo. Do ponto de vista estritamente literário, ganhou um dos grandes escritores vivos. Sua vitória é tão boa para ele quanto para o prestígio do próprio Nobel, quebrando uma sequência de seis anos em que haviam sido premiados cinco europeus – além de um turco, Orhan Pamuk. Desde a vitória de García Márquez, em 1982, um escritor sul-americano não levava o prêmio de 1,5 milhão de dólares.

Em declarações ao site do jornal espanhol “El País”, o escritor peruano disse que, a princípio, quando recebeu a notícia, julgou tratar-se de um trote. “Acreditava ter sido inteiramente esquecido pela Academia, nem mesmo sabia que o prêmio seria anunciado este mês”, disse. Declarando-se “muito comovido e entusiasmado”, acrescentou que o prêmio é um “reconhecimento à língua espanhola”.

Como nota curiosa, registre-se que as casas de aposta londrinas, que este ano nem previram o nome de Vargas Llosa, são mais uma vez as grandes derrotadas.

Confira os outros vencedores dos anos 2000:

2009 – Herta Müller

2008 – Jean-Marie Gustave Le Clézio

2007 – Doris Lessing

2006 – Orhan Pamuk

2005 – Harold Pinter

2004 – Elfriede Jelinek

2003 – J.M. Coetzee

2002 – Imre Kertész

2001 – V.S. Naipaul

2000 – Gao Xingjian

(Atualizado às 11h18.)

20 Comments

  • Ana Cristina Melo 07/10/2010 at 09:15

    Sérgio, foi com imensa alegria que recebi essa notícia hoje. Acho que um prêmio como o Nobel precisa ter relevância mundial. É estranho ter vencedores que são conhecidos num círculo restrito.

    A indicação de Mario Vargas Llosa é a premiação da narrativa, a premiação de um maravilhoso “contador de histórias”, como eles reconheceram.

    Estou feliz pelo prêmio ter sido dado a ele, por ter sido dado a um autor da América Latina, por ter sido dado a um escritor que encanta e nos dá prazer em seus textos.

    Bjs

  • Norberto 07/10/2010 at 09:54

    Leitor de Euclides da Cunha, Llosa recontou a história de Canudos em A Guerra do Fim do Mundo. O escritor peruano mereceu ganhar o prêmio Nobel hoje. E tem em seus escritos uma página da história brasileira.

  • Ernâni Getirana 07/10/2010 at 09:55

    Está na hora da Academia Sueca pôr um brasileiro lá. Sugiro Guimarães Rosa!!!!!!!!!!!!

  • sinisorsa 07/10/2010 at 10:14

    Que boa notíci!a! Sou grande fã do Vargas LLosa.

  • Nilton 07/10/2010 at 11:24

    Sergio, você não sabe como estou feliz com a notícia. Não só por ser peruano, mas também porque Vargas Llosa é um dos meus autores favoritos. Estou terminando de ler o magistral Conversa na catedral. O prêmio é merecidíssimo!

  • Clelio T. Jr 07/10/2010 at 12:11

    Parabéns ao Llosa, mas ainda quero ver o Philip Roth premiado.

  • Aian Cotrim 07/10/2010 at 15:06

    Que maravilha! Fiquei extasiado com essa notícia hoje. A escrita de Vargas LLosa é deliciosamente vasta e infalível. Poucos são os que escrevem tanto e tão bem. É uma pessoa que nos ensina a ler de novo, sempre… Agora nos resta esperar pelo discruso oficial, que sempre é publicado pela Academia, e não raro trata-se de uma boa obra.

  • Sherlock 07/10/2010 at 16:03

    Parabéns ao Llosa – pela literatura e pela visão política (que o filho retrata com ainda mais clareza). Prêmio mais do que merecido, tanto pelo escritor quanto pela Academia.
    E o Brasil? Quando receberá tal honraria? voto no Diogo Mainardi – alguém me acompanha?

  • Agnaldo Ruivo 07/10/2010 at 16:06

    Não há dúvidas que Llosa é o grande merecedor desta edição do Nobel 2010, sua escrita é rica e cheia de nuances como um campo em plena primavera. Contudo, o título que foi dado à matéria parece delinear uma opinião cuja escolha feita pela academia sueca teria como propósito ir além do campo da literária, mas o de ampliar ou reposicionar estrategicamente sua abrangência de mercado, no caso a América Latina.

  • Marcelo ac 07/10/2010 at 17:35

    Sérgio, não esquecer Octavio Paz, em 1990!

    • sergiorodrigues 07/10/2010 at 17:47

      Não esqueci, Marcelo. Por isso escrevi “sul-americano”. O Octavio Paz é do México.

  • Tomás 07/10/2010 at 19:21

    Achei a escolha tão boa, que, quando li, pensei alto: “de novo?”.
    Tinha certeza que o sujeito já era Nobel há tempos.

  • FRANCISCA REGINA RIBEIRO VERISSIMO 07/10/2010 at 19:47

    SABE, GENTE QUEM ESTAR COM INVEJA DO ESCRITOR PERUANO DEVE SER O SARNEY ERA UMA DE SUA ASPIRAÇÕES.JÁ QUE A ACDEMIA DE LETRAS DO BRASIL LHE DEU UM ASSENTO FORMA GRATUITA.PODE-SE CONFIAR NUMA ACDEMIA DESSA? QUE TEM O SARNEY COMO ACADEMICO.NÃO TEM UM LIVRO QUE PRESTE, NÃO SERVE NEM PARA LIMPAR AQUILO.
    AQUILO.

  • Marcelo ac 07/10/2010 at 19:59

    Na pressa, entendi latino-americano, desculpe.

  • neil 08/10/2010 at 04:09

    muitos parabéns a meu compatriota,mario vargas llosa,agora falta guimaraes rosa,

  • sergiorodrigues 08/10/2010 at 06:52

    Neil e Ernani, Guimarães Rosa deixou de ser elegível quando morreu. Abs.

  • Anouk 08/10/2010 at 12:27

    Olá!
    Legal que o prêmio tenha saído para o escritor peruano. Nunca li seus livros, mas sei que suas obras sao de grande valor literário – palavras de Marcel Reich Ranicki – grande crítico literário alemao. No momento estou lendo “O Museu da Inocência” de Orhan Pamuk. Estou gostando, embora Ranicki nao tenha tido interesse em conhecer o trabalho do escritor turco. Coisas do grande mestre. Abs.

  • valmon 21/12/2010 at 10:54

    Nossa estou surpreso pensei que o premio iria para o Tomas, estou at´um pouco decepicionada tava torçendo pra ele.

  • Willmondes 30/12/2010 at 10:36

    Como dito no artigo acima, realmente a Academia tem um viés muito político na escolha, nem sempre reverenciando a boa literatura. Embora, o caso de Llosa e alguns outros sejas merecidos. Em língua portuguesa, não reconheceram gênios como Machado de Assis (ainda que póstumo) e João Guimarães Rosa (que ainda era vivo, quando da criação do prêmio).

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