O amor nos tempos do códice

13/05/2011

Não fazia tanto tempo que costumavam chamá-la de promessa vigorosa da nova literatura brasileira. Flipou, flopou, fliportou, festpoou, e por cinco ou seis anos, se não foi famosa, existiu inquestionavelmente, carta no baralho das antologias igrejísticas e nome no caderninho dos repórteres de metrópoles e grotões, a fazer aparições frequentes em telas e papéis a pretexto de polêmicas culturais aguadinhas que, sustentadas pelo acordo tácito de que o rei nu exibia vestes de alta costura, às vezes abriam caminho para a republicação daquela sua fotinho de dez anos atrás em que luz chapada, rímel e lábio inferior levemente mordido compensavam a escassa beleza de nariz adunco e pele áspera.

Ele, sim, era bonito, talvez até lindo, mas era um menino, um fedelho de cabelo desgrenhado e barba por fazer, quando se aproximou dela no fim do coquetel com jeito de fã encabulado e a presenteou com dois livrinhos que traziam na capa o logo de um desses selos editoriais inacreditáveis porque inexistentes, marca patética do amadorismo que agora brotava feito capim por todas as gretas do solo calcinado. Ela sorriu um sorriso de grande dama benevolente, ele se inflamou com o ímpeto kamikaze dos tímidos e, num sussurro ao pé do ouvido, disse que a literatura dela era um tesão, aí foi tudo rápido, difícil de reconstituir, mas de uma forma ou de outra se devoraram com gulodice aquela noite e mais quatro ou cinco noites nas duas semanas seguintes.

Foi ela quem cortou a onda sem mais nem menos, sem explicar sequer a si mesma o que nem saberia explicar direito. Parar de atender o telefone e responder aos emails dele parecia estar na ordem natural das coisas, uma promessa vigorosa da nova literatura brasileira seguindo seu caminho grave e atarefado depois de bafejar sua aura de esfinge sobre um mortal mais jeitosinho encontrado à beira da estrada, generosa mas no fim das contas realista, capaz de fingir por algum tempo que o selo editorial patético na capa dos livretos dele não era tão broxante quanto um arrotaço em dó maior num jantar à luz de velas, mas sabendo que era exatamente isso, claro, não tinha como não ser.

Naquele caminho grave a atarefado que lhe cabia, virando noite em cima de noite para terminar seu segundo romance, demorou a se dar conta de que ninguém mais a chamava de promessa vigorosa da nova literatura brasileira. A ficha só caiu no dia em que sua editora, selo magnífico de ouro e diamante, recusou os novos originais e inaugurou uma sensação quase onírica de estupor e incredulidade que a conduziu nos meses seguintes por uma espiral descendente tão humilhante quanto estéril, livro debaixo do braço, das casas editoriais mais prestigiosas às casas editoriais mais ou menos, das casas editoriais mais ou menos às casas editoriais fuleiras, enquanto seu nome, carta fora do baralho das antologias igrejísticas, ia desaparecendo aos poucos da agenda dos repórteres de metrópoles e grotões. A fotinho logo brilhava apenas em seu próprio blog desertado.

Uma noite ligou aos soluços para o menino de cabelo desgrenhado e, em meio a pedidos de perdão, precisou fazer um esforço enorme para não perguntar imediatamente pelo selo editorial patético dele, melhor guardar aquilo para depois que tivessem se devorado com gulodice mais uma vez, isto é, caso ele topasse reabrir aquele arquivo, e ele riu e falou que topava, então ela disse: Eu te amo, cara. E era verdade.

One Comment

  • Isaías Caminha 17/05/2011 at 00:40

    Bom, muito bom, Sérgio. Serei franco: os personagens-tipo, caricaturais, não me agradaram muito em “As sementes de Flowerville”, mas os seus relatos curtos são excelentes justamente porque os tipos dão concisão e punch.

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